quarta-feira, 9 de maio de 2018

CANTO XV


PARAÍSO 


Canto XV


            Nos versos iniciais do Canto, o poeta refere-se ao silêncio imposto “àquela doce lira” (a quella dolce lira- v.4) -- metáfora do conjunto dos bem-aventurados que cantavam -- pela “benigna vontade” (Benigna volontade- v.1) dessas almas, expressão do amor pelo qual são tomadas. Elas assim interrompem seu canto  -- ou aquietam “as santas cordas” (le sante corde- v.5) dessa lira, afinadas pela “mão direita do Céu” (destra del cielo- v. 6), i.e. a mão de Deus -- e dedicam amorosamente sua atenção ao recém-chegado, dispondo-se a responder às suas indagações.    

Come saranno a’ giusti preghi sorde
quelle sustanze che, per darmi voglia
ch’ io le pregassi, a tacer fur concorde?     (v. 7-9)

Como seriam surdas aos justos rogos/ aquelas almas que, para me incentivar/ a lhes rogar, foram concordes em calar-se? 

            Segue-se a comparação de um “fogo repentino” (sùbito foco- v.14), que passa, às vezes, “pelos céus tranquilos e puros” (/.../ per li seren tranquilli e puri- v. 13) -- ou seja, uma estrela cadente (1) -- com o movimento de uma alma, das inúmeras formadoras da cruz luminosa que ali existe (cf. Canto antecedente). Ela correu do ramo direito para o inferior dessa mesma cruz, sem sair dela. Como diz o poeta: “não se afastou a gema do corpo da cruz/ mas correu pelo braço inferior/ como fogo por trás do alabastro” (né si partì la gemma dal suo nastro,/ ma per la lista radïal trascorse,/ che parve foco dietro ad alabastro-  v. 22-24), de modo a ficar mais próxima de Dante. Ela, por trás do alabastro (uma pedra calcária transparente), era uma luz intensa no meio de uma luz difusa, nas palavras do comentador  (2). 

            Referindo-se indiretamente aos protagonistas da “Eneida” de Virgílio -- “a nossa maior musa” (nostra maggior musa- v. 26) -- a afeição dessa alma que aqui se singulariza é comparada àquela de Anquises ao reconhecer seu filho (Eneas) no mundo dos mortos, ou nos Campos Elíseos (esse sentimento  assim tem caráter paternal e é compatível com a alma em questão, identificada só no v. 135 como Cacciaguida, trisavô de Dante).  É essa alma que se manifesta a seguir, em latim, no terceto formado pelos vv. 28-30, fazendo a Dante esta pergunta retórica--  Ó sangue meu, ó graça profusa de Deus, a quem como a ti foi aberta duas vezes a porta do Céu?”, de acordo com a tradução que consta em V. G. Moura (3).   A Dante foi dada a graça de visitar o Céu. A quem mais foi dada essa graça?  A São Paulo, conforme a Bíblia (2 Cor. 12:4). Como a porta do Céu se abrirá duas vezes para ele, entende-se que Dante entrará de novo no Paraíso (após sua morte), o que significa que alcançará a salvação eterna... (4).   

Salvador Dalí. 

            Dante ouve essas palavras daquele espírito (do mesmo sangue dele) e depois volta sua vista para Beatriz, admirando-se tanto de um lado como de outro, uma vez que ela também o surpreende, “pois dentro de seus olhos ardia um sorriso” (ché dentro a li occhi suoi ardeva un riso- v.34) tal, que ele pensa tocar com os seus o máximo da glória e da felicidade, ou “o fundo da minha graça e do meu paraíso” (/.../ lo fondo/ de la mia gloria e del mio paradiso- v.35-36). 

Inicialmente, Dante não entende as palavras que o espírito pronuncia após aquelas expressas em latim.  Mas depois que ele afrouxou “o arco de ardente afeto” ( /.../ l’arco de l’ardente affetto- v. 43) -- uma metáfora adicional envolvendo o arco, no caso associada à mente do seu parente que goza da bem-aventurança --  e  o falar desceu/ ao nível do nosso intelecto” (/.../ ‘l parlar discese/ inver’ lo segno del nostro intelletto- v. 44-45), i.e. “ao nível dos mortais” (al segno d’ i mortal /.../- v. 42), passa a compreendê-las. A princípio, o espírito louva Deus (o “Trino e Uno”: trino e uno- v. 47) por ser “tão cortês com minha semente” (che nel mio seme se’ tanto cortese- v. 48), vale dizer, por conceder essa graça ao seu descendente. Depois, chamando Dante de “filho” (figlio- v. 52), afirma que ele atende com este encontro -- possibilitado por Beatriz, que lhe “deu asas para o alto voo” (ch’ a l’alto volo ti vestì le piume- v. 54) -- a um antigo desejo do ancestral, “derivado da leitura do grande volume/ do qual não muda jamais o branco e o preto” (tratto leggendo del magno volume/ du’ non si muta mai bianco né bruno- v. 50-51), ou seja, derivado da leitura do livro que é, em metáfora, a mente de Deus, conhecedora do passado, presente e futuro, livro esse que é lido pelos bem-aventurados, cujo preto das letras e o branco das páginas não são alterados (5). 

            O espírito do ancestral afirma que Dante está consciente de que ele conhece seu pensamento porque lhe vem “daquele que é o Primeiro” (da quel ch’è primo,/.../- v.56), ou seja, Deus, “assim como deriva/ de um, se for conhecido, o  cinco e o seis” (/.../ così come raia/ da l’un, se si conosce, il cinque e ‘l sei- v.56-57), uma imagem poética inspirada, como se vê, numa relação matemática. Assim como a unidade é a fonte de todos os números, a fonte dos pensamentos é a mente de Deus (6) (os algarismos 5 e 6, citados logo após o v.56, não devem ser apenas uma coincidência. Acrescentam uma sugestão enigmática, sempre compatível com os sacros mistérios). Mais adiante, surge outra metáfora associada ao Ser Supremo. Ele é o “espelho/ que antes de pensares o pensamento mostra” (/.../ lo speglio/ in che, prima che pensi, il pensier pandi;- v.62-63) onde miram os bem-aventurados “pequenos e grandes desta vida”, ou do Paraíso (/.../ i minori e ’ grandi/ di questa vita /.../- v. 61-62).

Assim, por estar ciente de que o ancestral já sabe o que Dante lhe perguntará, este não lhe pergunta nada.  Mas para que seu amor “se manifeste melhor” (/.../ s’adempia meglio- v. 66), respondendo às suas questões, ele quer ouvir a voz de seu descendente formulando-as. Dante então volta-se para Beatriz, que ouve suas palavras “antes que eu falasse,” (pria ch’ io parlassi, /.../- v.71) (ela, sendo bem-aventurada, também lê na mente divina) e lhe dá um sorriso encorajador, pois, como diz o poeta, “e seu sorriso foi um sinal/ que fez crescer as asas do meu querer(/.../ e arrisemi un cenno/ che fece crescer l’ ali al voler mio-  v. 71-72). 

Dante, então, dirige-se diretamente ao espírito, para agradecer sua benevolência e perguntar seu nome. De início, destaca a diferença entre “vós” (voi- v.75) -- os bem-aventurados moradores permanentes do Paraíso, em quem “O afeto e o juízo(/.../ L’affetto e ‘l senno,- v.73) (o sentimento e a razão) são divididos em proporções iguais pela “Igualdade Primeira” (la prima equalità- v.74) (Deus) -- e os “mortais” (mortali- v.79), como ele próprio, em quem “vontade e argumento” (voglia e argomento- v. 79) (correspondentes ao “afeto e o juízo” do v. 73) “são asas de plumagem desigual” (diversamente son pennuti in ali- v. 81), ou seja, são de proporções diferentes. Por isso, ele agradece “somente com o coração à acolhida paterna” (/.../ e però non ringrazio / se non col core a la paterna festa.- v. 83-84), e não com palavras. E conclui assim sua fala, onde “gema” refere-se ao seu ancestral (como ocorreu antes, cf. v. 22) e “joia preciosa” à cruz luminosa formada pelos espíritos bem-aventurados do céu de Marte: 

Ben supplico io a te, vivo topazio
che questa gioia prezïosa ingemmi,
perché mi facci del tuo nome sazio.     (v. 85-87)

Bem suplico a ti, vivo topázio,/ gema engastada nesta joia preciosa,/ que satisfaça meu desejo de saber teu nome. 

            Segundo Mark Musa, topázio é uma gema amarela que se torna vermelha (a cor do amor) quando exposta a alta temperatura (7).

            A partir do v. 88, e até o fim do Canto, é o ancestral quem fala.  Inicia afirmando a Dante seu regozijo por estar com ele pois “eu fui a tua raiz” (/.../ io fui la tua radice- v.89). Depois, diz que “Aquele de quem deriva/ teu sobrenome e que por mais de cem anos/ circula na primeira cornija do monte” ( /.../ Quel da cui si dice/ tua cognazione  e che cent’anni e piùe/ girato ha ‘l monte in la prima cornice,- v.91-93) é seu filho e bisavô de Dante (o ancestral que fala é então o seu trisavô). Por esses versos, deduz-se que o seu filho,  cujo nome era Alighiero (8), está na cornija dos soberbos no monte do Purgatório. É por isso que o pai dele pede a Dante que “sua longa pena/ tu a abrevies com boas ações” (/.../ che la lunga fatica/ tu li raccorci con l’opere tue- v.95-96), ou orações, conforme a crença católica.   

            A seguir, o trisavô de Dante fala, em termos elogiosos, da Florença de seu tempo, que é o século XII. Seu elogio é uma crítica indireta à Florença da época em que transcorre a ação do poema (1300).  Florença então “estava em paz, sóbria e pudica” (si stava in pace, sobria e pudica- v. 99) (as dissenções e desavenças aí só começariam depois de 1177) (9). Não havia preocupação com o luxo do vestuário. As mulheres não usavam colares nem coroas, nem “saias bordadas” (gonne contigiate- v. 101), “que atraíssem mais o olhar do que a pessoa” (che fosse a veder più che la persona- v. 102). Nem havia ainda o costume das moças se casarem muito jovens ou de se exigirem altos dotes no casamento, o que é criticado nestes versos: 

Non faceva, nascendo, ancor paura
la figlia al padre, ché  ‘l tempo e la dote
non fuggien quinci e quindi la misura.      (v. 103-105)

Não fazia, nascendo, ainda medo/ a filha ao pai, pois a idade e o dote/ não excediam, de um lado e de outro, a medida.          

            O trisavô também lembra que “Não havia casas de família vazias” (Non avea case di famiglia vòte;- v.106) (por causa das características de sua construção, destinadas mais para ostentar do que para atender às necessidades da família) (10), “nem chegara ali ainda Sardanapalo/ para mostrar o que se pode fazer numa alcova” (non v’era giunto ancor Sardanapalo/ a mostrar ciò che ‘n camera si puote.- v.107-108). Sardanapalo foi um rei da Assíria (667-626 a.C.), que se destacou pelo luxo, luxúria e efeminação; viveu num palácio mas não era visto pelos seus serviçais, encerrando-se em seu quarto (11).  

Depois, os versos, por meio de uma  sinédoque -- em que duas cidades são referidas pelos montes nelas existentes -- afirmam que nesse tempo, i.e. no tempo do trisavô, Uccelatoio (por Florença) ainda não havia vencido Montemalo (por Roma), como atualmente, i.e no tempo de Dante, dado o  esplendor urbano florentino. Porém, assim como Florença vai superar Roma nesse esplendor, também a superará no ritmo de sua decadência. 

            A seguir, o ancestral menciona alguns casais de famílias florentinas famosas que ele conhece, elogiando implicitamente a simplicidade do vestuário dos homens e da vida de suas esposas, pois a mulher de Bellincion Berti vem do espelho “sem o rosto pintado” (/.../ sanza ‘l viso dipinto- v.114) e as esposas dei Nerli e del Vecchio estão contentes “de fiar com a roca” (al fuso e al pennecchio- v. 117).  

            O trisavô chama essas esposas de “afortunadas” (Oh fortunate!- v.118) pois “cada uma estava segura/ do local de sua sepultura” (/.../ ciascuna era certa/ de la sua sepultura,/ .../- v. 118-119), vale dizer, elas não eram obrigadas a acompanhar seus maridos no exílio e morrer em terra estrangeira, como na conturbada  Florença do tempo de Dante. E nenhuma então “era abandonada no leito pela França” (era per Francia nel letto diserta- v.120), para onde os interesses comerciais levavam os maridos.   

            Assim, nessa idílica Florença,

L’una vegghiava a studio de la culla,
e, consolando, usava l’idïoma
che prima i padri e le madri trastulla;

l’altra, traendo a la rocca la chioma,
favoleggiava con la sua famiglia
d’i Troiani, di Fiesole e di Roma.      (v. 121-126)

Uma velava com amor o berço/ e, consolando, usava a linguagem (infantil)/ que primeiro diverte pais e irmãos;
outra, puxando o fio da roca,/ contava à sua família as lendas/ dos troianos, de Fiesole e de Roma.  

(os troianos, segundo a lenda, fundaram Roma, enquanto os romanos fundaram Fiesole e depois Florença) (12). 

            Segundo o trisavô do poeta, Cianghella (v. 128), uma dama que se jactava de sua vida de prazeres, e Lapo Salterello, um político desonesto, ambos do tempo de Dante, causariam então tanta admiração naquela época “quanto agora Cincinnatus e Cornelia” (v.129), duas figuras virtuosas da história romana, aquele dirigente da República e esta, a mãe dos  tribunos Tiberius e Caius Gracchus (13).    

            Nos versos finais do Canto, o trisavô apresenta um resumo de sua própria vida. Ele foi entregue por Maria (“invocada em altos gritos”: chiamata in alte grida- v. 133, no parto, se deduz) a essa comunidade, esse “doce abrigo” (dolce ostello- v.132), ou seja a Florença, sua cidade natal, que é qualificada aqui como “tranquila” (riposato- v.130), de “belo viver/ de cidadãos” (bello/ viver di cittadini- v.130-131) e “fiel” (fida- v.131). Aí foi batizado e recebeu seu nome, Cacciaguida, que enfim declina (v. 135). Teve dois irmãos, Moronto e Eliseu, ou apenas um, Moronto, que guardou o nome de família, Eliseu ou Elisei (v.136), pois os comentaristas não estão de acordo nessa questão. Da mulher dele, Cacciaguida, que pertencia à família Alighieri, “derivou teu sobrenome” (e quindi il sopranome tuo si feo- v. 138), através do nome de um dos filhos do casal, Alighiero. Seguiu o imperador Conrado em sua cruzada contra os muçulmanos, que então ocupavam a Terra Santa. E lá morreu, conquistando por isso o Paraíso:

Quivi fu’ io da quella gente turpa
disviluppato dal mondo fallace,
lo cui amor molt’ anime deturpa;

e venni dal martiro a questa pace.     (v.145-148)

Lá, por aquela gente torpe,/ fui libertado do mundo falaz,/ cujo amor corrompe muitas almas;
e vim pelo martírio a esta paz

            Segundo um comentador, Cacciaguida morreu durante a desastrosa Segunda Cruzada (1147-1149), da qual participou Conrado III da Suábia, imperador de 1138 a 1152 (14).  

NOTAS


(1) SAYERS, Dorothy L. and REYNOLDS, Barbara—“Dante: The Divine Comedy 3- Paradise”. Translated by Dorothy L. Sayers and Barbara Reynolds.  Penguin Books, 1971, p. 191. 

(2) MUSA, Mark-- “Dante- The Divine Comedy- Volume 3: Paradise”. Translated with an Introduction, Notes, and Commentary by Mark Musa. Penguin Books, 1986, p. 183.

(3) MOURA, Vasco Graça-  “Dante Alighieri- A Divina Comédia”- Introdução, tradução e notas de Vasco Graça Moura. S.Paulo: Landmark, 2005, p. 721, nota  

(4) ZOLI, M. e ZANOBINI, F.- “La Divina Commedia: a cura di M.Zoli e F.Zanobini. Inferno. Purgatorio. Paradiso”. Bulgarini, 2013, p. 860;  MANDELBAUM, Allen- “The Divine Comedy of Dante Alighieri- Paradiso”. A verse translation by Allen Mandelbaum. Notes by Anthony Oldcorn and Daniel Feldman, with Giuseppe Di Scipio. Bantam Books, 1986- p.364. 

(5) HOLLANDER, Robert & Jean- “Dante Alighieri- Paradiso”: a verse translation by Robert & Jean Hollander. Introduction & Notes by Robert Hollander.  Doubleday, 2007, p.372. 

(6) MANDELBAUM, Allen- “The Divine Comedy of Dante Alighieri- Paradiso”. A verse translation by Allen Mandelbaum. Notes by Anthony Oldcorn and Daniel Feldman, with Giuseppe Di Scipio. Bantam Books, 1986- p.364.

(7) MUSA, Mark-- “Dante- The Divine Comedy-- Volume 3: Paradise”, op cit, p.185. 

(8) MANDELBAUM, Allen- “The Divine Comedy of Dante Alighieri- Paradiso”, op cit, p. 364. 

(9) HOLLANDER, Robert & Jean- “Dante Alighieri- Paradiso”, op cit, p. 375. 

(10) Id. ib., p.375.

(11) Id. ib., p.375. Cf também MANDELBAUM, Allen- “The Divine Comedy of Dante Alighieri- Paradiso”, op cit, p. 365.   

(12) MUSA, Mark-- “Dante- The Divine Comedy-- Volume 3: Paradise”, op cit, p. 187. 

(13) MANDELBAUM, Allen- “The Divine Comedy of Dante Alighieri- Paradiso”, op cit, p. 365-366. Cf também SAYERS, Dorothy L. and REYNOLDS, Barbara—“Dante: The Divine Comedy 3- Paradise”, op cit, p.368 e 369.

(14) MANDELBAUM, Allen- “The Divine Comedy of Dante Alighieri- Paradiso”, op cit, p.366.

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Para ouvir o Canto XV:

https://www.youtube.com/watch?v=3cfbJqoy7_8&t=127s

(acessado em 15.09.20)




Amos Nattini. 














quarta-feira, 7 de março de 2018

CANTO XIV



PARAÍSO


Canto XIV

           
            O Canto começa com uma comparação implícita que vem à mente do poeta narrador, sugerida pelas ondas do movimento da água dentro de um vaso, da borda para o centro (ou inversamente) quando é golpeado, e as palavras (ondas sonoras) do discurso recém-concluído de Tomás de Aquino, situado na “beira” da roda dos espíritos sapientes. A sugestão também se aplica ao discurso de Beatriz, que agora passa a enunciá-lo, num sentido inverso, do centro para a borda (1).

            Beatriz, partícipe da faculdade divina de ler a mente de Dante, se antecipa a este ao expor duas dúvidas que sabe que ele tem mas ainda não formulou para si mesmo. Ela afirma aos espíritos sapientes (dos dois círculos, 24 ao todo) que Dante  necessita saber 1) se a luz desses espíritos “permanecerá convosco/ eternamente, assim como está agora(/.../ rimarrá con voi/ etternalmente sì com’ ell’ è ora;- v. 14-15) e 2) “e se permanecer, dizei como, depois/ que sereis feitos visíveis de novo,/ será possível vê-la sem vos prejudicar”:

e se rimane, dite come, poi
che sarete visibili rifatti,
esser porà ch’ al veder non vi nòi.   (v.16-18)

i.e. se depois da Ressurreição, quando os mortos readquirirem os corpos, seus olhos poderão suportar tanta luz.

            A essas indagações, os “santos círculos” (li santi cerchi- v.23) demonstram sua alegria (em poder esclarecer Dante) através de sua dança e canto e são comparados a dançarinos que, devido ao seu contentamento, “alçam a voz e aceleram o movimento” (levan la voce e rallegrano li atti- v. 21).   

Os espíritos sapientes cantavam em uníssono três vezes em louvor de Deus, ou melhor da SS. Trindade, pois Deus não é uma só pessoa mas três. Como diz um comentador citado por Hollander, os versos 28-29 consistem em “Uma designação teológica de Deus, que vive e reina eternamente como uma única Substância, duas Naturezas e três Pessoas” (2) (as duas Naturezas referem-se naturalmente às naturezas humana e divina de Cristo). Assim, a Trindade é destacada por Dante pela ênfase que o terceto seguinte atribui ao fato, o qual comporta uma conotação enigmática como o próprio mistério desse dogma:

Quell’ uno e due e tre che sempre vive
e regna sempre in tre e ‘n due e ‘n uno,
non circunscritto, e tutto circunscrive,     (v. 28-30)

Aquele Um e Dois e Três que sempre vive/ e reina sempre em Três e em Dois e em Um,/ não circunscrito mas que tudo circunscreve,

            Em seguida, Dante ouve uma voz, saindo de “dentro da luz mais fúlgida/ do menor circulo” (/.../ ne la luce più dia/ del minor cerchio /.../- v.34-35) que vai responder às suas questões. O círculo menor é o círculo daqueles 12 espíritos que primeiro apareceram. E quem fala, segundo a maioria dos comentadores, é o rei bíblico Salomão. Sua voz é “modesta” (v. 35) (pois sua condição é a de um mensageiro), “talvez como a do Anjo a Maria” (forse qual fu da l’angelo a Maria- v.36), vale dizer, o Anjo da Anunciação (3).  

Salomão inicia sua fala, que se estende do v. 37 ao v. 60, referindo-se à luz que os reveste, e esclarecendo a primeira dúvida de Dante. Essa luz durará eternamente pois durará enquanto “dure a festa do Paraíso” (/.../ Quanto fia lunga la festa/ di paradiso, /.../- v.37-38). Avança na explicação dessa luz, afirmando que é o amor desses espíritos que os faz resplender (v. 38-39).

La sua chiarezza séguita l’ardore;
l’ardor la visione, e quella è tanta,
quant’ ha di grazia sovra suo valore.   (v.40-42)

O seu brilho resulta do nosso ardor;/ o ardor, da visão de Deus, e essa é tanta/ quanto a graça que recebe além do seu mérito.

            Salomão explica aqui a diferença de brilho entre os espíritos, pois conforme esses versos seu brilho (ou luz) decorre do amor (ou ardor), que por sua vez depende da visão de Deus. Assim, quanto mais essa graça é concedida ao espírito, mais ele brilhará (4).

             No final dos tempos, quando ocorrer a Ressurreição da carne,  ou como dizem os versos “Quando a carne glorificada e santa/ nos vestir de novo, /.../” – (Come la carne gloriosa e santa/ fia rivestita, /.../- v.43-44),  as pessoas dos espíritos ficarão completas. Receberão o “lume da graça” (gratüito lume- v. 47) de Deus, que é condição para vê-lO, tornando-se assim mais resplendentes (crescendo a visão de Deus, crescerá o ardor  e assim a luz  dos espíritos, conforme é reafirmado nos versos 49-51).     

            Segue-se uma bela imagem, na comparação abaixo entre o brilho do corpo ressurrecto -- que se destaca frente ao brilho menos intenso dos espíritos antes da Ressurreição -- e o carvão incandescente que se destaca dentre as chamas:

Ma sì come carbon che fiamma rende,
e per vivo candor quella soverchia,
sì che la sua parvenza si difende;

così questo folgór che già ne cerchia
fia vinto in apparenza da la carne
che tutto dì la terra ricoperchia;        (v. 52-57)

Mas como o carvão que produz a chama/ e, pela viva incandescência, a ultrapassa em brilho/ de modo que sua aparência se impõe;
assim este fulgor que nos envolve/ será então superado em visibilidade pela carne/ que a terra por ora recobre; 

            Salomão encerra sua fala respondendo diretamente à segunda questão de Dante ao afirmar que “nem poderá tanta luz nos fatigar” (né potrà tanta luce affaticarne- v.58), pois os órgãos sensoriais de seu corpo serão fortes o bastante para o que verão, e isso será causa de deleite para eles.   

            Na sequência, os dois círculos de espíritos sábios manifestam sua concordância com as palavras de Salomão dizendo “Amém” (v.62) e demonstram “anseio pelos seus corpos mortos” (/.../ disio d’i corpi morti- v. 63):

forse non pur per lor, ma per le mamme,
per li padri e per li altri che fuor cari
anzi che fosser sempiterne fiamme.     (v.64-66)

talvez não só por eles, mas pelas mães,/ pelos pais e pelos outros que lhes foram caros/ antes que se tornassem eternas chamas.

            Depois, Dante vê surgir em torno “um fulgor, além da luz que ali havia” (/.../ un lustro sopra quel che v’era- v.68). Trata-se de um terceiro círculo de espíritos bem-aventurados, o dos que lutaram em defesa da fé:

E sì come al salir di prima sera
comincian  per lo ciel nove parvenze,
sì che la vista pare e non par vera,

parvemi lì novelle sussistenze
cominciare a vedere, e fare un giro
di fuor da l’altre due circunferenze.     (v. 70-75)

E assim como ao cair da noite/ começam a se mostrar no céu novas luzes,/ de modo que a vista parece ser real e irreal,
pareceu-me que novas substâncias (espíritos) / comecei a ver ali e formar um anel/ por fora das duas circunferências. 

            Essa terceira circunferência é associada ao Espírito Santo no verso seguinte: “Ó vera fulguração do Santo Espírito!” (Oh vero sfavillar del Santo Spiro!- v.76), o que torna crível a interpretação de John S. Carroll, citada por Hollander (5), de que implicitamente a primeira estaria associada a Deus Padre e a segunda a Deus Filho (Cristo), o conjunto referindo-se assim à SS.Trindade. Esses círculos, conforme a concepção do abade cisterciense Joachim de Flora (ca.1130-1202), representariam diversas eras, sendo a do Espírito Santo aquela que estaria ainda por vir, “um período de perfeição, liberdade e paz”. As ideias de Joachim de Flora, segundo alguns eruditos, muito influenciaram o poeta florentino (6).

            Os olhos de Dante não suportam essa fulguração do Espírito Santo, mas eles se compensam com a visão de Beatriz, “tão bela e sorridente” (sì bella e ridente- v.79). Todavia, a memória de Dante não tem a capacidade de reter a beleza aumentada dela (7). Por isso ele diz que sua visão “entre aquelas visões/ que fogem da memória deve ficar” (/.../ tra quelle vedute/ si vuol lasciar che non seguir la mente-  v. 80-81).


Gustave Doré. 

            Em seguida, ele se vê “alçado, só com minha dama, a mais alta beatitude” (/.../ e vidimi translato/ sol con mia donna in più alta salute-  v. 82-83). Percebe que só eles dois, não os demais espíritos do céu do Sol, foram elevados a um astro de “riso ígneo” (affocato riso- v.86), identificado como Marte, que tomou o nome do deus romano da guerra. Tal "estrela" lhe pareceu então “mais rubra que o usual” (che mi parea piu roggio che l’usato- v. 87), como sinal de boas-vindas a Beatriz (8). No planeta vermelho estão os espíritos dos que morreram em defesa da fé, vale dizer dos espíritos associados à Igreja militante.  
   
            Dante, “De todo coração e com aquela linguagem/ que é comum a toda gente” (Con tutto ‘l core e con quella favella/ ch’ è una in tutti, /.../- v. 88-89), a linguagem do coração, faz “holocausto” (olocausto- v. 89), ou sacrifício de si mesmo a Deus (9), metaforicamente, “o que era conveniente pela nova graça recebida” (qual conveniesi a la grazia novella- v. 90), a de subir ao céu de Marte.  E constata que seu “sacrifício” (v.92) fora aceito pois então lhe “apareceram esplendores  em dois raios” (m’apparvero splendor dentro a due raggi- v. 95), ou seja, lhe apareceram muitos espíritos, os dos guerreiros que morreram em defesa da fé (10), “tão fulgentes e tão rubros” (/.../ con tanto lucore e tanto robbi- v. 94), formando uma cruz ( como se dirá abaixo, nos vv. 101-102), o que faz o poeta admirar-se pela forma como o Sol (“Hélios”: Elïòs- v. 96, nome grego do astro), ou Deus, adorna tais espíritos com sua luz.

A. Vellutello- A cruz do Céu de Marte


            Segue-se uma comparação desses espíritos que formaram uma cruz com os astros da “Via Láctea” (Galassia- v. 99). A cruz é referida nos versos como “o venerável signo/ que se forma da conjunção dos quadrantes em um círculo” (/.../ il venerabil segno/ che fan giunture di quadranti in tondo- v. 101-102), pelo que imaginamos uma cruz grega, aquela que tem os braços iguais, frequentemente presente na imagem do halo de Cristo conforme era representada na arte medieval (11).  Assim, os “dois raios” mencionados acima são os ramos dessa cruz, formados pelos inúmeros espíritos do céu de Marte.  

            O poeta, que vem narrando ao longo dos cantos sua experiência única, lembra de ter visto ali fulgurar o próprio Cristo. Mas sente-se incapaz de expressar essa visão em palavras, dado que ela é inefável. Por isso, afirmara:  Aqui a memória minha vence o engenho” (Qui vince la memoria mia lo ‘ngegno- v. 103).

            Nessa cruz, os espíritos (lumi- v. 110) se moviam, cintilando “De um lado a outro, e de cima para baixo” (Di corno in corno e tra la cima e ‘l basso- v.109). E eles, curiosamente, são comparados aos “corpúsculos” (le minuzie d’i corpi- v. 114) que se veem nos raios de luz.

            Os tercetos seguintes abrangem uma outra comparação: a do som de afinados instrumentos de corda -- que é considerado “doce” mesmo por quem não distingue as notas, ou não conhece a música --  com  o canto de um hino que os espíritos ali entoam e arrebata Dante, embora este não entenda suas palavras, exceto duas -- “RessurgeeVence” (“Resurgi” e “Vinci”- v. 126). Isso o faz pensar que se trata de um hino de “alto louvor” (d’alte lode- v.124) a Deus, pela Ressurreição de Cristo e sua vitória sobre a morte, conforme os comentaristas (12).

            Dante se enamora (v. 127) tanto do hino ouvido que afirma jamais ter sido preso a algo “com tão doces vínculos” (con sì dolci vinci- v.129). Estas palavras lhe parecem então “muito ousadas/ preterindo a alegria dos olhos belos” (/.../ troppo osa/ posponendo il piacer de li occhi belli- v. 130-131) de Beatriz. Mas, diz ele, quem considera que “os selos vivos/ de toda beleza” (/.../ i vivi suggelli/ d’ogne bellezza /.../- v.133-134), i.e. os seus olhos, se intensificam à medida que  ascendem às esferas celestes superiores, e que ele ainda não se voltara para tais olhos em Marte, poderá desculpá-lo daquela afirmação. Pois “a santa beleza não é daqui excluída/ e se torna, ao subir, mais pura” (ché ‘l piacer santo non è qui dischiuso,/ perché si fa, montando, più sincero- v.138-139).     
Gustave Doré


NOTAS



(1) HOLLANDER, Robert & Jean- “Dante Alighieri- Paradiso”: a verse translation by Robert & Jean Hollander. Introduction & Notes by Robert Hollander.  Doubleday, 2007, p.328 e 340.

(2) Id. ib., p. 341. 

(3) ZOLI, M. e ZANOBINI, F.- “La Divina Commedia: a cura di M.Zoli e F.Zanobini. Inferno. Purgatorio. Paradiso”. Bulgarini, 2013, p. 844.

(4) MANDELBAUM, Allen- “The Divine Comedy of Dante Alighieri- Paradiso”. A verse translation by Allen Mandelbaum. Notes by Anthony Oldcorn and Daniel Feldman, with Giuseppe Di Scipio. Bantam Books, 1986- p.361.

(5) HOLLANDER, Robert & Jean- “Dante Alighieri- Paradiso”, op cit, p. 345-346.

(6) SAYERS, Dorothy L. and REYNOLDS, Barbara—“Dante: The Divine Comedy 3- Paradise”. Translated by Dorothy L. Sayers and Barbara Reynolds.  Penguin Books, 1971, p.379 e 167-168.

(7) HOLLANDER, Robert & Jean- “Dante Alighieri- Paradiso”, op cit, p. 347.

(8) Id. ib., p. 347.

(9) CIARDI, John-  “The Divine Comedy”: The Inferno. The Purgatorio. The Paradiso”. Translated by John Ciardi.  New American Library, 2003, p. 719.

(10) SAYERS, Dorothy L. and REYNOLDS, Barbara—“Dante: The Divine Comedy 3- Paradise”, op cit, p. 184.

(11) Id. ib, p. 184.  

(12) MANDELBAUM, Allen- “The Divine Comedy of Dante Alighieri- Paradiso”, op cit, p. 362.

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Para ouvir o Canto XIV:

https://www.youtube.com/watch?v=vWfihK_cx5A

(acessado em 10.09.20)


Amos Nattini. 




segunda-feira, 29 de janeiro de 2018

CANTO XIII

PARAÍSO


Canto XIII


Nos primeiros oito tercetos deste Canto, Dante procura passar ao leitor a impressão que lhe causou aquelas duas rodas ou círculos de luzes formados pelos 24 espíritos sapientes que ele, em seu centro, juntamente com Beatriz, contemplava, admirado, comparando-as a uma peculiar constelação (v.19).  

Para ter uma ideia dela, o poeta pede para o leitor imaginar, inicialmente, 15 estrelas, identificadas pelos comentaristas como as de 1ª grandeza, estudadas por Alfragnus e Ptolomeu (1); em seguida, as 7 estrelas de 2ª. grandeza do Carro (v.7) ou Ursa Maior, que estão sempre no “nosso céu” (v. 8), i.e. no céu do hemisfério Norte, e por fim, totalizando 24 luzes, as 2 da boca da cornucópia em que consiste a Ursa Menor:

imagini la bocca de quel corno
che si comincia in punta de lo stelo
a cui la prima rota va dintorno      (v. 10-12)

imagina a boca daquele corno,/ que começa na ponta do eixo/ em torno do qual gira a primeira esfera  

No lado oposto à boca encontra-se a ponta do eixo identificada por sua vez como a Estrela do Norte. Em torno desse eixo gira “a primeira esfera”  (v. 12) ou o “Primum Mobile”, o nono céu, que é o mais elevado deles, e imprime movimento aos outros.

Dante pede ainda para o leitor imaginar que essas estrelas façam de si “dois signos” (due segni- v.13) no céu, ou duas constelações (em que se transformou, conforme a mitologia clássica, a coroa de Ariadne, a filha de Minos, mencionada no v. 14), “ambos a girarem, de modo/ que um vá num sentido e outro, em outro” (e amendue girarsi per maniera/ che l’uno andasse al primo e l’altro al poi-  v. 17-18), vale dizer, aquelas duas rodas de luzes de espíritos sapientes giravam em sentido contrário. Uma estava contida na outra, conforme o modo como seus raios se interpenetravam (v. 16).   

O poeta tenta assim dar uma ideia àquele que “deseja bem compreender” (/.../ chi bene intender cupe- v.1) aquilo que ele viu com essas associações estelares. Faz uma comparação curiosa: o que ele viu é tão distante do que estamos acostumados a ver aqui na Terra como a lentidão do rio Chiana é distante da velocidade do “Primum Mobile” (o Chiana é um afluente do Arno, o rio que banha Florença, e é lento porque atravessa pântanos):

/.../ ch’è tanto di là di nostra usanza,
quanto di là dal mover de la Chiana
si move il ciel che tutti li altri avanza.     (v.22-24)

/.../ é tão distante do que estamos acostumados a ver/ quanto é maior do lento fluir do Chiana/ o movimento do céu que supera todos os outros.


Amos Nattini.

            Os espíritos dos sábios cantavam não a Baco ou a Pean (Apolo) mas às três pessoas da trindade divina, inclusive aquela que tinha, além da divina, também a natureza humana (Cristo).  Concluído seu canto (e dança), voltaram sua atenção para Dante e Beatriz, no centro das rodas, “alegrando--se em passar de um cuidado a outro” (felicitando sé di cura in cura- v. 30), i.e. em passar a atender à curiosidade de  Dante (a segunda das suas dúvidas ainda não foi respondida).

            Então, rompe o silêncio “a luz que me narrara a vida maravilhosa/ do pobrezinho de Deus” (/.../ la luce in che mirabil vita/ del poverel di Dio narrata fumi- v. 32-33), ou seja Tomás de Aquino, que narrou, no Canto XI, a vida de Francisco de Assis. A partir do v. 34, e até o último verso do presente Canto, é Tomás quem fala. 

            Inicia por uma metáfora do meio rural, afirmando que:

/.../ “Quando l’una paglia è trita,
quando la sua semenza è già riposta,
a bater l”altra dolce amor m’invita.     (v.34-36)

/.../ “Quando um feixe é malhado/ quando o seu grão já está armazenado,/ a malhar outro o doce amor me convida.

Ou seja, depois de esclarecer a primeira dúvida de Dante (no Canto X), ele deve concentrar-se agora na segunda dúvida, aquela relativa à sabedoria sem rival de Salomão. A dúvida surgiu em Dante quando Tomás afirmou “que não houve outro/ espírito igual ao que se esconde na quinta luz” (do primeiro círculo) (quando narrai che non ebbe ‘l secondo/ lo ben che ne la quinta luce è chiuso- v. 47-48).

Dante se perguntou então como pôde o dominicano fazer tal afirmação a respeito de Salomão (reiterando aquela do canto X, v. 114-- “não se elevou jamais um segundo com tanta visão”: a veder tanto non surse il secondo) se existiram dois homens especiais, o primeiro, criado diretamente por Deus, Adão, que forneceu a costela “para formar o belo rosto daquela/ cujo paladar foi tão custoso ao mundo” (/.../ per formar la bela guancia/ il cui palato a tutto ‘l mondo costa- v.38-39) (Eva) e o segundo, o Cristo homem, que viria ao mundo para cumprir sua missão redentora, pois “os pecados antigos e posteriores expiou/ mais do que compensando nossa culpa na balança” (da justiça) (e prima e poscia tanto sodisfece,/ che d’ogne colpa vince la bilancia-  v.41-42). Aos dois, toda a luz (inteligência, sabedoria) possível foi atribuída por Deus:

quantunque a la natura umana lece
aver di lume, tutto fosse infuso
da quel valor che l’uno e l’altro fece     (v. 43-45)

tudo quanto a natureza humana pode/ ter de luz, tudo lhes foi infundido/ por aquele Valor que fez um e outro   

            Tomás de Aquino, todavia, pede então que Dante o ouça atentamente, pois não há discrepância nenhuma entre o que este crê e o que ele diz. Dante verá ambos “coincidirem na verdade como no centro de um círculo” (nel vero farsi come centro in tondo- v. 51), vale dizer, verá como essas duas posições, comparadas implicitamente aos pontos ao longo de um círculo, coincidem no seu ponto central, que é comum a todos eles, do qual distam igualmente (2).

            O teólogo prossegue afirmando que “O que não morre e o que morrerá” (Ciò che non more e ciò che può morire- v.52) (“o que não morre” abrange os anjos, os céus, a matéria primeira e a alma humana), ou seja, todas as coisas criadas são reflexos “daquela ideia” (di quella idea- v.53), ou do Verbo (Cristo), “que Deus, por amor (o Espírito Santo), gera” (v. 54); nos versos seguintes ocorre nova menção a essas três pessoas da SS. Trindade quando afirmam que a “viva luz” (viva luce- v.55) (Cristo) deriva de Deus, sua fonte, de quem não se separa, nem do amor (Espírito Santo), que com elas -- a luz e a fonte -- forma a Trindade, permanecendo eternamente una; os raios desta Trindade Santíssima refletem-se, como num espelho, em nove essências (sussistenze- v. 59, literalmente “subsistências”, que subsistem por si mesmas), identificadas como as ordens angélicas. “Delas, a luz refletida desce à última potência,/ de ato em ato /.../” (Quindi discende a l’ultime potenze/ giù d’atto in atto /.../- v.61- 62), vale dizer, a luz do Verbo (cf v. 55), que, conforme Hollander, “combina seu poder criativo com as presenças angélicas em cada esfera celeste” (3), desce, se atenuando, por essas esferas, até chegar ao (nosso) mundo abaixo do céu da Lua (4), criando seres contingentes, “com semente e sem semente” (con seme e sanza seme /.../- v. 66), ou seja, seres orgânicos (animais e vegetais) e inorgânicos (minerais).  Esses seres não são uniformes, variam entre si:

La cera di costoro e chi la duce
non sta d’un modo; e però sotto ‘l segno
idëale poi più e men traluce.

Ond’ elli avvien ch’um medesimo legno,
secondo specie, meglio e peggio frutta;
e voi nascete con diverso ingegno.        (v.67-72)

A cera de tais coisas e o que a modela/ não são imutáveis; por isso, sob o selo da ideia divina/ a luz brilha mais e menos.
Assim sucede que árvores da mesma espécie/ produzam frutos melhores e piores;/ e vós nasceis com diverso engenho.              

A luz do selo divino é distribuída imperfeitamente pela Natureza (termo que abrange “a soma das causas secundárias”) (5), “operando semelhante ao artista/ que conhece sua arte mas a mão lhe treme” (similemente operando a l’artista/ ch’a l’abito de l’arte ha man che trema- v. 77-78). Porém, com a intervenção divina direta, vale dizer, da Trindade (suas três pessoas são agora referidas como “amor”, “visão” e “primeira virtude”, nos vv. 79 e 80), “toda perfeição aqui (na terra) se adquire” (tutta la perfezion quivi s’acquista- v. 81). Foi o que ocorreu quando houve a criação de Adão e quando Deus se fez homem na pessoa de Cristo:

Così fu fatta già la terra degna
di tutta l’animal perfezïone;
così fu fatta la Vergine pregna;    (v.82-84)

Assim, a terra já foi digna/ de toda a perfeição animal; / e assim a Virgem engravidou;   

            Desse modo, Tomás afirma que concorda com a opinião (subentendida) de Dante, “de que a natureza humana jamais foi/ nem será o que foi naquelas duas pessoas” (che l’umana natura mai non fue/ né fia qual fu in quelle due persone- v. 86-87), Adão e Cristo.

            Mas nesse ponto, diz Tomás, Dante poderia lhe perguntar: “Então, como aquele foi sem par?” (‘Dunque, come costui fu sanza pare?’- v. 89), i.e. como Salomão não teve par? (Dante, já se vê, estaria se referindo àquela afirmação de Tomás a propósito de Salomão antes citada-- “não se elevou jamais um segundo com tanta visão” (Canto X, v. 114). Tomás então lembra a Dante que Salomão era um rei, e que, ao ser solicitado, pediu ao Senhor sabedoria para bem desempenhar  tal  função (cf. I Reis 3: 5-12). Não pediu para se aprofundar em questões teológicas, filosóficas ou matemáticas: “não (pediu) para saber o número/ dos motores do alto” (non per sapere il numero in che enno/ li motor di qua sù, /.../- v. 97-98), i.e. o número de anjos, as inteligências motrizes das esferas celestes; nem se depois de uma premissa necessária e de uma contingente segue-se uma conclusão necessária (o significado dos versos 98-99, conforme os comentadores); ou se se pode admitir que haja um primeiro movimento, que antecedeu todos os outros (v.100, em latim no original); “ou se, dentro de um semicírculo, se pode/ inscrever um triângulo sem ângulo reto” (o se del mezzo cerchio far si puote/ trïangol sì ch’un retto non avesse- v. 101-102). Por fim, Tomás esclarece de modo preciso o sentido dos termos que utilizou anteriormente: “aquela visão sem par é a prudência real” (regal prudenza è quel vedere impari- v.104),

e se al “surse” drizzi li occhi chiari,
vedrai aver solamente respetto
ai regi, che son molti, e’ buon son rari.   (v. 106-108)

e se a “elevou-se” diriges os olhos claros/ verás que se refere somente/ a reis, que são muitos mas os bons são raros.

Assim, o que Tomás quis dizer é que Salomão não teve igual na sua condição de rei sábio. Isso não conflita com o fato de que a natureza humana de modo geral atingiu o seu mais elevado grau de perfeição em dois casos: no do “primeiro pai (primo padre- v.111), o de Adão (criado diretamente por Deus) e do “nosso Bem Amado” (nostro Diletto- v. 111), o de Cristo.

 Na sequência, Tomás aconselha a Dante a tirar disso uma lição: não se precipitar em tomar partido rapidamente, quando a questão (filosófica ou teológica) não está clara. Para tanto usa a imagem do chumbo associado aos pés:

E questo ti sia sempre piombo a’ piedi,
per farti mover lento com’ uom lasso
e al sì e al no che tu non vedi:      (v. 112-114)

E que isto te seja sempre chumbo aos pés,/ para que te movas lento, como o homem cansado,/ ao sim e ao não, quando não vês claro:

Depois, por questão de amor próprio, o estulto (v.115) se apega à opinião falsa, porque tomada apressadamente, sem maior exame da matéria, e anula a própria razão: 

perch’ elli ‘ncontra che più volte piega
l’oppinïon corrente in falsa parte,
e poi l’affetto l’intelletto lega.     (v. 118-120)

visto que muitas vezes/ a opinião apressada se volta à falsa parte,/ e depois a paixão bloqueia o intelecto.

            O poeta compara a pessoa que busca a verdade de modo equivocado a um  pescador: “aquele que sai para pescar a verdade mas lhe falta a arte” (chi pesca per lo vero e non ha l’arte- v. 123)  Ilustra esse caso com os antigos filósofos gregos Parmenides, Melisso e Brisso (v.125), refutados por Aristóteles, e com os teólogos heréticos Sabélio e Ário e outros “estultos” (stolti- v. 127).  O primeiro negava a doutrina da Trindade  e o outro, a natureza divina de Cristo (6)

            Os versos 128-129 contêm uma comparação curiosa: os heréticos “/.../ foram como espadas à Escritura/ tornando tortos os rostos direitos” (/.../ furon come spade a le Scritture/ in render torti li diritti volti). Como a lâmina das espadas reflete as imagens distorcidas, assim também os heréticos distorcem as palavras da Escritura.

            Nos versos finais do Canto, Tomás de Aquino usa algumas  imagens em sua crítica aos nossos julgamentos precipitados. Inicialmente, refere-se a “aquele que estima/ no campo a seara antes que ela esteja madura” (/.../ sì come quei che stima/ le biade in campo pria che sien mature;- v.131-132) ou ao que vê por todo o inverno a sarça com mau aspecto “e depois (vê) florescer a rosa no seu cume” (poscia portar la rosa in su la cima;- v. 135). A imagem final é inspirada pelo mar e o navio que por ele navega:

e legno vidi già dritto e veloce
correr lo mar per tutto suo cammino,
perire al fine a l’intrar de la foce.     (v. 136-138)

e lenho já vi direito e veloz/ seguir no mar todo o seu caminho/ e perecer no fim ao entrar no porto.

            A advertência contra o julgamento apressado é reiterado no último terceto do Canto, quando Tomás afirma que não pensem dona Berta e “seu” Marino (nomes populares em Florença) já saberem qual é o juízo divino, “por verem um roubar e outro dar esmola” (per vedere un furare, altro offerere- v. 140), “pois aquele pode salvar-se, e este, perder-se” (ché quel può surgere, e quel può cadere- v. 142).   



NOTAS


(1) MANDELBAUM, Allen- “The Divine Comedy of Dante Alighieri- Paradiso”. A verse translation by Allen Mandelbaum. Notes by Anthony Oldcorn and Daniel Feldman, with Giuseppe Di Scipio. Bantam Books, 1986- p.357-8.

(2) HOLLANDER, Robert & Jean- “Dante Alighieri- Paradiso”: a verse translation by Robert & Jean Hollander. Introduction & Notes by Robert Hollander.  Doubleday, 2007, p. 319-320.

(3) Id. ib, p. 321  

(4) MANDELBAUM, Allen- “The Divine Comedy of Dante Alighieri- Paradiso”, op cit, p.359;  HOLLANDER, Robert & Jean- “Dante Alighieri- Paradiso”, op cit, p.320.

(5) MANDELBAUM, Allen- “The Divine Comedy of Dante Alighieri- Paradiso”, op cit, p.359.

(6) Id. ib, p. 360.

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Para ouvir o Canto XIII: 


Salvador Dalí.