segunda-feira, 29 de janeiro de 2018

CANTO XIII

PARAÍSO


Canto XIII


Nos primeiros oito tercetos deste Canto, Dante procura passar ao leitor a impressão que lhe causou aquelas duas rodas ou círculos de luzes formados pelos 24 espíritos sapientes que ele, em seu centro, juntamente com Beatriz, contemplava, admirado, comparando-as a uma peculiar constelação (v.19).  

Para ter uma ideia dela, o poeta pede para o leitor imaginar, inicialmente, 15 estrelas, identificadas pelos comentaristas como as de 1ª grandeza, estudadas por Alfragnus e Ptolomeu (1); em seguida, as 7 estrelas de 2ª. grandeza do Carro (v.7) ou Ursa Maior, que estão sempre no “nosso céu” (v. 8), i.e. no céu do hemisfério Norte, e por fim, totalizando 24 luzes, as 2 da boca da cornucópia em que consiste a Ursa Menor:

imagini la bocca de quel corno
che si comincia in punta de lo stelo
a cui la prima rota va dintorno      (v. 10-12)

imagina a boca daquele corno,/ que começa na ponta do eixo/ em torno do qual gira a primeira esfera  

No lado oposto à boca encontra-se a ponta do eixo identificada por sua vez como a Estrela do Norte. Em torno desse eixo gira “a primeira esfera”  (v. 12) ou o “Primum Mobile”, o nono céu, que é o mais elevado deles, e imprime movimento aos outros.

Dante pede ainda para o leitor imaginar que essas estrelas façam de si “dois signos” (due segni- v.13) no céu, ou duas constelações (em que se transformou, conforme a mitologia clássica, a coroa de Ariadne, a filha de Minos, mencionada no v. 14), “ambos a girarem, de modo/ que um vá num sentido e outro, em outro” (e amendue girarsi per maniera/ che l’uno andasse al primo e l’altro al poi-  v. 17-18), vale dizer, aquelas duas rodas de luzes de espíritos sapientes giravam em sentido contrário. Uma estava contida na outra, conforme o modo como seus raios se interpenetravam (v. 16).   

O poeta tenta assim dar uma ideia àquele que “deseja bem compreender” (/.../ chi bene intender cupe- v.1) aquilo que ele viu com essas associações estelares. Faz uma comparação curiosa: o que ele viu é tão distante do que estamos acostumados a ver aqui na Terra como a lentidão do rio Chiana é distante da velocidade do “Primum Mobile” (o Chiana é um afluente do Arno, o rio que banha Florença, e é lento porque atravessa pântanos):

/.../ ch’è tanto di là di nostra usanza,
quanto di là dal mover de la Chiana
si move il ciel che tutti li altri avanza.     (v.22-24)

/.../ é tão distante do que estamos acostumados a ver/ quanto é maior do lento fluir do Chiana/ o movimento do céu que supera todos os outros.


Amos Nattini.

            Os espíritos dos sábios cantavam não a Baco ou a Pean (Apolo) mas às três pessoas da trindade divina, inclusive aquela que tinha, além da divina, também a natureza humana (Cristo).  Concluído seu canto (e dança), voltaram sua atenção para Dante e Beatriz, no centro das rodas, “alegrando--se em passar de um cuidado a outro” (felicitando sé di cura in cura- v. 30), i.e. em passar a atender à curiosidade de  Dante (a segunda das suas dúvidas ainda não foi respondida).

            Então, rompe o silêncio “a luz que me narrara a vida maravilhosa/ do pobrezinho de Deus” (/.../ la luce in che mirabil vita/ del poverel di Dio narrata fumi- v. 32-33), ou seja Tomás de Aquino, que narrou, no Canto XI, a vida de Francisco de Assis. A partir do v. 34, e até o último verso do presente Canto, é Tomás quem fala. 

            Inicia por uma metáfora do meio rural, afirmando que:

/.../ “Quando l’una paglia è trita,
quando la sua semenza è già riposta,
a bater l”altra dolce amor m’invita.     (v.34-36)

/.../ “Quando um feixe é malhado/ quando o seu grão já está armazenado,/ a malhar outro o doce amor me convida.

Ou seja, depois de esclarecer a primeira dúvida de Dante (no Canto X), ele deve concentrar-se agora na segunda dúvida, aquela relativa à sabedoria sem rival de Salomão. A dúvida surgiu em Dante quando Tomás afirmou “que não houve outro/ espírito igual ao que se esconde na quinta luz” (do primeiro círculo) (quando narrai che non ebbe ‘l secondo/ lo ben che ne la quinta luce è chiuso- v. 47-48).

Dante se perguntou então como pôde o dominicano fazer tal afirmação a respeito de Salomão (reiterando aquela do canto X, v. 114-- “não se elevou jamais um segundo com tanta visão”: a veder tanto non surse il secondo) se existiram dois homens especiais, o primeiro, criado diretamente por Deus, Adão, que forneceu a costela “para formar o belo rosto daquela/ cujo paladar foi tão custoso ao mundo” (/.../ per formar la bela guancia/ il cui palato a tutto ‘l mondo costa- v.38-39) (Eva) e o segundo, o Cristo homem, que viria ao mundo para cumprir sua missão redentora, pois “os pecados antigos e posteriores expiou/ mais do que compensando nossa culpa na balança” (da justiça) (e prima e poscia tanto sodisfece,/ che d’ogne colpa vince la bilancia-  v.41-42). Aos dois, toda a luz (inteligência, sabedoria) possível foi atribuída por Deus:

quantunque a la natura umana lece
aver di lume, tutto fosse infuso
da quel valor che l’uno e l’altro fece     (v. 43-45)

tudo quanto a natureza humana pode/ ter de luz, tudo lhes foi infundido/ por aquele Valor que fez um e outro   

            Tomás de Aquino, todavia, pede então que Dante o ouça atentamente, pois não há discrepância nenhuma entre o que este crê e o que ele diz. Dante verá ambos “coincidirem na verdade como no centro de um círculo” (nel vero farsi come centro in tondo- v. 51), vale dizer, verá como essas duas posições, comparadas implicitamente aos pontos ao longo de um círculo, coincidem no seu ponto central, que é comum a todos eles, do qual distam igualmente (2).

            O teólogo prossegue afirmando que “O que não morre e o que morrerá” (Ciò che non more e ciò che può morire- v.52) (“o que não morre” abrange os anjos, os céus, a matéria primeira e a alma humana), ou seja, todas as coisas criadas são reflexos “daquela ideia” (di quella idea- v.53), ou do Verbo (Cristo), “que Deus, por amor (o Espírito Santo), gera” (v. 54); nos versos seguintes ocorre nova menção a essas três pessoas da SS. Trindade quando afirmam que a “viva luz” (viva luce- v.55) (Cristo) deriva de Deus, sua fonte, de quem não se separa, nem do amor (Espírito Santo), que com elas -- a luz e a fonte -- forma a Trindade, permanecendo eternamente una; os raios desta Trindade Santíssima refletem-se, como num espelho, em nove essências (sussistenze- v. 59, literalmente “subsistências”, que subsistem por si mesmas), identificadas como as ordens angélicas. “Delas, a luz refletida desce à última potência,/ de ato em ato /.../” (Quindi discende a l’ultime potenze/ giù d’atto in atto /.../- v.61- 62), vale dizer, a luz do Verbo (cf v. 55), que, conforme Hollander, “combina seu poder criativo com as presenças angélicas em cada esfera celeste” (3), desce, se atenuando, por essas esferas, até chegar ao (nosso) mundo abaixo do céu da Lua (4), criando seres contingentes, “com semente e sem semente” (con seme e sanza seme /.../- v. 66), ou seja, seres orgânicos (animais e vegetais) e inorgânicos (minerais).  Esses seres não são uniformes, variam entre si:

La cera di costoro e chi la duce
non sta d’un modo; e però sotto ‘l segno
idëale poi più e men traluce.

Ond’ elli avvien ch’um medesimo legno,
secondo specie, meglio e peggio frutta;
e voi nascete con diverso ingegno.        (v.67-72)

A cera de tais coisas e o que a modela/ não são imutáveis; por isso, sob o selo da ideia divina/ a luz brilha mais e menos.
Assim sucede que árvores da mesma espécie/ produzam frutos melhores e piores;/ e vós nasceis com diverso engenho.              

A luz do selo divino é distribuída imperfeitamente pela Natureza (termo que abrange “a soma das causas secundárias”) (5), “operando semelhante ao artista/ que conhece sua arte mas a mão lhe treme” (similemente operando a l’artista/ ch’a l’abito de l’arte ha man che trema- v. 77-78). Porém, com a intervenção divina direta, vale dizer, da Trindade (suas três pessoas são agora referidas como “amor”, “visão” e “primeira virtude”, nos vv. 79 e 80), “toda perfeição aqui (na terra) se adquire” (tutta la perfezion quivi s’acquista- v. 81). Foi o que ocorreu quando houve a criação de Adão e quando Deus se fez homem na pessoa de Cristo:

Così fu fatta già la terra degna
di tutta l’animal perfezïone;
così fu fatta la Vergine pregna;    (v.82-84)

Assim, a terra já foi digna/ de toda a perfeição animal; / e assim a Virgem engravidou;   

            Desse modo, Tomás afirma que concorda com a opinião (subentendida) de Dante, “de que a natureza humana jamais foi/ nem será o que foi naquelas duas pessoas” (che l’umana natura mai non fue/ né fia qual fu in quelle due persone- v. 86-87), Adão e Cristo.

            Mas nesse ponto, diz Tomás, Dante poderia lhe perguntar: “Então, como aquele foi sem par?” (‘Dunque, come costui fu sanza pare?’- v. 89), i.e. como Salomão não teve par? (Dante, já se vê, estaria se referindo àquela afirmação de Tomás a propósito de Salomão antes citada-- “não se elevou jamais um segundo com tanta visão” (Canto X, v. 114). Tomás então lembra a Dante que Salomão era um rei, e que, ao ser solicitado, pediu ao Senhor sabedoria para bem desempenhar  tal  função (cf. I Reis 3: 5-12). Não pediu para se aprofundar em questões teológicas, filosóficas ou matemáticas: “não (pediu) para saber o número/ dos motores do alto” (non per sapere il numero in che enno/ li motor di qua sù, /.../- v. 97-98), i.e. o número de anjos, as inteligências motrizes das esferas celestes; nem se depois de uma premissa necessária e de uma contingente segue-se uma conclusão necessária (o significado dos versos 98-99, conforme os comentadores); ou se se pode admitir que haja um primeiro movimento, que antecedeu todos os outros (v.100, em latim no original); “ou se, dentro de um semicírculo, se pode/ inscrever um triângulo sem ângulo reto” (o se del mezzo cerchio far si puote/ trïangol sì ch’un retto non avesse- v. 101-102). Por fim, Tomás esclarece de modo preciso o sentido dos termos que utilizou anteriormente: “aquela visão sem par é a prudência real” (regal prudenza è quel vedere impari- v.104),

e se al “surse” drizzi li occhi chiari,
vedrai aver solamente respetto
ai regi, che son molti, e’ buon son rari.   (v. 106-108)

e se a “elevou-se” diriges os olhos claros/ verás que se refere somente/ a reis, que são muitos mas os bons são raros.

Assim, o que Tomás quis dizer é que Salomão não teve igual na sua condição de rei sábio. Isso não conflita com o fato de que a natureza humana de modo geral atingiu o seu mais elevado grau de perfeição em dois casos: no do “primeiro pai (primo padre- v.111), o de Adão (criado diretamente por Deus) e do “nosso Bem Amado” (nostro Diletto- v. 111), o de Cristo.

 Na sequência, Tomás aconselha a Dante a tirar disso uma lição: não se precipitar em tomar partido rapidamente, quando a questão (filosófica ou teológica) não está clara. Para tanto usa a imagem do chumbo associado aos pés:

E questo ti sia sempre piombo a’ piedi,
per farti mover lento com’ uom lasso
e al sì e al no che tu non vedi:      (v. 112-114)

E que isto te seja sempre chumbo aos pés,/ para que te movas lento, como o homem cansado,/ ao sim e ao não, quando não vês claro:

Depois, por questão de amor próprio, o estulto (v.115) se apega à opinião falsa, porque tomada apressadamente, sem maior exame da matéria, e anula a própria razão: 

perch’ elli ‘ncontra che più volte piega
l’oppinïon corrente in falsa parte,
e poi l’affetto l’intelletto lega.     (v. 118-120)

visto que muitas vezes/ a opinião apressada se volta à falsa parte,/ e depois a paixão bloqueia o intelecto.

            O poeta compara a pessoa que busca a verdade de modo equivocado a um  pescador: “aquele que sai para pescar a verdade mas lhe falta a arte” (chi pesca per lo vero e non ha l’arte- v. 123)  Ilustra esse caso com os antigos filósofos gregos Parmenides, Melisso e Brisso (v.125), refutados por Aristóteles, e com os teólogos heréticos Sabélio e Ário e outros “estultos” (stolti- v. 127).  O primeiro negava a doutrina da Trindade  e o outro, a natureza divina de Cristo (6)

            Os versos 128-129 contêm uma comparação curiosa: os heréticos “/.../ foram como espadas à Escritura/ tornando tortos os rostos direitos” (/.../ furon come spade a le Scritture/ in render torti li diritti volti). Como a lâmina das espadas reflete as imagens distorcidas, assim também os heréticos distorcem as palavras da Escritura.

            Nos versos finais do Canto, Tomás de Aquino usa algumas  imagens em sua crítica aos nossos julgamentos precipitados. Inicialmente, refere-se a “aquele que estima/ no campo a seara antes que ela esteja madura” (/.../ sì come quei che stima/ le biade in campo pria che sien mature;- v.131-132) ou ao que vê por todo o inverno a sarça com mau aspecto “e depois (vê) florescer a rosa no seu cume” (poscia portar la rosa in su la cima;- v. 135). A imagem final é inspirada pelo mar e o navio que por ele navega:

e legno vidi già dritto e veloce
correr lo mar per tutto suo cammino,
perire al fine a l’intrar de la foce.     (v. 136-138)

e lenho já vi direito e veloz/ seguir no mar todo o seu caminho/ e perecer no fim ao entrar no porto.

            A advertência contra o julgamento apressado é reiterado no último terceto do Canto, quando Tomás afirma que não pensem dona Berta e “seu” Marino (nomes populares em Florença) já saberem qual é o juízo divino, “por verem um roubar e outro dar esmola” (per vedere un furare, altro offerere- v. 140), “pois aquele pode salvar-se, e este, perder-se” (ché quel può surgere, e quel può cadere- v. 142).   



NOTAS


(1) MANDELBAUM, Allen- “The Divine Comedy of Dante Alighieri- Paradiso”. A verse translation by Allen Mandelbaum. Notes by Anthony Oldcorn and Daniel Feldman, with Giuseppe Di Scipio. Bantam Books, 1986- p.357-8.

(2) HOLLANDER, Robert & Jean- “Dante Alighieri- Paradiso”: a verse translation by Robert & Jean Hollander. Introduction & Notes by Robert Hollander.  Doubleday, 2007, p. 319-320.

(3) Id. ib, p. 321  

(4) MANDELBAUM, Allen- “The Divine Comedy of Dante Alighieri- Paradiso”, op cit, p.359;  HOLLANDER, Robert & Jean- “Dante Alighieri- Paradiso”, op cit, p.320.

(5) MANDELBAUM, Allen- “The Divine Comedy of Dante Alighieri- Paradiso”, op cit, p.359.

(6) Id. ib, p. 360.

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Para ouvir o Canto XIII: 


Salvador Dalí. 

quinta-feira, 30 de novembro de 2017

CANTO XII


PARAÍSO 


Canto XII


            Tão logo Tomás de Aquino, “a bendita chama” (la benedetta fiamma- v. 2), encerrou sua fala, a roda daquelas luzes, formada pelos espíritos sábios, começou a girar de novo; e antes que esta completasse seu giro, outra roda de luzes a circundou, unindo seu movimento e canto ao movimento e canto da primeira.  O poeta diz que esse canto celeste é superior aos cantos terrenos mais sublimes imaginados pelos homens, e faz outra comparação de superioridade: 

canto che tanto vince nostre muse,
nostre serene in quelle dolci tube,
quanto primo splendor quel ch’e’ refuse.    (v. 7-9)

canto que tanto vence nossas musas,/ nossas sereias em suas doces vozes,/ quanto a luz direta vence a reflexa.

            Segundo a mitologia clássica, as musas eram nove divindades irmãs que presidiam as artes enquanto as sereias eram seres mistos -- metade mulher, metade pássaro -- que com seu canto cativante atraíam os marinheiros para as ilhas rochosas em que viviam, causando a desgraça deles (1).  

            Na sequência, “as duas guirlandas” (le due ghirlande- v. 20) que giram em torno de Dante e Beatriz são comparadas a um arco-íris duplo, sendo o segundo arco entendido como reflexo ou “eco” do primeiro. Dante recorre aqui novamente à mitologia, referindo-se à ninfa errante (chamada Eco) que se consumiu por causa de seu amor não correspondido por Narciso, restando dela somente a voz:  

nascendo di quel d’entro quel di fori, 
a guisa del parlar di quella vaga
ch’ amor consunse come sol vapori      (v.13-15)

nascendo o arco de fora do de dentro/ como o eco da voz daquela ninfa errante/ que o amor consumiu como sol, a neblina

Gustave Doré

Assim, "a (guirlanda) externa imitava a interna” (e sì l’estrema a l’intima rispuose- v. 21). Antes, no v. 12, o poeta já fizera mais uma referência mitológica quando afirmou que Juno, senhora do Olimpo, enviara à Terra a “sua serva” (sua ancella) (i.e Íris, deusa do arco-íris). Há ainda nessa passagem também uma referência bíblica, quando os versos nos lembram que os arcos-íris estão associados ao “pacto que Deus fez com Noé” (per lo patto che Dio con Noè puose- v. 17), assegurando que nunca mais ocorrerá outro dilúvio. 

Depois, a dança e o canto param e “do coração de uma das luzes novas/ se ouviu uma voz” (del cor de l’una de le luci nove / si mosse voce, /.../- v. 28-29).  Dante diz que se volta para ela como “agulha à Estrela Polar” (l’ago a la stella- v. 29), uma referência implícita à bússola. Essa voz é de  S.Boaventura, que só se identificará mais adiante, no v.127. Tal franciscano fará agora o elogio do dominicano S.Domingos, assim como no canto anterior um dominicano, S.Tomás de Aquino, fez o elogio de S.Francisco, indicando  que no Paraíso as divergências terrenas entre as duas ordens religiosas não existem. Aliás, os comentaristas ressaltam o paralelismo em vários aspectos deste canto XII com o canto XI (2). 

S. Boaventura justifica do modo seguinte o elogio que vai fazer agora de S.Domingos, uma vez que o de S.Francisco já foi feito:  Justo é que, onde está um, o outro se introduza” (Degno è che, dov’ è l’un, l’altro s’induca- v. 34) para que “assim sua glória brilhe conjuntamente” (così la gloria loro insieme luca- v. 36). 

Dizem os versos: como “as fileiras de Cristo” (L’essercito di Cristo- v. 37), ou seja, os membros da Igreja Católica, “se moviam lentas, hesitantes e escassas” (si movea tardo, sospeccioso e raro- v. 39) atrás da insígnia (dietro a la ’nsegna- v. 38), i.e. da cruz), Deus ajudou essa milícia, “só pela graça, não por seu mérito” (per sola grazia, non per esser degna- v. 42). “Socorreu a sua esposa” (a Igreja) (“/.../ a sua sposa soccorse- v. 43) “com dois campeões cuja ação e pregação/ fizeram o povo disperso congregar-se” (con due campioni, al cui fare, al cui dire/ lo popol disvïato si raccorse- v. 44-45). Os dois campeões são naturalmente os dois santos citados. A “ação” mencionada é a de benemerência por parte dos franciscanos, baseada na caridade ou no amor, e a “pregação”, que se baseia na razão, é aquela exercida por parte dos dominicanos (cuja ordem também é conhecida como a dos Pregadores).

S. Boaventura então inicia sua fala situando geograficamente a região de nascimento de S. Domingos, “Naquela parte da Terra de onde surge/ o gentil Zéfiro” (o vento oeste) (In quella parte ove surge /.../ Zenfiro dolce /.../- v.46-47), na extremidade ocidental da Europa (e do mundo então conhecido), ou seja a Espanha. É aí que a primavera primeiro surge (por isso, a menção às “novas folhas” (le novelle fronde- v.47) de que o continente se reveste) e é também aí que se situa Calaruega, local de nascimento do santo: 

dentro vi nacque l’amoroso drudo
de la fede cristiana, il santo atleta
benigno a’ suoi e a’ nemici crudo;      (v.55-57)

ali nasceu o amoroso vassalo/ da fé cristã, o santo atleta/ bom para os seus, áspero com os inimigos;  

Nesse terceto, em que se destaca a atuação futura de S.Domingos contra os heréticos, “atleta” deve ser entendido como “combatente” (3). 

Antes, os versos disseram que Calaruega está “sob a proteção do grande escudo/ em que o leão é dominado e domina” (sotto la protezion del grande scudo/ in che soggiace il leone e soggioga-  v. 53-54), ou seja, está sob a proteção da Casa de Castela, cujo escudo, dividido em quartéis, apresenta em um lado um castelo sobre um leão (este é dominado), e no outro um leão sobre um castelo (aquele é dominador), ambos associados aos reinos de Castela e de Leão  (4).   

Escudo de Castilla y León. 

 Seguem-se menções a episódios da vida de S. Domingos (1170-1221), supostamente pertencente à nobre família Guzmàn, cujos pais se chamavam Felix e Joana. Ele ingressou na universidade de Palencia aos 14 anos e aí estudou teologia por dez ou doze anos. Fundou a ordem dos Pregadores em 1215.  Ainda no ventre materno, consta que sua mãe sonhou que dava à luz  um cão preto e branco o qual mantinha na boca uma tocha ardente a qual incendiava o mundo (5). Preto e branco tornaram-se as cores dos hábitos dos frades dominicanos, e a tocha passou a simbolizar o zelo da pregação do santo (6). Essas informações nos permitem entender porque sua mãe grávida é chamada de “profetisa” nos versos abaixo. Ela passa a deter essa capacidade em consequência da influência exercida, ainda em seu ventre, pela “força” da mente recém-formada do santo: 

e come fu creata, fu repleta
sì la sua mente di viva vertute
che, ne la madre, lei fece profeta      (v. 58-60)

e assim que foi criada, tão repleta/ ficou sua mente de viva força/ que ainda na mãe a fez profetisa  

Aliás, aquele sonho relaciona-se também ao antigo trocadilho com o termo “dominicano”:  Domini canes,  os cães do Senhor (7). 

Outro episódio biográfico, relacionado ao batismo de Domingos, é referido indiretamente na sequência. Diz respeito a sua madrinha (aquela que consentiu por ele, no ato do batismo, em resposta à pergunta se queria ser batizado). Ela viu em sonho o afilhado com uma estrela brilhando na testa, iluminando o mundo (8).

Dante se expressa assim: 

la donna che per lui l’assenso diede,
vide nel sonno il mirabile frutto
ch’uscir dovea di lui e de le rede;       (v. 64-66)

a dama que deu consentimento por ele/ viu em sonho o fruto admirável/ que devia resultar dele e dos seus herdeiros  

Antes, os versos afirmaram que o batismo de S. Domingos significou o seu “casamento” com a Fé. Esse é mais um ponto a salientar quanto ao paralelismo deste canto com o anterior, onde se disse que S. Francisco se “casou” com a Pobreza. 

No batismo, a criança recebeu o nome de “Dominicus”, possessivo de “Dominus”, que quer dizer “do Senhor” (9). Assim, ele foi nomeado “com o possessivo de quem ele era inteiramente” (del possessivo di cui era tutto- v. 69). 

Após menção a episódios de sua infância, em que “Muitas vezes, silencioso e desperto/ foi encontrado no chão pela sua nutriz” (Spesse fïate fu tacito e desto/ trovato in terra da la sua nutrice-  v. 76-77), o poeta explora também o significado do nome dos pais de S. Domingos: Felice (Felix, em latim) e Giovanna, afirmando que o pai é “verdadeiramente feliz” (veramente Felice- v. 79), naturalmente por ter tido esse filho (assim como se disse que Calaruega é “afortunada” (fortunata- v.52), por ter sido a cidade natal do santo). Quanto à mãe, ela é “verdadeiramente Joana” (veramente Giovanna- v. 80), subentendendo Dante que o leitor conheça o significado desse nome na língua hebraica-- “cheia da graça” ou “graça de Deus” (10). 

S.Domingos dedica-se depois aos estudos “Não pelo mundo, pelo qual agora os homens se empenham” (Non per lo mondo, per cui mo s’affanna- v. 82) (...) “mas por amor ao verdadeiro maná” (ma per amor de la verace manna- v. 84). Há aqui uma crítica do poeta dirigida ao estudo utilitarista que ele constatava então. As pessoas então se interessavam pelo Direito, como o “Ostiense” citado no v.83 (cardeal de Óstia, autor de uma obra de comentários sobre os decretos papais, cujo estudo substituía o das Sagradas Escrituras), ou pela Medicina, como Taddeo (Alderotti) (v.83), interessado no ganho material proporcionado por esse estudo (11). 

Em pouco tempo, S. Domingos se torna “um grande professor” (gran dottor- v. 85) e se põe “a cuidar da vinha” (a circüir la vigna- v. 86), metáfora da Igreja, “que logo seca se o vinhateiro é negligente” (che tosto imbianca, se ‘l vignaio è reo- v.87), uma crítica velada ao papa, que em 1300 era  Bonifácio VIII.  

Na sequência, Dante, pela voz de S. Boaventura, faz uma critica explícita ao ocupante da sede pontifícia (v.89-90), referindo-se às práticas usuais da época. Afirma que S.Domingos não pediu ao papa, como certamente faziam (e eram atendidos) outros religiosos, para distribuir só “dois ou três em vez de seis” (/.../ o due o tre per sei- v.91), “nem o primeiro benefício vacante” (non la fortuna di prima vacante- v.92) nem pediu para seu uso os dízimos da renda  que são dos pobres de Deus” (/.../ decimas, quae sunt pauperum Dei- v.93 mas sim “licença para combater” (licenza di combatter /.../- v. 95) os heréticos. Dessa “semente” (seme- v.95), diz S. Boaventura a Dante, “nasceram as vinte e quatro plantas que te circundam” (del qual ti fascian ventiquattro piante-  v.96). A metáfora da semente, aqui, relaciona-se à boa doutrina -- a doutrina ortodoxa, pela qual se bateu o Santo -- que dará frutos naquelas “plantas’, ou melhor, naqueles espíritos sapientes que formam as duas rodas que circundam Dante e Beatriz.  

E assim partiu S. Domingos para a tarefa a que se propusera:  

/.../ si mosse
quasi torrente ch’ alta vena preme; 

e ne li sterpi eretici percosse
l’impeto suo, più vivamente quivi
dove le resistenze eran più grosse.       (v. 98- 102)

partiu,/ como torrente que brota de alta fonte;
e as matas heréticas golpeou/ mais fortemente ali/ onde a resistência era maior.

            Essa era a região de Provence, no sul da França, onde estava mais  difundida a heresia dos albigenses ou cátaros (12).  

Amos Nattini

O poeta prossegue explorando esse filão vegetal afirmando que de S.Domingos se originaram vários córregos (i.e. os discípulos) (13) “que o jardim católico irrigam/ de modo a deixar seus arbustos mais vivos” (onde l’orto católico si riga,/ sì che i suoi arbuscelli stan più vivi-  v.104-105). 

Ao concluir o elogio a S. Domingos, S. Boaventura  invoca agora uma imagem bélica, a da biga, um antigo carro de combate de duas rodas geralmente puxado por dois cavalos (14). Uma das rodas da biga “com a qual a Santa Igreja se defendeu” (in che la Santa Chiesa si difese- v. 107) é associada à atuação militante dos dominicanos. A outra roda é associada à dos franciscanos. São as duas ordens fundadas no século XIII cujos fundadores recomendavam o “primeiro conselho que deu Cristo” (/.../ primo consiglio che diè Cristo- v. 75), o da pobreza, conselho não seguido pelas outras (ricas) ordens da Igreja.   

Ma l’orbita che fé la parte somma
di sua circunferenza, è derelitta,
sì ch’è la muffa dov’era la gromma.    (v.112-114)

Mas a trilha feita pela suma parte (S.Francisco)/ dessa circunferência é agora abandonada/ de modo que há mofo onde havia crosta. 

Na pipa de vinho, segundo os comentaristas, o produto de boa qualidade deixa uma crosta, diferentemente do de má qualidade. A situação atual da ordem franciscana é, assim, comparada implicitamente a essa pipa, em que o mofo substituiu a crosta...

 A partir desse ponto, o franciscano S. Boaventura inicia desse modo sua crítica à situação atual de sua própria ordem, mais um aspecto a destacar do paralelismo deste canto com o anterior, pois lá também o dominicano S. Tomás, nessa altura, criticava a situação presente da ordem dos Pregadores.

A “família” (famiglia- v. 115) franciscana não segue mais as pegadas de Francisco do modo adequado, e sim invertidamente. Esses franciscanos desviados são “o joio” (il loglio- v.119) que “se lamentará por ser excluído do celeiro” (si lagnerà che l’arca li sia tolta- v. 120), uma metáfora de seu julgamento futuro pelo tribunal divino.   

No “livro” (nostro volume- v. 122) da ordem, que abrange todos os seus membros, ainda existem os bons seguidores do fundador, pois pode-se ler em algumas de suas páginas -- “Eu sou aquele que sempre fui” (/.../ ‘I’ mi son quel ch’i’ soglio’- v.123).  Mas essa gente não será de Casale nem de Acquasparta (v. 124), não será formada por aqueles que, em relação à Regra da ordem, “a relaxam, ou a tornam mais severa” (ch’uno la fugge e altro la coarta- v. 126). Esses versos remetem ao conflito então existente entre duas concepções relativas à vida franciscana, a dos “Conventuali” e a dos “Spirituali” (15). Matteo d’Acquasparta, que foi geral da ordem, propôs relaxar certas disposições da Regra definida por S.Francisco. Porém Ubertino da Casale, líder dos “espirituais”, se opôs a isso, uma vez que radicalizara seu franciscanismo, adotando uma concepção muito mais rígida e severa, que chegou inclusive a ser condenada pelo papa em 1317, sendo Casale mais tarde acusado de heresia (16). Os bons seguidores de S. Francisco serão assim os que seguem a Regra, sem adotar nenhuma dessas duas posições. 

No v. 127, aquele que fala se auto-identifica: é a alma de Boaventura de Bagnoregio. Trata-se de S. Boaventura (1221-1274), que foi professor de filosofia e teologia e geral da ordem dos franciscanos, sendo considerado um dos doutores da Igreja, com o título “Doctor Seraphicus” (17).  

O canto conclui com a enumeração que ele faz dos demais onze espíritos luminosos integrantes da segunda roda circundante (18): os franciscanos Illuminato e Agostinho, que “foram dos primeiros pobrezinhos descalços” (che fuor de’ primi scalzi poverelli- v. 131);  Hugo de S. Victor, místico e teólogo do século XII, pertencente a essa abadia perto de Paris, então centro de misticismo; Pedro Mangiadore, devorador de livros, daí o seu apelido, falecido em S. Victor em 1179, autor de uma história da Igreja; Pedro Hispano, o papa português João XXI, nascido em Lisboa c. 1225, autor de um manual de lógica em doze volumes; o profeta bíblico Natan, que censurou o rei Davi por provocar a morte do marido de Betsabé para poder casar com ela; o patriarca metropolitano e arcebispo de Constantinopla S. João Crisóstomo (c.345-407); Anselmo, arcebispo de Canterbury de 1093 a 1109, ano em que faleceu;  Donato, “que à arte primeira dedicou-se” (ch’a la prim’arte degnò porre mano-  v. 138), ou Aelius Donatus, um erudito romano do século IV, autor de uma gramática latina muito usada na Idade Média (a gramática era a primeira das setes artes liberais da educação medieval); Rabano ou Rabanus Maurus (c.776-856), arcebispo de Mainz, erudito, comentador da Bíblia; e o abade Joaquim de Fiore (“de espírito profético dotado”: di spirito profético dotato- v. 141) (c.1145-c.1202), natural da Calábria. Segundo outro comentarista (19), a doutrina dele, derivada de uma interpretação mística da Bíblia, exerceu forte influência sobre os franciscanos “espirituais”.  Porém muitas de suas ideias foram condenadas pela Igreja. 


NOTAS  

(1) MANDELBAUM, Allen- “The Divine Comedy of Dante Alighieri- Paradiso”. A verse translation by Allen Mandelbaum. Notes by Anthony Oldcorn and Daniel Feldman, with Giuseppe Di Scipio. Bantam Books, 1986- p.352

(2) HOLLANDER, Robert & Jean- “Dante Alighieri- Paradiso”: a verse translation by Robert & Jean Hollander. Introduction & Notes by Robert Hollander.  Doubleday, 2007, p. 303-304.  

(3) ZOLI, M. e ZANOBINI, F.- “La Divina Commedia: a cura di M.Zoli e F.Zanobini. Inferno. Purgatorio. Paradiso”. Bulgarini, 2013, p. 823. 

(4) HOLLANDER, Robert & Jean- “Dante Alighieri- Paradiso”, op cit, p. 292. 

(5) Id. ib, p. 291. 

(6) MANDELBAUM, Allen- “The Divine Comedy of Dante Alighieri- Paradiso”, op cit, p.353.

(7) HOLLANDER, Robert & Jean- “Dante Alighieri- Paradiso”, op cit, p. 293.

(8) MANDELBAUM, Allen- “The Divine Comedy of Dante Alighieri- Paradiso”, op cit, p.353.

(9) Id. ib., p. 353. 

(10) Id. ib., p. 354.   

(11) SAYERS, Dorothy L. and REYNOLDS, Barbara—“Dante: The Divine Comedy 3- Paradise”. Translated by Dorothy L. Sayers and Barbara Reynolds.  Penguin Books, 1971, p. 164.

(12) MANDELBAUM, Allen- “The Divine Comedy of Dante Alighieri- Paradiso”, op cit, p.355. Cf também HOLLANDER, Robert & Jean- “Dante Alighieri- Paradiso”, op cit, p. 297.

(13) MANDELBAUM, Allen- “The Divine Comedy of Dante Alighieri- Paradiso”, op cit, p.355.

(14) MUSA, Mark-- “Dante- The Divine Comedy- Volume 3: Paradise”. Translated with an Introduction, Notes, and Commentary by Mark Musa. Penguin Books, 1986, p. 154.

(15)  MAGUGLIANI, Lodovico— Dante Alighieri. “La Divina Commedia- Paradiso” . Introduzione di Bianca Garavelli. Note di Lodovico Magugliani.  Biblioteca Universale Rizzoli, 1996, p. 116.    

(16) MANDELBAUM, Allen- “The Divine Comedy of Dante Alighieri- Paradiso”, op cit, p.355.

(17) HOLLANDER, Robert & Jean- “Dante Alighieri- Paradiso”, op cit, p. 299. 

(18) Id. ib, p. 300-303.

(19) MANDELBAUM, Allen- “The Divine Comedy of Dante Alighieri- Paradiso”, op cit, p.357.

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Para ouvir o Canto XII:

https://www.youtube.com/watch?v=UibG271BFXk

(acessado em 8.09.20)



"Auto de Fé de S. Domingos de Gusmão"- obra de Pedro Berruguete




sexta-feira, 20 de outubro de 2017

CANTO XI

PARAÍSO

Canto XI


            Os versos iniciais do Canto XI registram a alegria de Dante por estar no Sol com Beatriz,  liberto (temporariamente) da “insensata preocupação dos mortais” (O insensata cura de’ mortali- v.1), que podendo voar alto usam a mente de modo defeituoso (v.2) que lhes faz “bater as asas para baixo” (/.../ in basso bater l’ali- v. 3). Tal preocupação é ilustrada pela menção a diversas atividades exemplificativas daquelas a que se dedicam os homens, lícitas ou não, mas sempre inferiores às mais elevadas espiritualmente. São elas as atividades do direito, da medicina (referida indiretamente pela menção aos “Aforismas” de Hipócrates), da vida eclesiástica, as do monarca, do ladrão, dos dirigentes públicos, dos luxuriosos e dos ociosos. 

              Os espíritos que se mostram no astro voltam a formar uma roda em torno de Dante e Beatriz. O poeta evoca então uma imagem relacionada a um objeto de cena dos rituais religiosos nos templos: cada espírito parado (no lugar que antes ocupava na roda) é comparado a uma “vela em seu suporte(/.../ come a candellier candelo- v. 15). E um daqueles espíritos, ou melhor um daqueles lumes, tem a sua luz intensificada quando começa a falar com Dante (v. 18). Isso decorre de seu amor acrescido pelo ato generoso de esclarecer o poeta (1). Trata-se de S. Tomás de Aquino, pois Dante diz que é a mesma luz que antes tinha falado com ele (v. 17).

            Tomás inicia sua fala (que se estende até o final do Canto) afirmando que conhece os pensamentos de Dante, as suas dúvidas, e isso é uma decorrência do fato de que ele se beneficia da Luz Eterna (de Deus onisciente)  que é causa de sua própria resplandecência. Ele afirma, sem que Dante lhe informe antes, que este tem dúvidas a respeito de dois pontos de sua manifestação anterior, abordada no canto X. A primeira refere-se ao v. 96 desse canto, quando Tomás afirmou com relação aos membros da ordem fundada por S. Domingos que "bem se nutre quem não se perde em coisas vãs". A dúvida de Dante diz respeito à interpretação desse verso. A outra dúvida relaciona-se ao v. 114 do mesmo canto, em que Tomás enfatizou a sabedoria do rei Salomão, não superada por ninguém, segundo ele (2). Tomás vai se concentrar a partir de agora na primeira questão, enquanto a segunda será tratada no canto XIII.  

            O teólogo inicia referindo-se às relações da Providência com a Igreja, que “desposou” Cristo quando ele agonizava na cruz. A Igreja é “a esposa daquele que em altos brados/ com o sangue sagrado a desposou” (la sposa di colui ch’ ad alte grida/ disposò lei col sangue benedetto-  v. 32-33). Assim, a Providência, a fim de que a Igreja -- a “esposa” de Cristo -- se voltasse para Ele e exercesse a sua missão mais segura de si, “designou dois príncipes em seu favor/ que num lado e em outro a guiassem” (due principi ordinò in suo favore,/ che quinci e quindi  le fosser per guida- v.35-36). O primeiro “príncipe” é identificado como S. Francisco de Assis, fundador da ordem dos franciscanos. Ele é associado à ordem angélica dos serafins (a mais alta da hierarquia dos anjos), que simbolizam o amor. O segundo, S. Domingos, fundador da ordem dos dominicanos, é associado à ordem dos querubins, que simbolizam o conhecimento (3).  Assim, eles guiam a Igreja num lado, o do amor ou caridade, e no outro, o do conhecimento ou saber. O poeta, pela voz de Tomás, se refere a eles nestes termos:

L’un fu tutto serafico in ardore;
l’altro per sapïenza in terra fue
di cherubica luce uno splendore.   (v.37-39)

Um foi todo seráfico em seu ardor;/ o outro, pela sua sabedoria, foi na terra/ um esplendor de luz querubínica.

O dominicano Tomás de Aquino passa então a fazer o elogio da vida de  S.Francisco (1182-1226). Mas alerta que “se louva ambos/louvando um” (/.../ d’amendue/ si dice l’un pregiando /.../- v.40-41), “pois a obra deles voltou-se ao mesmo fim” (perch’ ad un fine fur l’opere sue- v.42), a salvação dos homens. No canto XII, a situação se inverte, e um franciscano fará o elogio de S.Domingos, de modo que o poeta mostra aqui a sua concepção conciliadora entre as duas ordens, ignorando as discordâncias entre elas. Os franciscanos adotavam a perspectiva de Santo Agostinho enfatizando a fé enquanto os dominicanos, influenciados por Aristóteles, valorizavam a razão, que deveria fornecer as premissas da teologia (4).  

Na sequência, Tomás passa a se concentrar na vida de S.Francisco, iniciando por uma rápida caraterização geográfica da região de Assis, a cidade italiana onde ele nasceu, situada numa “encosta fértil de alto monte” (fertile costa d’alto monte/.../- v. 45), que é o monte Subasio, em seu lado ocidental. Foi aí que “nasceu ao mundo um sol/ como faz este, às vezes, do Ganges” (/.../ nacque al mondo un sole,/ come fa questo talvolta di Gange-  v. 50-51).  O poeta assim usa essa metáfora do sol associando-a a S. Francisco, ao mesmo tempo em que evoca fisicamente o astro em que o poeta está naquele momento, astro esse que nasce sobre o rio Ganges, na Índia, no verão. Isso dá margem a que Dante, nos v. 52-54, brinque com as palavras, dizendo que quem quiser designar o lugar não deve dizer “Ascesi” (Assis no italiano toscano de Dante, que é também particípio passado do verbo “ascendere”, subir, elevar-se) (5) mas “Oriente”, pois é termo mais apropriado para indicar onde ocorre não qualquer ascensão mas especificamente a do Sol. O poeta prossegue no uso dessa metáfora. O sol, que é S.Francisco, desde cedo, “começou a fazer sentir na terra/ algum conforto pela sua grande virtude” (ch’el cominciò a far sentir la terra/ de la sua gran virtute alcun conforto;- v. 56-57), expressa pelo amor a “uma dama” (v.58)-- a Pobreza personificada, conforme será explicitado no v. 74 -- que é motivo de conflito com o seu pai:

ché, per tal donna, giovinetto, in guerra
del padre corse, a cui, come a la morte,
la porta del piacer nessun diserra;       (v. 58-60)

pois, ainda jovem, por uma dama em guerra/ entrou com o pai, e a ela, como à morte,/ a porta ninguém abre prazerosamente;


Giotto- S.Francisco renuncia aos bens materiais 

Como Francisco usou “mal” o dinheiro do pai (o comerciante Pietro Bernardone), doando-o aos pobres, este o deserdou formalmente perante a corte episcopal, chamada no v. 61 de “corte espiritual” (spirital corte). No verso seguinte, há sugestão de linguagem burocrática (reforçando a formalidade do ato) pelo uso da expressão latina “et coram patria” (“na presença do pai”- v. 62). Francisco concorda com a atitude paterna e inclusive se desnuda em praça pública de Assis para lhe devolver as roupas (6). O poeta trata esse episódio biográfico como o momento em que Francisco “desposa” a Pobreza, amando-a cada vez mais depois disso (v.61-63). O poeta prossegue explorando essa imagem da mulher que personifica a Pobreza (o que fará até o fim da narrativa sobre a vida do santo, no v. 117), referindo-se a Cristo como seu “primeiro marido” e mostrando que só com a vinda de Francisco ao mundo é que ela teve um segundo pretendente::   

Questa, privata del primo marito,
millecent’anni  e più dispetta e scura
fino a costui si stette sanza invito;      (v. 64-66)

Esta, viúva do primeiro marido,/ mais de mil e cem anos desprezada e ignorada/  até ele vir permaneceu sem ser requisitada;

            Dante então acrescenta que para a Pobreza ser amada pelas pessoas não foi suficiente o exemplo histórico do encontro do pescador Amiclate com Júlio César em campanha, “aquele que o mundo todo atemorizou” (colui che a tutto ‘l mondo fé paura- v. 69). Por ser extremante pobre, Amiclate não teve medo dos seus legionários saqueadores (7).  Nem foi suficiente o fato de que a Pobreza subiu à cruz junto com o Cristo desnudo, de tudo despojado, enquanto Maria ficou aos pés desta.

            O exemplo de Francisco foi seguido por outros. O v. 79 faz menção a Bernardo de Quintavalle, um rico comerciante, o primeiro que “se descalçou” (si scalzò prima, /.../- v.80), i.e, o primeiro discípulo a segui-lo, após vender tudo o que tinha e doar o dinheiro para os necessitados. Logo são citados também outros seguidores pioneiros (v.83).  

Depois, Francisco, com a “mulher” e membros da sua “família” (v.86) (os discípulos) --  já cingidos com a humilde corda” (che già legava l’umile capestro- v. 87) (a corda, por ser usada para controlar cavalos e bois, é símbolo de autocontrole e humildade) (8) --, partem para ver o papa Inocêncio III. Não obstante ser filho de um comerciante (e não de um nobre) e sua aparência mendicante “que causava desprezo e admiração” (/.../ per parer dispetto a maraviglia- v.90), Francisco, “como um rei, sua dura regra/ expôs a Inocêncio” (ma regalmente  sua dura intenzione/ ad Innocenzio aperse, /.../- v. 91-92), de quem obtém o “primeiro selo à sua ordem religiosa” (primo sigilo a sua religïone- v.93), vale dizer, obtém aprovação à ordem franciscana.   

Mais tarde (na realidade, 13 anos depois), com o crescimento do “número de pobrezinhos” (gente poverella- v.94), “a santa vontade desse chefe de pastores (la santa voglia d’esto archimandrita- v.99) (Francisco) foi cingida por uma “segunda coroa” (seconda corona- v.97) (um segundo “selo”, ou aprovação). O poeta refere-se aqui à bula do papa Honório III  reconhecendo a ordem (9).  

Giotto-  S. Francisco perante o papa Honório III

Os versos seguintes (v. 100-105) mencionam rapidamente a viagem que Francisco -- com “sede de martírio” (sete del martiro- v.100), para imitar Cristo -- fez ao Egito, juntamente com doze seguidores, acompanhando o exército da Quinta Cruzada, quando ele tentou converter, sem sucesso, um sultão ao cristianismo.  Constatando ser essa gente “muito imatura para a conversão” (e per trovare a conversione acerba/ troppo la gente /.../- v. 103-104), “retornou aos (bons) frutos do campo italiano” (redissi al frutto de l’italica erba- v. 105)  (10).  

Tomás de Aquino conclui sua narrativa sobre a vida de S. Francisco mencionando o terceiro e “último selo” (l’ultimo sigillo- v. 107) que lhe foi conferido, agora não pelo papa mas pelo próprio Cristo.  Refere-se às cinco chagas deste (duas nos pés, duas nas mãos, pela crucificação, e uma ao lado, no tórax, produzida pela lança de um soldado) que Francisco também passaria a apresentar, nos dois últimos anos de sua vida, recebidas no monte Alverne, o “áspero monte entre o Tibre e o Arno” (nel crudo sasso  intra Tevero e Arno- v. 106) (11).

El Greco- S.Francisco recebendo os estigmas 

Antes de morrer, Francisco, “aos seus irmãos” (a’ frati suoi, /.../- v.112) “recomendou a sua dama mais querida” (raccomandò la donna sua più cara- v. 113), i.e. a Pobreza. A “alma luminosa” (l’anima preclara- v.115) dele devia partir do seio desta, enquanto “ao corpo não quis outro ataúde” (e al suo corpo non volle altra barra- v.117) senão o da Pobreza. Segundo o comentarista, os biógrafos de  Francisco contam que ele, ao sentir a aproximação da morte, desejou ser levado à distante igreja de Porziuncola, e que seu corpo fosse deixado lá,  sobre a terra nua, despojado das roupas (12). 
Uma vez concluída seu exposição sobre a vida de S. Francisco, o dominicano Tomás de Aquino passa a falar, a partir do v. 118, sobre o “patriarca” (patriarch- v.121) de sua ordem. Inicia por explorar a imagem metafórica da “barca de Pedro” (la barca di Pietro) (a Igreja), referida nos vv. 119-120, afirmando que S. Domingos, como “o digno colega dele” (S.Francisco) manteve tal barca “no alto mar pelo curso certo” (/.../ in alto mar per dritto segno- v.120). Quem segue o patriarca dos dominicanos enquanto comanda esse barco “sabe que carrega boa mercadoria” (discerner puoi che buone merce carca- v. 123). Mas seu rebanho, com poucas exceções, prefere outro alimento, conforme esta  crítica que Dante faz aos dominicanos de sua época pela boca de Tomás:

Ma ‘l suo pecuglio di nova vivanda
è fatto ghiotto, sì ch’ esser non puote
che per diversi salti non si spanda;

e quanto le sue pecore remote
e vagabunde più da esso vanno,
più tornano a l’ovil di latte vòte.

Ben son di quelle che temono ‘l danno
e stringonsi al pastor; ma son sì poche,
che le cappe fornisce poco panno.      (v. 124-132)

Mas o seu rebanho de outro alimento/ tornou-se tão guloso que não pode/ deixar de vagar por pastagens distantes e estranhas;
e quanto mais suas ovelhas/ se afastam dele, tanto mais/ tornam ao redil vazias de leite.
Há aqueles que temem o dano/ e acercam-se do pastor; mas são tão poucos/ que para encapuzá-los basta pouco pano.

            Note-se a ocorrência de uma nova imagem nessa passagem, pela evocação do hábito dos frades, após o poeta explorar a metáfora do rebanho de ovelhas, associada ao conjunto dos integrantes da ordem de S. Domingos, o qual é identificado com o seu pastor.    
            Por essas observações, Tomás diz que Dante atenderá (quanto à primeira dúvida) seu “desejo de saber“ (la tua voglia- v.136), passando a compreender a afirmação que ele fizera antes relativa à sua própria ordem, sintetizada no v. 96 do canto X, que é transcrito aqui e consiste no último verso deste canto XI: “onde bem se nutre quem não se perde em coisas vãs” (‘U’ ben s’impingua, se non si vaneggia’- v. 139).    

 
NOTAS


(1) MUSA, Mark-- “Dante- The Divine Comedy- Volume 3: Paradise”. Translated with an Introduction, Notes, and Commentary by Mark Musa. Penguin Books, 1986, p. 138.

(2) Id. ib, p. 139.

(3) SAYERS, Dorothy L. and REYNOLDS, Barbara—“Dante: The Divine Comedy 3- Paradise”. Translated by Dorothy L. Sayers and Barbara Reynolds.  Penguin Books, 1971, p.154.

(4) MANDELBAUM, Allen- “The Divine Comedy of Dante Alighieri- Paradiso”. A verse translation by Allen Mandelbaum. Notes by Anthony Oldcorn and Daniel Feldman, with Giuseppe Di Scipio. Bantam Books, 1986- p.350.

(5) Id. ib, p. 350.

(6) HOLLANDER, Robert & Jean- “Dante Alighieri- Paradiso”: a verse translation by Robert & Jean Hollander. Introduction & Notes by Robert Hollander.  Doubleday, 2007, p. 266.

(7) MANDELBAUM, Allen- “The Divine Comedy of Dante Alighieri- Paradiso”, op cit, p.351.

(8) HOLLANDER, Robert & Jean- “Dante Alighieri- Paradiso”, op cit, p. 271.

(9) MANDELBAUM, Allen- “The Divine Comedy of Dante Alighieri- Paradiso”, op cit, p.351.

(10) Id. ib, p. 351-2

(11) Id. ib, p. 352.

(12) Id. ib, p. 352.

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Para ouvir o Canto XI:

https://www.youtube.com/watch?v=HeI7DV73gFM

(acessado em 4.09.20)

 

A
Amos Nattini



 
Fra Angelico- Encontro de S. Francisco com S. Domingos