sexta-feira, 24 de abril de 2020

CANTO XXIX


PARAÍSO


Canto XXIX


            Os primeiros versos do Canto XXIX contêm uma comparação que, como habitualmente, envolve referências à mitologia e aos astros.

            Dante inicia mencionando “os filhos de Latona” (li figli di Latona- v.1), ou seja, Apolo e Diana, personificação do Sol e da Lua respectivamente. O poeta vai comparar o breve momento em que Beatriz se calou, olhando fixamente o Ponto (punto-v.9) divino, ao lapso de tempo em que esses astros estão em equilíbrio, a igual distância do zênite celeste, em posições diametralmente opostas no círculo do zodíaco, “um sob o signo de Áries e outro sob o de Libra” (coperti del Montone e de la Libra- v.2). Nesse momento breve, os astros “estão na mesma zona do horizonte” (fanno de l’orizzonte insieme zona- v.3), imaginado como um “cinto” (cinto- v.5) que os divide pela metade, o que logo vai se desfazer pois eles estão “mudando de hemisfério” (cambiando l’emisperio- v.6), o que subia passa gradativamente para o Norte e o que descia, para o Sul, também de modo gradativo (1).

            Em seguida, Beatriz diz a Dante que sabe o que ele quer saber (em relação aos anjos), sem que lhe pergunte, pois leu isso “lá onde está todo ‘ubi’ e todo ‘quando’” (là ‘ve s’appunta ogne ubi e ogne quando- v. 12), i.e. na mente de Deus, “o alfa e ômega de todo espaço e tempo”, conforme nota em Mandelbaum (2) (tais palavras latinas significam, respectivamente, “lugar” e “tempo”).

            Beatriz então começa a discorrer sobre a criação dos anjos, afirmando:

in sua etternità di tempo fore,
fuor d’ogne altro comprender, come i piacque,
s’aperse in nuovi amor l’etterno amore.     (v. 16-18)

em Sua eternidade fora do tempo,/ e de quaisquer outras fronteiras, como Lhe agradou,/ desdobrou-se o Eterno Amor em novos amores.

            Ou seja, Deus criou os anjos, fora do tempo e dos limites do espaço,  Não para acrescentar mais bondade a Si mesmo,/ que isso é impossível, /.../  (Non per aver a sé di bene acquisto,/ ch’ esser non può,/.../- v.13-4), pois Ele é toda a bondade. A criação é uma decorrência da Sua própria existência, de Sua natureza caracterizada pela bondade ou generosidade (3).


Hierarquia angélica- séc. XII- autor desconhecido

            O tempo só passa a existir após a criação divina, que abrange três ordens de existência: a forma, a matéria e a combinação dessas duas (“Forma e matéria, em estado conjunto ou separadas,”: Forma e materia, congiunte e purette- v. 22), conforme a concepção aristotélica-tomista adotada. Os anjos, que consistem em formas puras, foram criados ao mesmo tempo que a matéria pura (a matéria sem espírito) e os céus materiais, união da forma com a matéria (4). Assim, a criação dessas três ordens ocorre simultaneamente, lançadas na existência “como três setas de arco com três cordas” (come d’arco tricordo tre saette- v. 24), sendo este arco uma alusão à Santíssima Trindade segundo um comentarista (5). A criação ocorre instantaneamente, “como no vidro, no âmbar ou no cristal” (/.../ come in vetro, in ambra o in cristallo- v. 25)  se propaga a luz (o que era aceito na época), seguindo no caso a física de Aristóteles (6).  Aliás, esse filósofo já influenciara o poeta nos versos anteriores quando ele usou o conceito das três ordens de existência: o de forma (ou ato), matéria (ou potência) e a combinação das duas anteriores (ato e potência). Assim, enquanto a inteligência dos anjos é ato, a dos homens é potência. Os céus materiais, por outro lado, são tanto ato quanto potência, uma vez que os anjos controlam os céus mas os corpos celestes permanecem materiais, sujeitos às leis naturais (7).

            Nos versos seguintes Dante retoma a questão, abordando a hierarquia e estrutura do cosmo, estabelecidas juntamente com “as substâncias” (le sustanze- v. 32) criadas, i.e. as três ordens de existência referidas acima (8):

/.../ e quelle furon cima
nel mondo in che puro atto fu produto;

pura potenza tenne la parte ima;
nel mezzo strinse potenza con atto
tal vime, che già mai non si divima.       (v.32-6)

/.../  e na parte mais alta / do universo estavam aquelas feitas ato puro;
a potência pura foi posta na parte mais baixa;/ e no meio potência tão unida ao ato/ que tal ligação jamais se desfará. 

            Assim, na parte mais alta do universo estavam as inteligências angélicas (“ato puro” ou “forma pura”), na parte mais baixa a “potência pura” (a Terra era “matéria pura”, ou amorfa, antes de ser criada por Deus) e na parte intermediária, estava a potência unida ao ato (ou a matéria à forma), ou seja, os nove céus, localizados acima da Terra e abaixo do Empíreo (9), conforme a concepção geral desta terceira parte da Divina Comédia, o Paraíso.


S. Jerônimo por Filippino Lippi- c. 1493
            Dante, seguindo Tomás de Aquino, diverge de S. Jerônimo, para quem os anjos haviam sido criados primeiro (v.37-39) (10). O poeta justifica sua posição baseando-se na Bíblia (nas páginas dos “escribas inspirados no Espírito Santo”: da li scrittor de lo Spirito Santo- v. 41) e na razão, pois não teria sentido criar “os que movem os céus” (‘motori- v. 44) e depois deixá-los que “permanecessem imperfeitos tanto tempo” (sanza sua perfezion fosser cotanto- v. 45), i.e., sem cumprir a tarefa para a qual foram criados, um argumento de S. Tomás de Aquino (11). Neste teólogo, aliás, Dante se apoiou em muitas outras ocasiões.  


Triunfo de S.Tomás de Aquino sobre Averroes
            “/.../ assim, já se apagam/  três chamas de teu desejo” ( /.../ sì che spenti/ nel tuo disïo già son ter ardori-  v.47-8), diz Beatriz a Dante, usando linguagem metafórica. Ela acaba de satisfazer a curiosidade dele relativamente a estas três questões—“onde”, “quando” e “como” foram criados os anjos, “esses espíritos de amor” (questi amore- v.46). Eles foram criados no Empíreo (a morada de Deus), ao mesmo tempo que o restante da criação divina e como seres perfeitos (12).

            Mas Beatriz não para por aí. Ela passa a abordar em seguida a revolta de uma parte dos anjos, ocorrida imediatamente após a criação, “Mais cedo do que se leva para contar até vinte” (Né giugneriesi, numerando, al venti/ sì tosto, /.../- v. 49-50), como diz o poema. Essa foi a revolta de Lúcifer e seus seguidores.  

Principio del cader fu il maladetto
superbir di colui che tu vedesti
da tutti i pesi del mondo costretto.     (v.55-7)

O motivo da queda foi a maldita/ soberba daquele que tu viste/ esmagado por todo o peso do mundo.

            Esse último verso citado (v. 57) fica mais explícito quando lembramos  que Lúcifer, ao ser derrotado, foi lançado violentamente para baixo, por um impulso tão forte que o fez penetrar na Terra e ser levado até o seu centro, onde se  alojou. O buraco que fez originou o Inferno (e a montanha do Purgatório, pelo deslocamento do solo). Percorrendo o Inferno, na primeira etapa de sua jornada, Dante chegou de fato a vê-lo em seu círculo mais recôndito (por isso, o v. 56 afirma “daquele que tu viste”).    

            O restante dos anjos, “humildes” (modesti- v.58), diferentemente dos primeiros (dominados pela soberba), não se revoltou, e “começou esta função/ que podes ver, com tanto deleite” (/.../ e cominciò quest’arte/ che tu discerni, con tanto dileto, /.../-  v. 52-3), qual seja a de mover os nove céus ao redor de Deus (13).  Beatriz conclui essa passagem sobre os anjos mencionando que seu criador “os havia feito dotados de uma inteligência tão vasta” (che li avea fatti a tanto intender presti- v. 60) e uma “vontade plena e constante” (/.../ ferma e piena volontate- v. 63), de modo que tanto sua inteligência como a vontade estão voltadas para Deus. E a graça divina concedida a eles foi “proporcional ao anseio por recebê-la” (secondo che l’affetto l’è aperto- v.66).

            Beatriz acrescenta ainda uma correção ao que se ensina nas “vossas escolas” (vostre scole- v.70) -- vale dizer, nas escolas da Terra -- sobre “a natureza dos anjos” (l’angelica natura- v.71). Atribui-se a essa as características da alma humana (14). Assim, ela “é dotada de inteligência, memória e vontade  (è tal, che ‘ntende e si ricorda e vole- v.72). Mas o poeta diz que como essas “substâncias” (sustanze- v.76), ou seja, os anjos, estão permanentemente contemplando “a face de Deus” (la faccia di Dio- v. 77), da qual nada se esconde” (/.../ da cui nulla si nasconde- v.78), “não necessitam/ recordar algum conceito interrompido” (/.../ non bisogna/ rememorar per concetto diviso-  v. 80-1), i.e. não necessitam de memória (15).

             Depois, Beatriz passa a criticar os frades pregadores daquela época, que acreditam ou não no que dizem, sendo que estes “têm mais culpa e mais vergonha” (ma ne l’uno è più colpa e più vergogna- v. 84).  Lá embaixo” (na Terra), diz ela, “vós não seguis um só caminho/ ao filosofar” (Voi non andate giù per un sentiero/ filosofando/.../- v.85-6) ou seja, o caminho da verdade (16), por causa do “amor da aparência” (l’amor de l’apparenza- v. 87). Mas “isso aqui em cima se tolera/ com desdém menor” (E ancor questo qua sù si comporta/ con men disdegno - v.88-9) do que quando se prefere a filosofia à “Sagrada Escritura” (la divina Scrittura- v.90), ou quando esta é distorcida.

Per apparer ciascun s’ingegna e face
sue invenzioni; e quelle son trascorse
da’ predicanti e ‘l Vangelio si tace.     (v.94-6)

Para se mostrar, cada um se esforça/ apresentando suas invenções; e elas são desenvolvidas/ pelos pregadores enquanto o Evangelho se cala.
           
            Um deles diz, para explicar o que ocorreu na “paixão de Cristo” (la passion di Cristo- v.98) -- ou seja, a escuridão da hora sexta à nona quando Cristo foi crucificado (17) -- “que a Lua moveu-se para trás” (/.../che la luna si ritorse- v.97) no zodíaco, a fim de se interpor entre o Sol e a Terra, obstaculizando assim a luz daquele astro. Mas quem diz isso

/.../ mente, ché la luce si nascose
da sé: però a li Spani e a l’Indi
come a’ Giudei tale eclissi rispuose      ( v. 100-102).

mente, pois a luz se escondeu por si mesma:/ por isso, espanhóis e indianos/ assim como judeus viram tal (suposto) eclipse”.

             Assim, o que Beatriz está dizendo é que houve na realidade um milagre; se tivesse sido só um eclipse lunar, não teria abrangido todo o mundo conhecido, de um extremo a outro. 

            Contos” (favole- v.104) como esse, que “se gritam dos púlpitos” (in pergamo si gridan /.../- v. 105), diz ela, são numerosos na Florença de então. Faz esta comparação: são mais numerosos, em um ano, do que a quantidade de Lapos e Bindos (v. 103) que ali existem (abreviação de Jacopo e Ildebrando, prenomes muito comuns dentre os florentinos da época) (18).  Assim, “as ovelhas” (metáfora associada aos fiéis) “na ignorância,/ retornam do pasto alimentadas pelo vento” (sì che le pecorelle, che non sanno,/  tornan del pasco pasciute di vento- v. 106-7).  Beatriz prossegue: Cristo não disse à “sua primeira congregação” (al suo primo convento- v. 109) ou aos seus apóstolos (19) para saírem ao mundo pregando “tolices” (ciance- v.110) e sim o que é verdadeiro. E eles, na luta para expandir a fé,  fizeram do Evangelho escudo e lança” (de l’Evangelio fero scudo e lance- v. 114).

            Assim, Dante, pela boca de Beatriz, continua sua crítica a Igreja de então dizendo que os frades pregam para inflar seu “capuz” (il cappuccio- v. 117) (metáfora de cabeça) (20), i.e., para se envaidecer com a recepção do público ao seu desempenho. Pregam “com chistes e gracejos” (con motti e con iscede- v. 115) para agradá-lo e provocar riso. “Mas um certo pássaro se aninha naquele capuz” (Ma tale uccel nel becchetto s’annida- v. 118), pássaro esse interpretado pelos comentaristas como o demônio. Se fosse visto pelo povo, este saberia “o tipo de indulgência em que confia” (la perdonanza di ch’ el si confida- v.120). 

            Quanto a essa identificação do demônio com um pássaro, um comentarista lembra que os demônios são anjos caídos dotados de asas (21) enquanto outro informa que, na iconografia medieval, Lúcifer é representado por um corvo negro enquanto o Espírito Santo, por uma pomba branca (22).  

            Beatriz afirma que na Terra a estultícia é tanta que o povo corre atrás de qualquer promessa de perdão pelos seus pecados (e ao mesmo tempo enche os cofres dos frades, o que fica implícito). Depois da menção a ovelhas e pássaro, os versos abaixo mencionam mais um animal: 

Di questo ingrassa il porco sant’Antonio,
e altri assai che sono ancor più porci,
pagando di moneta sanza conio.     (v.124-6)

com essa estultícia Santo Antônio engorda seu porco,/ e outros mais, que são ainda mais porcos,/ os quais pagam com moeda falsificada

            A referência é a Santo Antônio, não o de Pádua (santo português), mas a um outro, mais antigo, Santo Antônio do Deserto, ou Antão do Egito (ca. 250-355), egípcio e eremita, sempre representado com um porco a seus pés, símbolo do demônio da sensualidade, vencido por ele (23).

            Beatriz diz que a estultícia, ou insensatez, dos fiéis, além de engordar, com sua contribuição em espécie, os porcos da ordem de Santo Antônio, engorda também os seus frades, “que são ainda mais porcos” (v. 125, acima), pois iludem o povo vendendo-lhe falsas promessas de perdão aos seus pecados. Essa é a “moeda falsificada” (v. 126) que passam para os ingênuos crédulos, outra metáfora.

Santo Antonio do Deserto ou Antão do Egito
            Retomando com Dante a “correta estrada” (la dritta strada- v. 128), Beatriz volta a se referir aos anjos, que vão “se multiplicando, de grau em grau” (aos olhos deles) “de modo que nunca língua/ ou conceito dos mortais exprimiu número tão alto” ( /.../ s’ingrada/ in numero, che mai non fu loquela/ né concetto mortal che tanto vada- v.130-2), incalculável. Mesmo Daniel, na passagem bíblica em que se refere ao seu número, não foi preciso a respeito (Daniel, VII, 9-10) (24).

            Os anjos (ou ”esplendores”) recebem a luz de Deus (a “Primeira Luz”: La prima luce- v. 136) individualizadamente, de “tantos modos/ quantos são os esplendores aos quais se junta” (per tanti modi in essa si recepe,/ quanti son li splendori a chi s’appaia- v. 137-8). E cada anjo detém diversamente a “doçura do amor” (d’amar la dolcezza- v. 140), uma vez que tal capacidade se baseia em diferentes visões de Deus (25). O conhecimento precede o amor, ou como dizem os versos-- “ao ato intelectual/ segue-se o afeto” (/.../ a l’atto che concepe/ segue l’affetto- v. 139-140). 

            Beatriz, ao concluir, enfatiza a visão esplendorosa que Dante passa a  ter, com os inúmeros reflexos da luz de Deus na imensa multiplicidade de anjos que Ele criou, comparados a espelhos:  

  Vedi l’eccelso omai e la larghezza
de l’etterno valor, poscia che tanti
speculi fatti s’ha in che si spezza,
   uno manendo in sé come davanti.   (v. 142-5)

   Agora já vês a excelsitude e a amplitude/ do Eterno Valor (Deus), pois tantos/ espelhos (anjos) fez em que se estilhaça a Sua luz,/ permanecendo uno em si, como antes (da criação).


NOTAS


(1) MANDELBAUM, Allen- “The Divine Comedy of Dante Alighieri- Paradiso”. A verse translation by Allen Mandelbaum. Notes by Anthony Oldcorn and Daniel Feldman, with Giuseppe Di Scipio. Bantam Books, 1986- p.415-6. .  

(2) Id. ib., p. 416.

(3) MUSA, Mark-- “Dante- The Divine Comedy- Volume 3: Paradise”. Translated with an Introduction, Notes, and Commentary by Mark Musa. Penguin Books, 1986, p.346.

(4) Id. ib., p. 346.

(5) CRESPO, Angel- “Dante Alighieri- La Divina Comedia”. Centro Editor de Cultura”, 2012. Argentina, p. 478.    

(6) SAYERS, Dorothy L. and REYNOLDS, Barbara—“Dante: The Divine Comedy 3- Paradise”. Translated by Dorothy L. Sayers and Barbara Reynolds.  Penguin Books, 1971, p. 315.

(7) Id. ib., p. 314-5.  

(8) MANDELBAUM, Allen- “The Divine Comedy of Dante Alighieri- Paradiso”, op cit, p. 416.  

(9) HOLLANDER, Robert & Jean- “Dante Alighieri- Paradiso”: a verse translation by Robert & Jean Hollander. Introduction & Notes by Robert Hollander.  Doubleday, 2007, p. 719.    

(10) MANDELBAUM, Allen- “The Divine Comedy of Dante Alighieri- Paradiso”, op cit, p. 416-417.

(11) Id. ib., p. 417.

(12) MUSA, Mark-- “Dante- The Divine Comedy- Volume 3: Paradise”, op cit, p. 347.    

(13) HOLLANDER, Robert & Jean- “Dante Alighieri- Paradiso”, op cit, p. 721.  

(14) MANDELBAUM, Allen- “The Divine Comedy of Dante Alighieri- Paradiso”, op cit, p. 417.

(15) MUSA, Mark-- “Dante- The Divine Comedy- Volume 3: Paradise”, op cit, p. 349.

(16) MARTINS, Cristiano- “A Divina Comédia”. Segundo volume. Purgatório. Paraíso. Tradução, introdução e notas de Cristiano Martins. 5a edição. Belo Horizonte: Ed Itatiaia, 1989, p. 527, nota. 
    
(17) MANDELBAUM, Allen- “The Divine Comedy of Dante Alighieri- Paradiso”, op cit, p. 417-8.
“Hora sexta” para os judeus corresponde a 12 h para nós; “hora nona”, a 15 h.  Cf.  https://estiloadoracao.com/hora-terceira-hora-sexta-e-hora-nona/

(18) Id. ib., p. 418.

(19) HOLLANDER, Robert & Jean- “Dante Alighieri- Paradiso”, op cit, p. 725.  

(20) CIARDI, John-  “The Divine Comedy”: The Inferno. The Purgatorio. The Paradiso”. Translated by John Ciardi.  New American Library, 2003, p. 858. 

(21) SAYERS, Dorothy L. and REYNOLDS, Barbara—“Dante: The Divine Comedy 3- Paradise”, op cit, p. 317.   

(22) HOLLANDER, Robert & Jean- “Dante Alighieri- Paradiso”, op cit, p. 725-6.  

(23) Id. ib., p. 726. Cf também MANDELBAUM, Allen- “The Divine Comedy of Dante Alighieri- Paradiso”, op cit, p. 418, e o link https://www.ebiografia.com/santo_antonio_de_lisboa/  acessado em 21.04.20.

(24) SAYERS, Dorothy L. and REYNOLDS, Barbara—“Dante: The Divine Comedy 3- Paradise”, op cit, p. 317.   

(25) MUSA, Mark-- “Dante- The Divine Comedy- Volume 3: Paradise”, op cit, p. 351.

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-Para ouvir o Canto XXIX:


(acessado em 16.10.20)








segunda-feira, 30 de março de 2020

CANTO XXVIII



PARAÍSO


Canto XXVIII


            Concluída a fala de Beatriz, Dante, que olhou os “belos olhos” (belli occhi- v. 11) dela, “onde Amor fez o laço que me prendeu” (onde a pigliarmi fece Amor la corda- v. 12), faz esta comparação: “como vê no espelho a chama de uma tocha/ aquele que por ela é iluminado por trás” (come in lo specchio fiamma di doppiero/ vede colui che se n’alluma retro- v. 4-5), “e se volta para ver se o espelho/ lhe diz a verdade” (e sé rivolge per veder se ‘l vetro/ li dice il vero, /.../- v.7-8), ele também se voltou para ver o que os olhos de Beatriz refletiam. E ele vê “um ponto de luz tão penetrante  (un punto vidi che raggiava lume/ acuto sì, /.../- v.16-7) que os olhos de quem o contempla “teriam de se fechar pelo fulgor intenso” (chiuder  conviensi per lo forte acume- v. 18). Prossegue, afirmando que “qualquer estrela, que da Terra parece a menor,/ pareceria (do tamanho de) a Lua, comparada àquele ponto” (e quale stella par quinci più poca/ parebbe luna, locata con esso- v. 19-20).  Esse ponto simboliza Deus, segundo os comentadores. Um deles (Sapegno) assim escreve a respeito: “O ponto matemático, que se concebe privado de dimensões, indivisível e material, é símbolo apropriado de Deus” (1).

Gelrev Ongibco 

            Dante observa que em torno daquele ponto minúsculo de intensa  luminosidade girava um “círculo de fogo” (un cerchio d’ igne- v. 25), mais rápido do que “o movimento que mais velozmente o universo cinge” (quel moto che più tosto il mondo cigne- v. 27), i.e. o do Primum Mobile. A proximidade desse círculo é expressa pelo poeta comparando-a com a da distância de um halo em relação à fonte de luz que o origina “quando o vapor que o forma é mais espesso” (quando ‘l vapor che ‘l porta più è spesso- v. 24), o que indica essa maior proximidade. Assim, tal “círculo de fogo” é o mais próximo do ponto que simboliza a divindade. Ele “tinha a chama mais resplandecente” (e quello avea la fiamma più sincera-v.37), pois, crê Dante, “mais penetra na verdade desse ponto” (/.../ però che più di lei s’invera- v. 39) (como se verá adiante, esse é o círculo dos Serafins, que estão no topo da hierarquia angélica). Outros oito círculos se sucedem (o segundo envolvendo o primeiro, o terceiro envolvendo o segundo e assim por diante) cada vez mais distantes do ponto luminoso e cada um menos rápido que o anterior (a velocidade, como se vê, é um indicador da distância de cada um em relação a Deus). Ao referir-se ao sétimo círculo, Dante faz referência à mitologia clássica (à esposa de Júpiter), dizendo que ele é tão amplo que “o mensageiro de Juno” (‘l messo di Iuno- v. 32), Íris, ou o arco-íris, “seria estreito demais para contê-lo” (v. 33).  

O Primeiro Motor-  Rafael Sanzio

            Beatriz, ao ver Dante “absorto pelo desejo de saber” (/.../ che mi vedëa in cura/ forte sospeso, /.../ v. 40-41), então se manifesta. Afirma que “Daquele ponto/ depende o céu e toda a natureza” (/.../ Da quel punto/ depende il cielo e tutta la natura.- v.41-2). Esse ponto é associado pelos comentaristas à ideia do “primeiro motor” de Aristóteles, desenvolvida por Tomás de Aquino (2). Beatriz afirma também que a velocidade do círculo mais próximo do ponto é causada “pelo ardente amor que o estimula” (per l’affocato amore ond’ elli è punto.- v.45), vale dizer, o amor dos Serafins por Deus.

Serafins (séc. XIV)

            Dante está intrigado com a disparidade entre o mundo espiritual dos círculos de fogo que ele vê, ali no Primum Mobile, em torno do ponto – “uma manifestação visual das nove ordens das Inteligências Angélicas”, conforme nota à tradução de Mandelbaum (3) -- e o mundo material das nove esferas físicas do universo em torno da Terra. Neste último caso, os céus são “tanto mais divinos” (/.../ tanto più divine,- v. 50) (mais rápidos, com mais amor a Deus) “quanto mais distantes do centro eles estão” (quant’elle son dal centro più remote- v. 51), o inverso do que ocorre, no primeiro caso, quanto aos círculos de fogo em relação ao ponto.  Assim, Dante quer saber porque há essa disparidade entre o “modelo” (l’essemplare- v.56) (o mundo espiritual) e a “cópia” (l’essemplo- v.55) (o mundo material). Antes, ele se referiu ao Primum Mobile (onde está, nesse momento de seu relato) assim: “neste admirável e angélico templo/ que só amor e luz tem por fronteiras” (in questo miro e angelico templo/ che solo amore e luce ha per confine,-  v. 53-54), amor e luz proveniente do Empíreo, a morada de Deus, do qual está mais próximo, dentre as esferas do mundo material.   

            Beatriz volta então a falar. Ela tranquiliza Dante nestes termos:

“Se li tuoi diti non sono a tal nodo
sufficïenti, non è maraviglia:
tanto, per non tentare, è fato sodo!”    (v. 58-60).    

“Se teus dedos não são capazes / de desfazer tal nó, não te admires:/ por não o tentarem, esse nó ficou tão apertado”.

            A metáfora do nó relaciona-se à correspondência entre o mundo espiritual e o material (4).  Beatriz, na sequência, procura esclarecer Dante a respeito dessa questão. 

            As esferas corpóreas (ou materiais), diz ela, são mais amplas ou menos em função da sua maior ou menor força. A esfera que tem maior força produz maior bem; a de maior corpo contém um bem maior. 

Dunque costui che tutto quanto rape
l’altro universo seco , corrisponde
al cerchio che più ama e che più sape:   (v.70-72)

E assim esta esfera, que arrebata/ todo o restante do universo, corresponde/ ao círculo que mais ama e mais sabe: 

            Em outros termos, a esfera (mais ampla) em que estão, i.e. o Primum Mobile, que move as outras esferas, corresponde ao círculo de fogo (menos amplo) mais próximo do ponto. Aí se concentra maior amor e conhecimento.

            Beatriz diz a Dante que seu “metro” (la tua misura- v. 73) deve ser a força e não a aparência (a amplitude da esfera e círculo, por exemplo). Só assim “tu verás a maravilhosa concordância” (tu vederai mirabil consequenza- v. 76) “entre cada esfera e sua inteligência” (in ciascun cielo, a süa intelligenza- v.78), vale dizer, existe uma correspondência entre as nove esferas (ou céus) materiais e as nove ordens (ou inteligências) angelicais arroladas abaixo (o Primum Mobile corresponde aos Serafins, o oitavo céu aos Querubins etc).  

            Referindo-se a Bóreas -- a mítica personificação dos três ventos do Norte (5) – Dante compara a sua situação emocional com a nossa “atmosfera  (l’emisperio de l’aere- v.80) depois que tal personagem soprou sobre a Terra, pela sua bochecha mais suave, limpando o céu, tornando a atmosfera “esplendorosa e serena” (splendido e sereno- v. 79), o modo como ele então se sente, depois de ouvir a explicação que Beatriz acaba de fazer.  

            Na sequência, os membros de cada uma das ordens angelicais, em seus círculos próprios, são comparados a faíscas, que dessa forma se mostram para expressar o seu regozijo pela correta explicação de Beatriz (6). E o número de faíscas (anjos) é imenso. Sua magnitude é ilustrada por Dante com a menção a uma antiga lenda relativa ao jogo de xadrez. O rei da Pérsia, agradecido, pediu ao inventor do jogo que formulasse um desejo. O inventor então lhe disse que ele poderia retribuir em grãos de milho, da maneira seguinte: 1 grão de milho na primeira casa do tabuleiro, 2 na segunda, 4 na terceira e assim sucessivamente, até a 64ª. casa. A soma dos termos dessa progressão geométrica  resultava em um número elevadíssimo de grãos, que não podia ser atendido nem com toda a produção de milho do reino. Esse número, todavia, era inferior ao número de faíscas presentes nesses círculos (7). Como dizem os versos:  

E poi che le parole sue restaro,
non altrimenti ferro disfavilla
che bolle, come i cerchi sfavillaro.

L’incendio suo seguiva ogne scintilla;
ed eran tante, che ‘l numero loro
più che ‘l doppiar de li scacchi s’inmilla.   (v. 88-93)

E após cessarem suas palavras/ como ferro incandescente que lança faíscas/ assim aqueles círculos faiscaram;
e todas as faíscas giravam com seu círculo flamejante;/ eram tantas que o seu número/ superava a soma obtida ao dobrarem-se sucessivamente as casas do tabuleiro de xadrez.  

            Dante prossegue dizendo que todos os coros angélicos presentes nos círculos de fogo cantavam “Hosana” (v.94) ao ponto fixo em torno do qual giravam.

Gustave Doré

            Do v. 97 em diante, até o final do Canto, é Beatriz quem fala. Ela, “que via os pensamentos cheios de dúvidas”  (E quella che vedëa i pensier dubi- v. 97) de Dante (refletidos na mente de Deus), explica para ele como se compõe a hierarquia dos anjos.    

            O primeiro nível dessa hierarquia é formado por três ordens angelicais: Serafins, Querubins e Tronos. Os Serafins e Querubins, a “corte mais próxima de Deus” (8), são tomados pelo desejo “de assemelhar-se ao ponto tanto quanto possam/ e tanto podem, quanto mais elevada seja sua visão” ( per somigliarsi al punto quanto ponno; / e posson quanto a veder son soblimi.- v. 101-2). Os Tronos (v.104), que estão na base dessa corte, circulando em volta das duas primeiras ordens, completam o primeira tríade.   

            Beatriz afirma que “todas” (tutti- v. 106) as ordens angélicas  (são nove ao todo, divididas em três tríades) que movimentam as nove esferas do universo (havendo uma correspondência entre aquelas e estas) (9) “se deleitam” (hanno diletto- v. 106) ali, no Primum Mobile, “na medida em que se aprofunda sua visão/ na verdade que sacia todo intelecto” (quanto la sua veduta si profonda/ nel vero in che si queta ogne intelletto- v. 107-8). Conforme um comentarista, “A beatitude das Inteligências Angélicas é proporcional à profundidade de sua visão de Deus”  Segundo a mesma fonte (10), Dante opta por S. Tomás d’Aquino e os dominicanos na disputa desta concepção com a agostiniana-franciscana, ao afirmar que “a beatitude se funda no ato de ver,/ não no ato de amar, que vem depois” (/.../ come si fonda/ l’esser beato ne l’atto che vede,/ non inquel ch’ ama, che poscia seconda;- v.109-111). Quer dizer, ele prioriza o ato de conhecer Deus, um ato do intelecto, que depois é seguido pelo ato de amá-Lo, um ato de vontade, decorrente do primeiro. Em suma, para amar é preciso primeiro conhecer.  
           
            Na sequência, Beatriz diz que a visão de Deus depende do “mérito” (mercede- v.112), “que a graça e o desejo do bem geram” (che grazia partorisce e buona voglia:- v.113).  

            Ela trata, a seguir, da “segunda tríade” (l’altro ternaro- v. 115), “que floresce/ nesta primavera eterna/ que Áries noturno não desfolha” (/.../ che  così germoglia/ in questa primavera sempiterna/ che notturno Arïete non dispoglia,-  v.115-7). Assim, essa tríade, como as outras duas, integram a “primavera eterna” ou o Primum Mobile. Além disso, deve-se notar nessa passagem a menção a duas estações do ano, uma, direta, a primavera, e outra, indireta, o outono, que substitui “Áries noturno”. Nessa estação do ano, quando as folhas aqui caem, a constelação de Áries só aparece no céu à noite, depois que o Sol se põe (11).    Beatriz prossegue dizendo que a segunda tríade -- formada pelas ordens angélicas denominadas Dominações, Virtudes e Potestades (v. 122-3) -- perpetuamente canta “Hosana” com três melodias.

            Beatriz menciona, por fim, as ordens que compõem a terceira tríade: Principados, Arcanjos e Anjos (v. 125-6).

            Todas as nove ordens angélicas voltam-se para o alto, em êxtase. “Todas são atraídas e todas atraem para Deus” (/.../ verso Dio/ tutti tirati sono e tutti tirano- v. 128-9).   

            Nos últimos versos do Canto, Beatriz afirma que a hierarquia de anjos por ela exposta é a de Dionísio (v.130-132). Segundo informam os comentaristas (12), trata-se de Dionísio, o Areopagita, convertido por S. Paulo e martirizado em Atenas no ano 95. Mas a obra famosa sobre a hierarquia angélica atribuída a ele é, na realidade, dos séculos V e VI. Dante, porém, o considera como a mesma pessoa. Também se menciona, nesses versos, Gregório (v. 133), ou seja, S. Gregório Magno, que divergiu de Dionísio nessa questão da hierarquia dos anjos. No entanto, depois que morreu, ou como dizem os versos, “mas tão logo abriu os olhos/ neste céu (por esse erro) de si mesmo riu” (onde, sì tosto come li occhi aperse/ in questo ciel, di sé medesmo rise- v. 134-5). 

            Finalmente, os versos dizem que não devemos nos admirar se um mortal (Dionísio) divulgou essa verdade na Terra, “pois quem a viu aqui em cima a revelou para ele” (ché chi ‘l vide qua sù gliel discoperse- v. 138), uma menção indireta a S. Paulo, que segundo a Bíblia foi arrebatado uma vez ao Paraíso (2 Cor.12:2-4) (13).     


NOTAS



(1) Apud MOURA, Vasco Graça—“Dante Alighieri- A Divina Comédia”- Introdução, tradução e notas de Vasco Graça Moura. S.Paulo: Landmark, 2005- p. 839, nota.

(2) SAYERS, Dorothy L. and REYNOLDS, Barbara—“Dante: The Divine Comedy 3- Paradise”. Translated by Dorothy L. Sayers and Barbara Reynolds.  Penguin Books, 1971, p. 306;  HOLLANDER, Robert & Jean- “Dante Alighieri- Paradiso”: a verse translation by Robert & Jean Hollander. Introduction & Notes by Robert Hollander.  Doubleday, 2007, p. 696.    

(3) MANDELBAUM, Allen- “The Divine Comedy of Dante Alighieri- Paradiso”. A verse translation by Allen Mandelbaum. Notes by Anthony Oldcorn and Daniel Feldman, with Giuseppe Di Scipio. Bantam Books, 1986- p.412.   

(4) MANDELBAUM, Allen- “The Divine Comedy of Dante Alighieri- Paradiso”, op cit, p. 412. 

(5) Id. ib., p. 412-3.

(6) MUSA, Mark-- “Dante- The Divine Comedy- Volume 3: Paradise”. Translated with an Introduction, Notes, and Commentary by Mark Musa. Penguin Books, 1986, p.337.

(7) MANDELBAUM, Allen- “The Divine Comedy of Dante Alighieri- Paradiso”, op cit, p. 413. 

(8) Id. ib., p. 414.

(9) HOLLANDER, Robert & Jean- “Dante Alighieri- Paradiso”, op cit, p. 699.  

(10) MANDELBAUM, Allen- “The Divine Comedy of Dante Alighieri- Paradiso”, op cit, p.414.

(11) Id. ib., p. 414.

(12) SAYERS, Dorothy L. and REYNOLDS, Barbara—“Dante: The Divine Comedy 3- Paradise”, op cit, p. 308.   Sobre o autor de “De Coelesti Hierarchia” ver também

(13) MANDELBAUM, Allen- “The Divine Comedy of Dante Alighieri- Paradiso”, op cit, p. 415.  
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-Para ouvir o Canto XXVIII:


(acessado em 14.10.20)