sexta-feira, 2 de novembro de 2018

CANTO XVIII


PARAÍSO


Canto XVIII


            Enquanto Cacciaguida -- chamado de “espelho bem-aventurado” (specchio beato- v. 2), porque todos aqueles espíritos do Paraíso refletem a luz divina (1) –  se deleita só com seu pensamento (verbo- v.1), Dante prova o seu, “temperando com o doce o amargo” (/.../ temprando col dolce l’acerbo- v.3), uma vez que o “amargo” das previsões sobre o seu exílio é suavizado com o “doce” da perspectiva da glória literária.  


Salvador Dali
             Beatriz infunde-lhe confiança ao dizer a um Dante preocupado com seu futuro que ela está “perto daquele que endireita tudo o que está torto” (presso a colui ch’ ogne torto disgrava- v. 6), a primeira das diversas menções indiretas a Deus que aparecem neste Canto. Dante diz, na sequência, que encontra conforto em sua voz e que se absterá de contar, em seus versos, “que amor vi então nos olhos santos” (/.../ e qual io allor vidi/ ne li occhi santi amor, /.../- v. 8-9) dela, pois sua mente “não pode recuperar/ tanto, a menos que Outrem (Deus) a guie” ( /.../ per la mente che non può redire/ sovra sé tanto, s’altri non la guidi-  v. 11-12).  Contemplando-a, sua alma se liberta de qualquer outra preocupação, pois ele vê, contente, no olhar de Beatriz a “luz refletida” (secondo aspetto- v.18) da ”Eterna Beleza” (piacere etterno- v. 16) (Deus) (2), que brilhava diretamente nela.  

            Depois disso, Beatriz, com um sorriso que o subjuga, manda-o voltar-se para Cacciaguida, que pela intensificação de sua luz revelava querer falar ainda. O poeta então faz esta comparação: como em nosso mundo o rosto revela o sentimento que se apodera da alma, assim no Paraíso a intensificação da luz que encerra o espírito indica que este quer se manifestar (assim no flamejar do fulgor santo/ ao qual me voltei, percebi a vontade/ nele de falar comigo ainda um tanto: così nel fiammeggiar del folgór santo,/ a ch’io mi volsi, conobbi la voglia/ in lui di ragionarmi ancora alquanto-  v. 25-27).

O trisavô de Dante então se manifesta, associando o Paraíso à imagem de uma árvore invertida, “árvore que recebe vida do topo” (/.../  l’albero che vive de la cima- v. 29) (subentende-se, nessa metáfora, que suas raízes estão no Empíreo, a morada de Deus, acima do nono céu) (3). Essa árvore "produz fruto sempre e jamais perde folha” (e frutta sempre e mai non perde foglia- v.30). Ele se refere ao fato de que estão na “quinta entrada” (quinta soglia- v. 28) dessa árvore, vale dizer, no quinto céu do Paraíso, o céu de Marte, deus mitológico da guerra. Os espíritos  aí presentes foram “notáveis” (v.32), destacaram-se militarmente em sua vida terrena, “antes que viessem para o céu” (/.../ prima/ che venissero al ciel, /.../- v. 31-.32) e enriqueceriam qualquer poema. Cacciaquida manda o descendente olhar “os braços da cruz” (/.../ mira ne’ corni de la croce- v.34) e observar -- à medida que ele nomear esses espíritos -- o seu movimento sobre a cruz “tão rapidamente/ quanto o relâmpago na nuvem,” (/.../ lì farà l’atto/ che fa in nube il suo foco veloce- v. 35-36). Tal cruz, como se viu anteriormente, é aquela que congrega ou é formada pelos inúmeros lumes dos bem-aventurados daquele céu.

Na sequência, Cacciaguida menciona o nome das oito personalidades seguintes: Josué (personagem bíblico, que sucedeu a Moisés na condução dos hebreus à Terra Prometida), Macabeu (grande guerreiro que libertou os judeus da tirania do rei da Síria), Carlos Magno (742-814) (restaurador do Sacro Império Romano que combateu os sarracenos na Espanha), Orlando (ou Rolando), seu sobrinho, herói do épico medieval “Chanson de Roland”, Guilherme de Orange e Renouard, também heróis de um ciclo épico medieval francês (o primeiro um líder militar e o segundo um gigante sarraceno convertido ao cristianismo), duque Godfrey de Bouillon (1058-1100), que liderou a Primeira Cruzada, e Robert Guiscard (1015-1085), que defendeu o papa Gregório VII contra o imperador Henrique IV e lutou no sul da Itália) (4).  A esses, Dante acrescentou Cacciaguida, formando seus "nove notáveis" guerreiros exemplares que não coincidem na íntegra com os da tradição francesa (esta incluía três judeus, três cristãos e três pagãos). Dante excluiu cinco nomes (inclusive os três pagãos), e adicionou cinco heróis cristãos mais recentes, a saber: Roland, Guilherme de Orange, Renouard, Robert Guiscard e Cacciaguida (5).  O trisavô de Dante nasceu em Florença por volta de 1090. Participou da Segunda Cruzada, seguindo o imperador Conrado III por quem foi feito cavaleiro. Morreu em combate contra os infiéis cerca de 1147 (6). 

Carlos Magno por A. Dürer

Cacciaguida retira-se, movendo-se na cruz, como os outros lumes, com os quais se mistura. Mostra então “que artista ele era, dentre os cantores do céu” (qual era tra i cantor del cielo artista- v. 51).

Dante volta-se para Beatriz, em busca de orientação sobre o que fazer a seguir. E viu “os seus olhos tão brilhantes,/ tão jucundos” (e vidi le sue luci tanto mere,/ tanto gioconde,/ .../- v. 55-56) que, diz ele, sua aparência superava todas as outras ocasiões em que a vira. Os versos, na sequência, fazem duas comparações: a primeira é entre um homem que, por sentir mais deleite fazendo sempre o bem, “se dá conta de que a sua virtude avança” (s’accorge che la sua virtute avanza,- v. 60), e o próprio poeta, que igualmente se dá conta de que também avança, pois “girando/ junto com o céu tinha crescido o arco deste” (/.../ ‘l mio girare intorno/ col cielo insieme avea cresciuto l’arco,- v. 61-62), e por ver sua Beatriz tornar-se ainda mais bela (“vendo aquele milagre tornar-se ainda mais bela” :veggendo quel miracol più adorno- v.63). Dante indica  aqui, de modo indireto, a sua ascensão ao sexto céu, de Júpiter, de abrangência maior que o de Marte. Tal ascensão é também indicada pela maior beleza de Beatriz. A segunda comparação se faz entre “a mudança de cor/ em uma dama clara, quando seu rosto/ se livra do rubor da vergonha” ( /.../ ‘l trasmutare /.../ in bianca donna, quando ‘l volto/ suo si discarchi di vergogna il carco,- v.64-66) e a mudança que ocorreu diante dos olhos do poeta ao olhar o céu, ”pela alvura da temperada estrela/ sexta, que dentro de si me tinha acolhido” (per lo candor de la temprata stella/ sesta, che dentro a sé m’avea ricolto- v. 68-69). Vale dizer, a mudança na face da dama clara, que perdeu seu rubor, é comparada à mudança de cor que o poeta vê, ao passar do céu de Marte ao de Júpiter, do vermelho do primeiro ao branco prateado do segundo. Esta última "estrela" é chamada “temperada” (v. 68) porque se situa entre o frio de Saturno e o calor de Marte (7).

Dante vê depois naquela "estrela" de Jove (ou Júpiter) as luzes (almas) que continha  desenharem ante meus olhos os signos de nossa linguagem” (segnare a li occhi miei nostra favella- v.72), ou seja, letras. Tais luzes, ao formarem um D, depois, um I e um L (início da citação bíblica transcrita adiante), são comparadas às aves que se erguem dos rios e formam no céu um círculo ou outra figura. Primeiro, as “santas criaturas” (sante creature- v. 76) cantavam e depois, tomando a forma de uma daquelas letras, “detinham-se por um tempo,  em silêncio”  (un poco s’arrestavano e taciensi-  v.81).

Gustave Doré

Dante na sequência faz uma invocação a uma “divina pegaseana” (diva Pegasëa- v.82), ou seja, a uma musa não especificada (poderia ser Calíope, a musa da poesia épica, Clio, da história, ou alguma outra) (8). Pegasus é o cavalo alado que está associado a elas, pois, segundo a mitologia, com o casco o animal fez jorrar uma fonte no monte Helicon, local frequentado pelas musas (9). O poeta pede que essa musa, a quem ele se dirige, o ilumine e possa mostrar em seus versos, com a “potência” dela (tua possa- v. 87), os signos que viu e inscreveu em sua mente. Os espíritos formam 35 letras, uma a uma (“Mostraram-se em cinco vezes sete/  vogais e consoantes;/.../:  Mostrarsi dunque in cinque volte sete/ vocali e consonanti; /.../- v. 88-89) e ele lê então no céu, pouco a pouco, a frase bíblica extraída do Livro da Sabedoria (I,1)-- “Diligite iustitiam qui iudicatis terram” (Amai a justiça, ó vós que governais a terra) (10). Depois, no eme do último vocábulo (terram) –- que também evoca a letra inicial da palavra latina “monarchia” (defendida por Dante, como já sabemos, para absorver todo o poder temporal da Igreja, que deveria se concentrar somente no espiritual) (11) --- as luzes permaneceram agrupadas, “de modo que a prata de Jove/ parecia ali ornada de ouro” (/.../ sì che Giove/ pareva argento lì d’oro distinto-  v.95-96). Outras luzes descem ainda sobre esse eme, “cantando, creio, o Bem (Deus) que a si as move” (cantando, credo, il ben ch’a sé le move- v. 99).  A  seguir, nos versos abaixo (que incluem uma bela comparação), Dante afirma ter visto as almas/luzes formarem sobre o eme uma águia, interpretada como a águia imperial romana, símbolo da justiça terrena:

Poi, come nel percuoter d’i ciocchi arsi
surgono innumerabili faville,
onde li stolti sogliono agurarsi,

resurger parver quindi più di mille
luci e salir, qual assai e qual poco,
sì come ‘l sol che l’accende sortille;

e quïetata ciascuna in suo loco,
la testa e ‘l collo d’un’aguglia vidi
rappresentare a quel distinto foco.    (v.100-108)

Então, como quando alguém golpeia os cepos ardentes/ levantam-se inumeráveis fagulhas/ onde os néscios costumam ver augúrios,
daquele ponto (do eme) pareceu elevar-se mais de mil/ luzes, e subirem umas muito, outras pouco/ como o Sol (Deus) que as acende determinou;
e assentada cada uma em seu lugar,/ vi a cabeça e o pescoço de uma águia/  conformados por aquele arranjo de fogo.           



Prossegue o poeta: Aquele que pinta no céu (Deus) guia, mas não é guiado. D’Ele provém “aquela virtude que dá forma aos ninhos” (quella virtù ch’è forma per li nidi- v.111), ou a força inata que determina, por exemplo, o padrão a ser reproduzido toda vez que um pássaro faz seu ninho. Afirma adiante que as outras luzes, as que vieram depois, inicialmente formaram um lírio sobre o eme  mas a seguir ,“com pouco movimento, concluíram a figura da águia” (con poco moto seguitò la ‘mprenta- v. 114). Conforme Hollander, alguns comentadores afirmam que essa menção ao lírio não se refere à França mas a Florença, a primitiva, ideal, tal como descrita por Cacciaguida no canto XVI (12). Mas para Ciardi, a associação do lírio à monarquia francesa é obrigatória. Se a sabedoria e a justiça governassem, a França deveria estar unida ao Império sonhado por Dante, em vez de adotar uma política divisionista (13).   

Na apóstrofe seguinte, o poeta afirma que a justiça terrena é decorrência da justiça celeste, ou do céu de Júpiter (ela sofre a influência deste céu):

O dolce stella, quali e quante gemme
mi dimostraro che nostra giustizia
effeto sia del ciel che tu ingemme!      (v.115-117)

Ó doce estrela, tuas gemas/ me demonstraram que a justiça terrena/ é efeito do céu em que estás incrustada, como jóia!

            Dante continua a referir-se a esse astro, ao rogar à Mente (Deus), “em que se inicia/ teu movimento e tua virtude” (/.../ in che s’inizia/ tuo moto e tua virtute, /.../- v. 118-119), que volte a se indignar contra aqueles que se dedicam a “comprar e vender dentro do templo/ que se construiu com milagres e martírios” (/.../ comperare e vender dentro al templo/ che si murò di segni e di martìri-  v.122-123). É deles, da Igreja desvirtuada pelos maus papas, que “sai a fumaça que tolda os teus raios” (ond’ esce il fummo che ‘l tuo raggio vizia- v.120), os raios da influência benéfica do céu de Júpiter sobre a justiça terrena.

Gustave Doré

            Em nova apóstrofe, Dante dirige-se à “milícia celeste” (milizia del ciel-v.124), contemplada por ele da Terra (onde compõe seu poema, após retornar da viagem extraordinária) (14), rogando agora pelos que vivem aqui, “transviados seguindo mau exemplo! ” (dos papas) (tutti svïati dietro al malo essemplo!- v. 126).  Em nova crítica à Igreja de seu tempo, Dante afirma que, enquanto “Antes se fazia a guerra com espadas;” (Già si solea con le spade far guerra;- v. 127), agora se faz retirando “o pão que o terno Pai não nega a ninguém” (lo pan che ‘l pïo Padre a nessun serra- v. 129), ou seja, negando a hóstia pelas bulas de excomunhão. Dante então faz uma acusação direta ao papa da época em que escreve, João XXII (1316-1334) (15), que cobrava para revogar as bulas antes emitidas, lembrando-lhe de dois santos que morreram por essa Igreja (referida pela metáfora da “vinha”) que ele agora devasta, com seu comportamento deplorável:  

Ma tu che sol per cancellare scrivi,
pensa che Pietro e Paulo, che moriro
per la vigna che guasti, ancor son vivi.     (v.130-132)

Mas tu que escreves para depois cancelar/ lembra que Pedro e Paulo, mortos/ pela vinha que devastas, ainda estão vivos.

João XXII

Dante conclui o Canto ironicamente, imaginando que o papa em questão pode bem lhe dizer que seu anseio é por um outro santo, não pelos recém mencionados, “é por aquele que escolheu viver só/ e que por uma dança foi levado ao martírio” (sì a colui che volle viver solo/ e che per salti fu tratto al martiro,- v. 134-135). As referências à sua vida passada e à dança de Salomé, que pediu a Herodes a cabeça do santo (Mat. 14-1-12), identificam-no como S. João Batista, cuja imagem aparecia nos florins de ouro  de Florença... (16)


NOTAS



(1) LONGNON, Henri- “La Divine Comédie”. Traduction, préface, notes et commentaires par Henri Longnon. Paris: Garnier, 1951, p. 667.

(2) HOLLANDER, Robert & Jean- “Dante Alighieri- Paradiso”: a verse translation by Robert & Jean Hollander. Introduction & Notes by Robert Hollander.  Doubleday, 2007, p.447.

(3) MANDELBAUM, Allen- “The Divine Comedy of Dante Alighieri- Paradiso”. A verse translation by Allen Mandelbaum. Notes by Anthony Oldcorn and Daniel Feldman, with Giuseppe Di Scipio. Bantam Books, 1986- p.373.

(4) MANDELBAUM, Allen- “The Divine Comedy of Dante Alighieri- Paradiso”, op cit, p. 373-374..

(5) HOLLANDER, Robert & Jean- “Dante Alighieri- Paradiso”, op cit, p.448-449.

(6) SAYERS, Dorothy L. and REYNOLDS, Barbara—“Dante: The Divine Comedy 3- Paradise”. Translated by Dorothy L. Sayers and Barbara Reynolds.  Penguin Books, 1971, p.364.

(7) MANDELBAUM, Allen- “The Divine Comedy of Dante Alighieri- Paradiso”, op cit, p. 374.

(8) HOLLANDER, Robert & Jean- “Dante Alighieri- Paradiso”, op cit, p. 452.

(9) MANDELBAUM, Allen- “The Divine Comedy of Dante Alighieri- Paradiso”, op cit, p. 375.
 
(10) MARTINS, Cristiano- “A Divina Comédia”. Segundo volume. Purgatório. Paraíso. Tradução, introdução e notas de Cristiano Martins. 5a edição. Belo Horizonte: Ed Itatiaia, 1989, p. 436, nota. 

(11) MANDELBAUM, Allen- “The Divine Comedy of Dante Alighieri- Paradiso”, op cit, p. 375.

(12) HOLLANDER, Robert & Jean- “Dante Alighieri- Paradiso”, op cit, p.454.

(13) CIARDI, John- “The Divine Comedy”: The Inferno. The Purgatorio. The Paradiso”. Translated by John Ciardi.  New American Library, 2003, p.759.

(14) MUSA, Mark-- “Dante- The Divine Comedy- Volume 3: Paradise”. Translated with an Introduction, Notes, and Commentary by Mark Musa. Penguin Books, 1986, p.222

(15) MANDELBAUM, Allen- “The Divine Comedy of Dante Alighieri- Paradiso”, op cit, p. 376.

(16) MUSA, Mark-- “Dante- The Divine Comedy- Volume 3: Paradise”, op cit, p. 224.

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Para ouvir o Canto XVIII:  
Amos Nattini


terça-feira, 25 de setembro de 2018

CANTO XVII


PARAÍSO


Canto XVII


            O Canto inicia por uma comparação. Dante afirma que se sentia “Como aquele que buscou Climene” (Qual venne a Climenè, /.../- v.1) para esclarecer sua dúvida. Trata-se de Faetonte, filho dela, conforme a mitologia clássica. Assim como Faetonte procurou sua mãe para esclarecer uma questão que o preocupava (saber se seu pai era de fato o deus Apolo), Dante também gostaria de ser esclarecido por Beatriz, ou seu ancestral, a respeito das previsões feitas contra ele anteriormente, quando percorria o mundo subterrâneo do “Inferno” ou o monte do  “Purgatório”. Cacciaguida é referido como “a santa luz/ que antes, na cruz, tinha mudado de lugar por mim” (/.../ la santa lampa/ che pria per me avea mutato sitio- v. 5-6), pois, como vimos, ele antes, comparado a uma estrela cadente, deslocara-se ao longo da cruz luminosa do céu de Marte para entrar em contato com Dante. 

            Beatriz estimula o poeta a expressar ao trisavô seu desejo de esclarecimento. Ela diz que Dante deve (enquanto estiver no Paraíso, supõe-se) habituar-se “a falar da tua sede, a fim de que ela seja saciada” (a dir la sete, sì che l’uom ti mesca- v.12). Não que isso fará crescer o seu conhecimento, ou de outros bem-aventurados, pois eles já leem tudo na mente de Deus (1)... 

            Então, Dante dirige-se a Cacciaguida (v. 13 a 27), ciente de que ele, por ser também bem-aventurado, conhece o futuro:  

così vedi le cose contingenti
anzi che sieno in sé, mirando il punto
a cui tutti li tempi son presenti;      (v.16-18)

assim tu vês as coisas contingentes/ antes que venham a ser, olhando o ponto/ onde todos os tempos são presentes;

Cacciaguida, na sua condição excelsa, vê o futuro com clareza “assim como as mentes terrenas veem/ não caber em um triângulo dois ângulos obtusos” ( /.../ come veggion le terrene menti/ non capere in trïangol due ottusi-  v.14-15) (é prazerosa essa atitude generalista de Dante-autor, incorporando no caso uma verdade matemática à poesia!...Ele também faz isso com a astronomia e outras disciplinas científicas).  Foram ditas a Dante-personagem “palavras preocupantes” (parole gravi- v. 23) sobre sua vida futura quando subia com Virgílio o “monte que as almas cura” (Purgatório) ( /.../ per lo monte che l’anime cura- v.20) ou “descendo no mundo morto” (Inferno)   ( /.../ discendendo nel mondo defunto- v. 21). Por isso, afirma: “meu desejo seria satisfeito/ se eu soubesse que fortuna se aproxima de mim/ pois a seta quando prevista vem mais lenta”  ( /.../ la voglia mia saria contenta/ d’intender qual fortuna mi s’appressa:/ ché saetta previsa vien più lenta-  v. 25-27).

Assim Dante expressa o que deseja saber. E “aquele pai amoroso (quello amor paterno- v.35), Cacciaguida, responde ao trineto “com palavras claras e linguagem precisa” ( /.../ per chiare parole e con preciso/ latin /.../- v. 34-35), não com as “palavras ambíguas” (ambage- v. 31) e enganadoras próprias do paganismo     (“/.../ antes que fosse morto/ o Cordeiro de Deus”: /.../ pria che fosse anciso/ l’Agnel de Dio /.../- v.32-33) (2). Ele inicia sua fala empregando conceitos escolásticos, ao distinguir fatos contingentes (os que podem ocorrer ou não, os fatos do mundo terreno) dos necessários. Afirma que os primeiros (os fatos contingentes) “estão incluídos na Visão Eterna; / porém isso não os torna necessários,/ como os olhos que refletem o navio/ não determinam sua descida pela corrente”:

 tutta è dipinta nel cospetto eterno;

necessità  però quindi non prende
se non come dal viso in che si specchia
nave che per torrente giù discende.    (v. 39-42)

Ou seja, os fatos contingentes estão incluídos na mente de Deus, mas não decorrem d’Ele (como os necessários), e sim do livre-arbítrio humano (3). Quer dizer, Deus sabe o que vai acontecer mas não interfere na ação do ser humano, que é livre. O poeta usa aqui essa imagem interessante para ilustrar a situação em questão: o observador sabe o que vai ocorrer com o navio, ele vai prosseguir, descendo a corrente, mas isso independe de seu olhar.

Na sequência, Cacciaguida, que partilha da “Visão Eterna” e sabe o que o futuro prepara para Dante, afirma que ele partirá de Florença como Hipólito de Atenas, “por causa da madrasta pérfida e cruel” (per la spietata e perfida noverca- v. 47). Fedra o desejou,  mas como foi rejeitada pelo enteado, ela o acusou de tentar seduzi-la ao seu marido, Teseu, e por isso Hipólito teve que fugir de Atenas (4). Assim o exílio de Dante de Florença (a sua madrasta) é comparado ao do inocente Hipólito de Atenas.

Tal exílio já está sendo planejado “lá onde Cristo todo dia é negociado  (là dove Cristo tutto dì si merca- v. 51), i.e. em Roma, na Cúria venal do papa Bonifácio VIII,  que interferiu na política interna de Florença, favorecendo os Guelfos Negros de Corso Donati e contribuindo para derrubar os Brancos do poder, inclusive Dante (5).


Bonifácio VIII

A culpa será atribuída aos vencidos, como é usual; mas a vingança de Deus “dará testemunho da verdade” (/.../ fia testimonio al ver /.../- v. 54). Duas amostras disso serão a morte violenta de Corso Donati e a humilhação de Bonifácio VIII por Felipe o Belo, que ocorrerão nos anos subsequentes (6).

Cacciaguida prossegue, caracterizando a vida de Dante no exílio e fazendo uso novamente da imagem da seta e do arco nessa passagem famosa:

Tu lascerai ogne cosa diletta
più caramente; e questo è quello strale
che l’arco de lo essilio pria saetta.

Tu proverai sì come sa di sale
lo pane altrui, e come è duro calle
lo scendere e ‘l salir per l’altrui scale.    (v.55-60)


Tu deixarás todas as coisas/ que mais amas; essa é a seta/ que o arco do exílio primeiro lança.
Tu provarás como tem gosto amargo/ o pão alheio, e como é duro/ descer e subir pelas escadas de outrem.  

Cacciaguida se referirá ainda, de forma crítica, à companhia que Dante terá de suportar no exílio, a dos outros Guelfos Brancos, uma “companhia malvada e néscia” ( /.../ la compagnia malvagia e scempia- v. 62) que se voltará contra o poeta. Mas os rostos dessa gente bruta (traiçoeira) ficarão rubros (de sangue ou vergonha). E será bom para Dante afastar-se deles, viver só. Como ele diz:  “/.../ e bom será para ti/ fazer de ti mesmo um partido” ( /.../ sì ch’ a te fia bello/ averti fatta parte per te stesso- v. 68-69). Esses Guelfos Brancos exilados não seguiram as recomendações de Dante, planejaram mal o confronto com os Guelfos Negros e foram por estes derrotados em La Lastra no ano de 1304. Seu exército era formado por 10 mil homens. Do confronto resultou 400 mortos (7).

Amos Nattini. 

           Depois, Cacciaguida refere-se ao primeiro nobre que hospedará Dante no exílio, que lhe dará “benigna atenção” (benigno riguardo- v. 73). Trata-se do “grande Lombardo/ que sobre a escada porta a santa ave” (/.../ gran Lombardo/ che ‘n su la scala porta il santo uccello- v.71-72). Este é identificado como Bartolommeo della Scala, senhor de Verona, e a menção ao seu brasão ajuda a identificá-lo, pois lembra o nome da família (escada= scala) e a águia do Império (8). A fala do trisavô se estende até o v. 99. (Dante-autor põe em sua boca palavras de elogio e da esperança que tinha em Cangrande della Scala, irmão mais novo de Bartolommeo, então com nove anos apenas (v. 80) (quando se passa a ação do poema, em 1300). Afirma que a “estrela forte” (stella forte- v. 77) de Marte (em cujo céu estão) o assinalara, ao nascer, “para que notável seja a obra sua” (che notabili fier l’opere sue- v. 78). Ainda não o notaram pela sua pouca idade; mas ele “cintilará sua virtude/ na indiferença pela prata e a fadiga   (parran faville de la sua virtute/ in non curar d’argento né d’affanni-  v. 83-84) e também pela generosidade (v.85), “ /.../ antes que o Gascão engane o nobre Henrique” ( / .../ pria che ‘l Guasco l’ alto Arrigo inganni- v. 82), ou antes que o papa Clemente V (da Gasconha, na França) iludisse o imperador Henrique VII, primeiro reconhecendo-o como titular do Sacro Império Romano Germânico e depois recuando dessa posição, quando Henrique desceu à Itália em 1312 (9).

Clemente V

        Dante-autor faz ainda Cacciaguida recomendar ao seu descendente que  ele confie em Cangrande, após fazer o seu elogio (Cangrande assumirá o poder em Verona no ano de 1311). Depois de se frustrar com Henrique VII, era nele que o poeta passou a depositar suas esperanças para fortalecer o Império, e simultaneamente liberar a Igreja de seu poder temporal. (10) A propósito, este terceiro cântico da “Comédia”, o “Paraíso”, foi dedicado a ele em carta que Dante lhe dirigiu.  


Cangrande della Scala

          Cacciaguida conclui essa sua antevisão das “/.../ ciladas/ que se escondem por trás de uns poucos anos” (vindouros) ( /.../ le ‘nsidie/ che dietro a pochi giri son nascose- v. 95-96), expressando seu desejo de que Dante não odeie por isso os vizinhos florentinos, “pois a tua vida (pela sua grande obra, presume-se) se projeta no futuro/ muito além da punição das perfídias deles   (poscia che s’infutura la tua vita/ via più là che ‘l punir di lor perfidie- v.98-99).

Depois que Cacciaguida calou-se --- ou, como dizem os versos, de modo metafórico, depois que ele revelou “ter acabado de tecer/ aquela tela que eu urdira” (/.../ di metter la trama/ in quella tela ch’io le porsi ordita- v. 101-102) (ao lhe formular a pergunta sobre seu futuro, nos v. 25-27) -- Dante manifesta-se, dizendo a seu ancestral que face ao que ouviu “/.../ de prudência é bom que eu me arme” (/.../ di provedenza è buon ch’io m’armi-  v. 109), cuidando para não perder outros lares-substitutos (ele que vai perder o seu lar, Florença, ao ser exilado) por causa de seus versos (v. 111) a serem elaborados, críticos de poderosas famílias de então. Afirma ainda que em sua visita ao Inferno (“ /.../ pelo mundo de amargura sem fim”   ( /.../ per lo mondo sanza fine amaro- v. 112), ao monte do Purgatório e às esferas celestes, obteve muitas informações que, “se as redigo” ( /.../  s’io ridico- v. 116), ou seja, se as conta em seu poema, “a muitos terá gosto demasiado ácido” (a molti fia sapor di forte agrume- v. 117), e assim perderá amigos. Mas se ele não disser toda a verdade, “se eu for tímido amigo da verdade” ( e s’io al vero son timido amico- v.118), isso prejudicará sua fama junto aos pósteros. Esse é o seu dilema, conforme aponta Hollander (11).

Cacciaguida, em sua luz, “primeiro fulgurou / como espelho dourado a raio de Sol”    ( /.../ si fé prima corusca,/ quale a raggio di sole specchio d’oro-   v. 122-123). Em seguida, respondeu a Dante, aconselhando-o a contar a verdade, apesar daqueles que, tomados pela vergonha, acharão sua palavra desagradável (v. 126). Afirma, prosaicamente: “deixa quem tem sarna se coçar” (e lascia pur grattar dov’è la rogna- v. 129). A voz de Dante será “vital alimento” (vital nodrimento- v. 132) depois, “quando for digerida” (/.../ quando sarà digesta- v. 132).

Acrescenta por fim esta observação, incentivando-o a referir-se em seu poema (“teu grito”- v. 133) aos notáveis (“altos cumes”- v. 134) que lhe foram mostrados nesses reinos do Além:   

Questo tuo grido farà come vento,
che le più alte cime più percuote;
e ciò non fa d’onor poco argomento.    (v. 133-135)

Esse teu grito fará como o vento,/ que mais golpeia os mais altos cumes; / e isso não será para ti pequeno motivo de honra.  

            Assim, será honroso para Dante narrar que viu “nestas esferas,/ no monte e no vale doloroso/ apenas almas notáveis pela fama” ( /.../ in queste rote,/ nel monte e ne la valle dolorosa/ pur l’anime che son di fama note- v. 136-138). Esse fato, e razões claras (v. 142), contribuirão para quem o ouvir “pôr fé” (v. 140) no que ele disser em seus versos.



NOTAS


(1) MUSA, Mark-- “Dante- The Divine Comedy- Volume 3: Paradise”. Translated with an Introduction, Notes, and Commentary by Mark Musa. Penguin Books, 1986, p.207.   

(2) HOLLANDER, Robert & Jean- “Dante Alighieri- Paradiso”: a verse translation by Robert & Jean Hollander. Introduction & Notes by Robert Hollander.  Doubleday, 2007, p.419.

(3) CIARDI, John- “The Divine Comedy”: The Inferno. The Purgatorio. The Paradiso”. Translated by John Ciardi.  New American Library, 2003, p.748.

(4) MANDELBAUM, Allen- “The Divine Comedy of Dante Alighieri- Paradiso”. A verse translation by Allen Mandelbaum. Notes by Anthony Oldcorn and Daniel Feldman, with Giuseppe Di Scipio. Bantam Books, 1986- p.371.

(5) Id. ib., p. 371-372.

(6) Id., ib., p. 372.  Cf também  MANDELBAUM, Allen- “The Divine Comedy of Dante Alighieri- Purgatorio”. A verse translation by Allen Mandelbaum. Bantam Books, 1984-  p.378 (além da p. XXV- XXVI da Introdução) e p.367. 

(7) HOLLANDER, Robert & Jean- “Dante Alighieri- Paradiso”, op cit, p. 424-425

(8) MANDELBAUM, Allen- “The Divine Comedy of Dante Alighieri- Paradiso”, op cit, p. 372.

(9) Id. ib, p.372-373. Cf também MARTINS, Cristiano- “A Divina Comédia”. Segundo volume. Purgatório. Paraíso. Tradução, introdução e notas de Cristiano Martins. 5a edição. Belo Horizonte: Ed Itatiaia, 1989, p. 428, nota. 

(10) HOLLANDER, Robert & Jean- “Dante Alighieri- Paradiso”, op cit, p. 425.

(11) Id. ib, p. 405.

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Para ouvir o Canto XVII:





  







































quinta-feira, 28 de junho de 2018

CANTO XVI


PARAÍSO

Canto XVI


O Canto inicia com uma invocação à “nobreza de sangue” (nobiltà di sangue- v.1). O poeta  afirma que doravante não vai mais se surpreender quando as pessoas aqui na Terra se vangloriarem dela, pois ele próprio, no Céu, se ufanou de sua estirpe (após saber sobre Cacciaguida). 

        Na sequência, os versos, ainda dirigindo-se a essa nobreza de sangue, personificada, e numa metáfora que a associa a um manto, salientam o fato de que, à medida que o tempo passa, ela tende a se reduzir, se não ocorrerem novos motivos que a reforcem:

Ben se’ tu manto che tosto raccorce:
sì che, se non s’appon di dì in die,
lo tempo va dintorno con le force.      (v.7-9)

És um manto que se encurta logo:/ de modo que, se não for alongado dia a dia,/ o tempo utiliza sua tesoura.

            Dante diz que usará doravante o “vós” (voi- v. 10) em suas palavras. Esse é um pronome mais cerimonioso do que o “tu” (seu uso pelos romanos, hoje abandonado, teria se iniciado com o tratamento dado por eles a Júlio César). Decorre da tomada de consciência, pelo poeta, da sua nobre linhagem, o que provoca um sorriso irônico de Beatriz, “sorriu, parecendo aquela que tossiu/ à primeira falta narrada de Ginevra” (ridendo, parve quella che tossio/ al primo fallo scritto di Ginevra-  v.14-15). Ela é comparada assim à dama que tossiu para anunciar sua presença, no momento em que a rainha Guinevere cometia sua primeira falta, ou seja, revelava seu amor ilícito pelo cavaleiro Lancelot, conforme um episódio do romance da Távola Redonda, mencionado indiretamente. Essa mesma história era aquela lida pelos amantes Paolo e Francesca, personagens do  Canto V do “Inferno” (v.127-138) (1).

Gustave  Doré

            O poeta, ao falar com seu ancestral (seu “pai”: padre mio- v. 16), diz que se rejubila (“Por tantos rios se enche de alegria/ a mente minha”: Per tanti rivi s’empie d’allegrezza/ la mente mia,/.../ – v.19-20), afirmando—“vós me elevais tanto que eu sou mais do que sou” (voi mi levate sì, ch’i’ son più ch’io- v.18). Essa alegria de Dante decorre não só de saber sobre sua ascendência mas também porque, sendo salvo, irá se juntar a Cacciaguida no Paraíso (2).  Em seguida  ele formula algumas perguntas ao seu trisavô, desejando saber quem foram seus antepassados; quando ele foi criança; “quão grande era então o redil de São João” (ditemi de l’ovil di San Giovanni/ quanto era allora, /.../- v. 25-26), i.e. qual era então o tamanho de Florença (cujo padroeiro, na era cristã, é S. João Batista), e quem, dentro desse rebanho, era “digno dos mais altos cargos” (/.../ degne di più alti scanni- v.27).

            A seguir, o poeta faz uma comparação sugestiva, referindo-se ao seu trisavô:

Come s’avviva a lo spirar d’i venti
carbone in fiamma, così vid’io quella
luce risplendere a’ miei blandimenti;     (v.28-30)

Como se aviva ao soprar dos ventos/ o carvão no fogo, assim vi eu aquela/ luz resplandecer às minhas palavras afetuosas; 

e passa a reproduzir o que Cacciaguida lhe respondeu, em sua linguagem antiga (“não com a nossa moderna fala”: ma non con questa moderna favela-  v.33), supostamente o florentino do século XII (3).  

            Nos versos seguintes, o ancestral diz, indiretamente, que nasceu em 1091. Cabe ao leitor deduzir isso, dividindo o produto de 580 com 687 pelos 365 dias do ano.  580, ou “quinhentos e cinquenta/ e trinta” (cinquecento cinquanta/ e trenta- v. 37-38), é o número de vezes que “este fogo” (v.38, Marte, o planeta em que estão) ficou em conjunção com a constelação de Leão (“veio este fogo/ a reinflamar-se sob a sua pata”: venne questo foco/ a rinfiammarsi sotto la sua pianta- v.38-39) desde o início da era cristã até o parto de Cacciaguida (v. 35). Para os florentinos tal início era contado desde o dia da Anunciação (“Desde aquele dia em que foi dito Ave”: Da quel dì che fu detto ‘Ave’ - v. 34) (25 de março), ou seja, era contado desde a concepção, não do nascimento de Cristo. Por outro lado, 687 é o número de dias que o planeta leva para fazer aquele movimento astronômico de revolução em torno da Terra. No período considerado, isso ocorreu 580 vezes (4).    

            Prosseguindo, Cacciaguida afirma que seus ancestrais e ele nasceram na parte mais antiga da cidade, onde “o corredor participante de vossos jogos anuais” (da quei che corre il vostro annüal gioco- v. 42) (corridas anuais de cavalo) primeiro entra, i.e. o distrito de Porta San Pietro (5).  Mas sobre seus maiores, “sobre quem foram e de onde vieram” (chi ei si fosser e onde venner quivi- v. 44), Cacciaguida não quer se estender, acha que “é mais apropriado calar do que falar” (più è tacer che ragionare onesto- v.45) pois, depreende-se, no Paraíso não seria apropriado jactar-se deles (6). 

            Quanto ao tamanho da população de Florença, Cacciaguida refere-se a “Todos os que podiam naquele tempo/ portar armas entre Marte e o Batista” (Tutti color ch’a quel tempo eran ivi/ da poter arme tra Marte e ‘l Batista- v. 46-47), i.e. à população masculina adulta existente entre os limites opostos da cidade, a estátua de Marte na ponte Vecchio e o Batistério de S. João Batista. Eles “eram um quinto dos que vivem lá agora” (erano il quinto di quei ch’or son vivi- v. 48). Mas não havia a mistura atual, com gente de Campi, Certaldo e Fegghine (v.50). A população “era pura até o último artesão” (pura vediesi ne l’ultimo artista- v. 51).  Seria melhor ter essa gente apenas como vizinha e não dentro da cidade. Eles deviam ter permanecido fora das suas fronteiras norte (Trespiano) e sul (Galluzzo) (v.53-54). Por isso, os florentinos têm que, agora, “suportar o mau cheiro/ do vilão Aguglione e daquele da Signa/ que já têm os olhos aguçados para a barataria!” (barataria significa ação de agente público em troca de suborno) ( /.../ e sostener lo puzzo/ del villan d’Aguglion, di quel da Signa/ che già per barattare ha l’occhio aguzzo!-  v.55-57). Baldo d’Aguglione e Fazio da Signa descendiam de famílias migradas para Florença, procedentes de localidades próximas. Esses inimigos políticos de Dante eram Guelfos Brancos renegados e se opunham ao seu retorno do exílio (7).     

Dante, pela voz de Cacciaguida, faz depois uma crítica à Igreja. Se ela tivesse tido um outro tipo de relacionamento com o Imperador,

Se la gente ch’al mondo più traligna
non fosse stata a Cesare noverca,
ma come madre a suo figlio benigna,     (v.58-60)

Se aqueles que no mundo mais se extraviam/ não tivessem sido madrasta de César/ mas mãe benigna a seu filho,

i.e., se a Igreja não disputasse o poder temporal com o Imperador, não teria causado a divisão e lutas civis entre os guelfos (partidários do Papa) e os  gibelinos (partidários do Imperador), levando as famílias que emigraram para Florença a optar por um partido ou outro e desestruturando a ordem social então existente, pois a Igreja estimulou o povo simples a voltar-se contra os senhores feudais partidários do Império, conforme Merlo (8). Essa gente indesejada teria permanecido em seus locais de origem. Não haveria hoje “um certo novo-florentino que se dedica ao comércio e câmbio” (ou agiotagem) (tal fatto è fiorentino e cambia e merca- v.61), uma vez que ele  teria permanecido em Simifonti. Os “Condes” Guidi estariam ainda no castelo de Montemurlo, os Cerchi (chefes dos Guelfos Brancos) em Acone e os Buondelmonti (que deram origem às primeiras lutas civis em Florença) em Valdigrieve (v.64-66).

            Segue-se a constatação do crescimento inconveniente de uma cidade (Florença) pelo afluxo migratório (tornando a população florentina menos “pura”, na opinião do poeta), e a comparação desse “mal” com o produzido no corpo humano pelo excesso de alimentação. Associa-se essa cidade maior a um touro e afirma-se que uma espada pode ser melhor que cinco (uma evocação da antiga Florença, cuja população, conforme o v.48, era um quinto da atual). Em suma, para Dante, pela voz de Cacciaguida, a Florença antiga era melhor que a atual:  

Sempre la confusion de le persone
principio fu del mal de la cittade,
come del vostro il cibo che s’appone;

e cieco toro più avaccio cade
che cieco agnello; e molte volte taglia
più e meglio una che le cinque spade.    (v. 67-72)

Sempre a mistura de gente diversa/ foi origem do mal de uma cidade/ como do vosso, o alimento demasiado;
um touro cego cai mais rápido/ que um cordeiro cego; e muitas vezes talha/ mais e melhor uma espada do que cinco.

            Cacciaguida então menciona quatro cidades italianas, duas já desaparecidas   (Luni e Urbisaglia- v. 73) e duas em decadência, que seguem o mesmo caminho daquelas (Chiusi e Sinigaglia-  v. 75). Por isso, não deve ser motivo de admiração que as grandes famílias também declinem, “já que mesmo as cidades chegam ao fim” (poscia che le cittadi permine hanno- v. 78). Afirma também:

Le vostre cose tutte hanno lor morte,
sì come voi; ma celasi in alcuna
che dura molto, e le vite son corte.    (v. 79-81)

Todas as vossas coisas têm a sua morte/ assim como vós; mas esconde-se em alguma/ que dura muito, e curtas são as vidas.

            Antes de arrolar as famílias florentinas notáveis então, que depois decairiam, Cacciaguida faz mais uma comparação: a da sorte variável de Florença (sua Fortuna, personalizada) com o vai e vem das marés,  influenciado pelos astros:

E come ‘l volger del ciel de la luna
cuopre e discuopre i liti sanza posa,
così fa di Fiorenza la Fortuna:

per che non dee parer mirabil cosa
ciò ch’ io dirò de li alti Fiorentini
onde è la fama nel tempo nascosa.    (v. 82-87)

E como o girar do Céu da Lua/ cobre e descobre as praias sem parar,/ assim faz a Fortuna com Florença:
pelo que não deve parecer coisa surpreendente/ isso que direi dos grandes florentinos,/ de quem a fama se perde no tempo. 


Salvador Dalì. 

            Na sequência, do v. 88 a 139, Cacciaguida passa a mencionar quais eram, então, as famílias ilustres de Florença. Inicia citando os Ughi, Catellini, Filippi, Greci, Ormanni e Alberichi, já em decadência em seu tempo. Cacciaguida também cita os dell’Arca, os della Sannella, Soldanieri, Ardinghi, Bostichi, “tão grandes quanto antigos” (/.../ così grandi come antichi- v. 91). E prossegue: “Perto da porta (Porta San Pietro) (9) que atualmente é sobrecarregada/ de nova felonia (traição) tão pesada/ que logo fará afundar o  barco” (ou seja, destruirá Florença) (Sovra la porta ch’ al presente carca/ di nova felonia di tanto peso/ che tosto fia iattura de la barca- v. 94-96) estavam os Ravignani (família já extinta no tempo de Dante, cujo chefe no tempo de Cacciaguida era Bellincione Berti) (10).  A “nova felonia” mencionada diz respeito à conduta dos Cerchi (referidos antes, no v. 65), aí residentes agora, líderes dos Guelfos Brancos, que falharam, por avareza e covardia, em defender a cidade contra o ataque dos Guelfos Negros (11).  Cita também os della Pressa, que “já sabiam como/ se deve governar” (Quel de la Pressa sapeva già conme/ regger si vuole, /.../- v.100-101) e afirma que “o Galigaio já tinha/ dourada guarda e pomo” (de espada) em sua casa (/.../ e avea Galigaio/ dorata in casa sua già l’elsa e ‘l pome- v. 101-102), símbolos da condição de cavaleiros (12).  

Cacciaguida continua citando outras famílias, a partir do v. 103. São  mencionados os Pigli (citados indiretamente, por uma referência heráldica), Sacchetti, Giuochi, Fifanti, Barucci, Galli “e aqueles que enrubescem pela fraude” (/.../ e quei ch’ arrossan per lo staio- v.105), i.e. os Chiaramontesi, identificados como se vê pelo delito praticado por um de seus membros, que fraudou na medida do sal (13). Também são mencionados os Calfucci e aqueles que “já eram elevados/ aos altos cargos” (/.../ già eran tratti/ a le curule /.../- v. 107-108), os Sizii e os Arrigucci.

São citados também indiretamente: 1) “esses que agora estão desfeitos/ pela sua soberba!” (/.../ quei che son disfatti/ per lor superbia! /.../- v.109-110), identificados como os Uberti (a mesma família de Farinata, personagem do canto X, do “Inferno”) (14);  2) os Lamberti, por uma outra referência heráldica: as “bolas douradas” (le palle de l’oro- v. 110) em campo azul-celeste de seu brasão); 3) os Visdomini e os Tosinghi, pois são eles os “pais” (ancestrais) daqueles que “sempre que vossa Igreja é vacante/ engordam, sentando-se em consistório” (/.../ sempre che la vostra chiesa vaca,/ si fanno grassi stando a consistoro- v. 113-114), i.e. enriquecem, quando fica vaga a sede episcopal de Florença, pois, encarregando-se de seus assuntos, apropriam-se dos recursos do bispado (15); 4) os Adimari, uma vez que é essa “A prepotente estirpe que se torna dragão/ atrás de quem foge e cordeiro/ a quem lhes mostra os dentes ou a bolsa” (L’oltracotata schiatta che s’indraca/ dietro a chi fugge, e a chi mostra ‘l dente/ o ver la borsa, com’ agnel si placa - v.115-117), identificada pela menção ao sogro de Ubertino Donato (Bellincion Berti), no v.120. O pai da esposa de Ubertino arranjou o casamento de outra filha sua com um membro da família Adimari, tornando-os aparentados de Ubertino, o que não agradou a este. A invectiva de Dante relaciona-se ao fato de que alguém dessa família (Boccaccino) obteve a posse dos bens do poeta, e por isso opunha-se ao seu chamado do exílio (16).  

Cacciaguida prossegue, citando ainda outras famílias, proeminentes em seu tempo mas decadentes (ou extintas) no tempo de Dante.  Cita as famílias gibelinas Caponsacco, Giuda e Infangato, hoje decadentes (v.121-123). Uma das portas da cidade tomava o nome della Pera, para a admiração do poeta (indicando que a família fora importante no passado). Em mais uma manifestação reveladora do reacionarismo de Dante (v. antes, crítica à Igreja porque se aliou ao povo que fez oposição aos senhores feudais, partidários do Imperador), ele critica que um membro daquelas famílias antigas se una hoje à plebe, famílias essas cujo brasão “porta a bela insígnia do grande senhor” (/.../ la bella insegna porta/ del gran barone /.../- v. 127-128) (ou seja, as armas de Hugo, o Grande, marquês da Toscana), que morreu em 1001 no dia da “festa de S. Tomás” (la festa di Tommaso- v. 129), 21 de dezembro, e que dele receberam a dignidade de cavaleiros (v. 130). O membro em questão que optou pelo lado do povo contra os poderosos, “aquele que adorna seu brasão com uma orla de ouro” (/.../ colui che la fascia col fregio- v. 132), é Giano della Bella, o principal autor dos “Ordinamenti di giustizia”, de 1293, que procurou enquadrar o comportamento dos nobres  (17). Os Gualterotti e os Importuni já viviam no Borgo (Santi Apostoli), que “seria mais tranquilo/ se dos novos vizinhos fosse privado” (/.../ saria Borgo più quïeto,/ se di novi vicin fosser digiuni- v. 134-135). Tais vizinhos eram os Buondelmonti (18). Essa foi “A casa que originou o vosso pranto” (La casa di che nacque il vostro fleto- v.136), o pranto dos florentinos, pois o rompimento do noivado de um de seus membros com uma jovem da família Amidei no último momento, causou o seu assassínio em 1216 pelos membros da família ultrajada. Foi a disputa entre essas duas famílias que originou as lutas civis em Florença. É por isso que o poeta se expressa nessa apóstrofe: “ó Buondelmonte, quanto mal fizeste/ ao fugir das bodas pelo conselho de outrem!” (o Buondelmonte, quanto mal fuggisti/ le nozze süe per li altrui conforti!- v. 140-141) (esta é identificada como Gualdrada Donati, que instigou o noivo ao rompimento para que casasse com uma de suas filhas). Melhor seria, diz ele, que Buondelmonte tivesse se afogado no rio Ema, “na primeira vez que vieste à cidade” (la prima volta ch’ a città venisti- v. 144) (19).  Como ele foi morto ao pé da estátua arruinada de Marte (a “pedra mutilada” citada abaixo) existente na ponte Vecchio, o poeta o considera como uma vitima sacrificada ao deus da guerra pela cidade de Florença (seu protetor no tempo dos romanos), quando o período de paz terminou, e iniciou o das lutas civis:

Ma conveniesi, a quella pietra scema
che guarda ‘l ponte, che Fiorenza fesse
vittima ne la sua pace postrema.    (v.145-147)

Mas convinha, àquela pedra mutilada/ que guarda a ponte, que Florença oferecesse/ uma vítima no final de sua paz.

            Cacciaguida conclui seu discurso (e o Canto) afirmando que com as famílias citadas, e outras, ele viu Florença tranquila, sem razão para chorar. E finaliza assim:

Con queste genti vid’io glorioso
e giusto il popol suo, tanto  che ‘l giglio
non era ad asta mai posto a ritroso,

né per divisïon fatto vermiglio.     (v. 151-154)

Com essa gente vi eu glorioso/ e justo o povo seu, tanto que o lírio/ não foi jamais posto ao contrário na haste/
nem feito vermelho pela dissenção. 

Em seu tempo, a bandeira de Florença, um lírio branco num campo vermelho, jamais foi arrastada e levada ao contrário no mastro, como sinal de humilhação, o que parecia ser uma prática da época adotada pelo vencedor.  Nem a cor do lírio mudara. Mas depois da derrota dos gibelinos em 1251 na guerra de Pistoia, quando os guelfos assumiram o poder, essa bandeira passou a ter suas cores invertidas: um lírio vermelho em campo branco (20). Os versos sugerem que a mudança de cor do lírio deve ser atribuída ao sangue derramado nessa luta fraticida... Note-se que tanto o primeiro quanto o último verso deste Canto referem-se ao sangue (20)


Amos Nattini 
NOTAS


(1) MUSA, Mark-- “Dante- The Divine Comedy- Volume 3: Paradise”. Translated with an Introduction, Notes, and Commentary by Mark Musa. Penguin Books, 1986, p.194.  Cf também
MARTINS, Cristiano— Dante Alighieri- “A Divina Comédia”. Tradução, introdução e notas de Cristiano Martins. Belo Horizonte: Ed. Itatiaia, 1989, segundo volume, p. 415, nota.

(2) HOLLANDER, Robert & Jean- “Dante Alighieri- Paradiso”: a verse translation by Robert & Jean Hollander. Introduction & Notes by Robert Hollander.  Doubleday, 2007, p.395.

(3) Id. ib, p. 396.

(4) MANDELBAUM, Allen- “The Divine Comedy of Dante Alighieri- Paradiso”. A verse translation by Allen Mandelbaum. Notes by Anthony Oldcorn and Daniel Feldman, with Giuseppe Di Scipio. Bantam Books, 1986- p.368.

(5) MANDELBAUM, Allen- “The Divine Comedy of Dante Alighieri- Paradiso”, op cit, p.368.

(6) MUSA, Mark-- “Dante- The Divine Comedy-- Volume 3: Paradise”, op cit, p.195. 

(7) MANDELBAUM, Allen- “The Divine Comedy of Dante Alighieri- Paradiso”, op cit, p.368;  HOLLANDER, Robert & Jean- “Dante Alighieri- Paradiso”, op cit, p. 398. 

(8) MERLO, Luis Martínes de – “Divina Comedia”- Dante Alighieri. Edición de Giorgio Petrocchi. Traducción y notas de Luis Martínes de Merlo. 14ª ed., Madrid: Cátedra, 2012.

(9) MANDELBAUM, Allen- “The Divine Comedy of Dante Alighieri- Paradiso”, op cit, p.369.   

(10) MUSA, Mark-- “Dante- The Divine Comedy-- Volume 3: Paradise”, op cit, p.198.

(11) HOLLANDER, Robert & Jean- “Dante Alighieri- Paradiso”, op cit, p. 400.

(12) SAYERS, Dorothy L. and REYNOLDS, Barbara—“Dante: The Divine Comedy 3- Paradise”. Translated by Dorothy L. Sayers and Barbara Reynolds.  Penguin Books, 1971, p. 202.

(13) MANDELBAUM, Allen- “The Divine Comedy of Dante Alighieri- Paradiso”, op cit, p.369.   

(14) Id. ib., p.369.

(15) CIARDI, John-  “The Divine Comedy”: The Inferno. The Purgatorio. The Paradiso”. Translated by John Ciardi.  New American Library, 2003, p.739.

(16) HOLLANDER, Robert & Jean- “Dante Alighieri- Paradiso”, op cit, p. 401.

(17) MANDELBAUM, Allen- “The Divine Comedy of Dante Alighieri- Paradiso”, op cit, p.370; HOLLANDER, Robert & Jean- “Dante Alighieri- Paradiso”, op cit, p. 401..   

(18) MANDELBAUM, Allen- “The Divine Comedy of Dante Alighieri- Paradiso”, op cit, p.370.

(19) Id. ib., p. 370.

(20) MANDELBAUM, Allen- “The Divine Comedy of Dante Alighieri- Paradiso”, op cit, p.370; HOLLANDER, Robert & Jean- “Dante Alighieri- Paradiso”, op cit, p. 403.
  
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Para ouvir o Canto XVI:

https://www.youtube.com/watch?v=VaPfkZlEBWA

(acessado em 16.09.20)