sexta-feira, 6 de março de 2020

CANTO XXVII



 PARAÍSO


Canto XXVII


  
            O Canto inicia por uma cena de regozijo geral, em que todo o Paraíso canta um hino em louvor “Ao Pai, ao Filho e ao Espírito Santo” (Al Padre, al Figlio, a lo Spirito Santo- v. 1). Dante se inebria com esse “doce canto” (dolce canto- v. 3) e considera o que vê como um “sorriso do universo” (un riso/ de l’universo- v. 4-5). Afirma que então sua “embriaguez” (ebbrezza- v.5) “entrava pelo ouvido e pela vista” (intrava per l’udire e per lo viso- v.6). 


Gustave Doré

            Refere-se, em seguida, às “quatro tochas” (le quattro face- v. 10) acesas que ali estavam, i.e. os lumes de S. Pedro, S. Tiago, S. João e Adão. Aquele que veio primeiro, ou seja, S. Pedro, “começou a brilhar mais intensamente” (incominciò a farsi più vivace- v.12). Dante compara essa mudança à da cor de dois planetas-- como se Júpiter (de brancura prateada) se transformasse em Marte (de ígnea vermelhidão) (1). Acrescenta ainda esta  comparação: os planetas eram como se “fossem pássaros que intercambiassem as plumagens” (fossero augelli e cambiassersi penne- v. 15).

            Esse brilho mais intenso reflete a sua revolta pela situação da Igreja naquela época. Depois da Providência impor silêncio aos “santos coros” (beato coro- v.17), Pedro passa a se manifestar. Inicia dizendo que assim como ele muda de cor, todos ali também vão mudar enquanto ele fala. Critica então violentamente o papa de então (em 1300) nestes termos: “Aquele que usurpa na terra o meu lugar” (Quelli ch’usurpa in terra il luogo mio- v.22) (Bonifácio VIII)

fatt’ha del cimitero mio cloaca
del sangue e de la puzza; ond’l perverso
che cadde di qua sù, là giù si placa   (v. 25-27)

fez de minha tumba uma cloaca/ de sangue e de fedor, onde o perverso (Lúcifer) que caiu daqui lá embaixo se compraz 

            (S. Pedro foi morto e sepultado em Roma, segundo os comentaristas) (2).

            Todo o céu se cobre então da cor (avermelhada) com que o sol “pinta as nuvens na aurora e no ocaso” (nube dipigne da sera e da mane- v.29). Também Beatriz muda de aparência, é comparada à dama honesta que ruboriza, ou “se envergonha, apenas escutando sobre a falha de outra” (/.../ e per l’altrui fallanza,/ pur ascoltando, timida si fane- v. 32-33). Dante associa tal mudança geral de coloração ao eclipse que ocorreu no céu quando Cristo foi crucificado, mencionado no evangelho de S. Mateus (27:45) (3).    

            Os versos seguintes (v.40-66) contêm uma crítica contundente de S. Pedro, o primeiro papa, à Igreja (“a esposa de Cristo”: sposa di Cristo- v. 40) em 1300. Menciona diversos papas que o sucederam (Lino, Cleto, Sixto, Pio, Calixto e Urbano), todos martirizados, como ele próprio. Afirma que eles não verteram seu sangue para a  Igreja  “conquistar ouro/  mas esta vida de deleite”  (per essere ad acquisto d’oro usata;/ ma per acquisto d’esto viver lieto- v. 42-43), a do Paraíso.   

            A divisão entre os fiéis da Igreja por motivo político também é criticada. Com relação aos dois grupos rivais, Guelfos e Gibelinos, o papa de então, Bonifácio VIII, tomava partido, apoiando aqueles e perseguindo estes (4). Por isso, S.Pedro diz que eles -- os papas citados da Igreja primitiva -- não queriam a divisão do “povo cristão” (popol cristiano- v.48). Também não queriam, continua, “que as chaves que me foram confiadas” (/.../ le chiavi che mi fuor concesse- v.49) -- as chaves do reino dos céus a ele conferidas por Cristo, conforme o evangelho de S. Mateus (16:19) (5) – “se tornassem símbolo na bandeira/ que combatesse contra batizados” (divenisser signaculo in vessilo/ che contra battezzati combattesse- v. 50-51), ou cristãos. Os comentaristas referem-se aqui à guerra empreendida por Bonifácio VIII contra a família Colonna, que contestou a legitimidade de sua posse (já no “Inferno” XXVII, v.85-90, Bonifácio -- esse “príncipe dos modernos fariseus” (Lo principe d’i novi Farisei)-- é criticado por considerar inimigos cristãos e não judeus ou muçulmanos). (6)   

            S.Pedro diz que se envergonha e se revolta contra o uso de sua “imagem nos sinetes/ de privilégios vendidos e falsos” (/.../ figura di sigillo/ a privilegi venduti e mendaci- v. 52-53).  E continua em sua crítica à Igreja, pedindo a intervenção divina:

In vesta di pastor lupi rapaci
si veggion di qua sù per tutti i paschi:
o difesa di Dio, perché pur giaci?    (v. 55-57)

Em vestes de pastor lobos vorazes/ se veem daqui de cima por todos os pastos:/ ó socorro divino, por que não ages?

L. Veneziano-  Martírio de S.Pedro
            S. Pedro, falando ainda em nome dos martirizados papas da Igreja primitiva (do “bom começo” da Igreja (buon principio- v.59), que decaiu a um “fim ignóbil” (vil fine- v.60), afirma que “Do nosso sangue Caorsinos e Gascões/ se preparam para beber” (Del sangue nostro Caorsini e Guaschi/ s’apparecchian di bere /.../- v.58-59), uma alusão aos papas futuros (com relação a 1300, mas já conhecidos por Dante na época da elaboração do “Paraíso”). Esses sucessores de Bonifácio VIII estavam sediados em Avignon, na França, um era natural da Gasconha (Clemente V)  e outro, de Cahors (João XXII).  S.Pedro confia na iminente intervenção da Providência, “que com Cipião/ assegurou a Roma a glória do mundo” (che con Scipio/ difese a Roma la gloria del mondo- v. 61-62). Essa menção a Cipião Africano, vencedor de Aníbal, o cartaginês, na II Guerra Púnica (7), tem por objetivo naturalmente lembrar a importância histórica de Roma, enaltecendo-a como sede do Império e principalmente do papado, em detrimento de Avignon. Por fim, S.Pedro conclui sua fala recomendando a Dante, que “ainda retornarás lá para baixo” (ancor giù tornerai /…/- v.65), dizer tudo o que lhe declarou.   
            Na sequência, Dante informa que as almas que ali estavam, no 8º céu, retornam para o Empíreo, passando pelo Primum Mobile (8). Isso ele diz utilizando esta comparação (em que a sonoridade dos versos originais se apoia na repetição de certos fonemas): como caem os flocos de neve “quando o corno/ da Cabra toca o Sol” (/.../ quando ‘l corno/ de la capra del ciel col sol si tocca-  v. 68-69), i.e, quando o Sol está na casa de Capricórnio entre 21 de dezembro e  21 de janeiro (inverno, no hemisfério Norte) (9), assim ele vê flocos que subiam,  em vez de descerem, “depois de estarem aqui conosco” (che fatto avien con noi quivi soggiorno- v.72). 
           
            Dante segue a ascensão de tais almas do 8º céu enquanto pode, após o que Beatriz lhe pede para baixar os olhos e ver quantos céus  ele já percorreu. Desde quando olhara para baixo a primeira vez (cf. Canto XXII), Dante vê “que atravessara todo o arco/ que faz do meio ao fim o primeiro clima” ( i’ vidi mosso me per tutto l’arco/ che fa dal mezzo al fine il primo clima- v. 80-81). “Clima” corresponde a um setor da  superfície do hemisfério Norte, a Terra então habitável, dividida pelos antigos geógrafos em sete setores horizontais, a partir do equador. O “arco” referido corresponde a 90º, um quarto da circunferência terrestre, metade da extensão de um clima. O primeiro clima, o mais próximo do equador, começava no meridiano do Ganges, tinha seu centro em Jerusalém e terminava no meridiano de Cádiz. Dante percebe que foi  transportado do meridiano de Jerusalém ao de Cádiz (10). Ele diz:

/.../ io vedea di là da Gade il varco
folle d’Ulisse, e di qua presso il lito
nel qual si fece Europa dolce carco  (v. 82-84)

/.../ eu via, além de Cádiz, a rota/ insensata de Ulisses, e de outro lado, quase via a praia/ na qual Europa tornou-se doce carga

ou seja, ele via, de um lado, o extremo-oeste do mundo então conhecido, onde Ulisses naufragou (conforme o episódio relatado no canto XXVI do “Inferno”), e de outro, quase podia ver o litoral da Fenícia, no extremo-leste do mar Mediterrâneo, onde Júpiter, de acordo com a mitologia clássica, transformou-se  em touro e carregou para Creta a ninfa Europa, por quem se apaixonara (11).  Mais dessa faixa de terra Dante teria visto, diz ele, “se o Sol não avançasse/ sob meus pés mais de um signo zodiacal” ( /.../ ma ‘l sol procedea/ sotto i mie’ piedi un segno e più partito- v. 86-87). Ou seja, o Sol está adiante de Dante, em Áries. O poeta está em Gêmeos. Entre os dois signos, situa-se Touro (12). 

            Dante retorna os olhos para Beatriz, para a sua “beleza divina que refulgiu/ quando me voltei para o rosto sorridente dela” ( ver’ lo piacer divin che mi refulse,/ quando mi volsi al suo viso ridente-  v. 95-96). Perto dessa beleza, diz o poeta, não é nada a da natureza (corpo humano) e da arte (pintura). 

E la virtù che lo sguardo m’indulse,
del bel nido di Leda mi divelse
e nel ciel velocissimo m’impulse.   (v. 97-99)

E o poder que seu olhar me concedeu/ me afastou do belo ninho de Leda/ e me lançou no céu mais veloz.

            Assim, pela força do olhar de Beatriz, Dante é elevado do 8º céu, o das Estrelas Fixas -- ou da constelação de Gêmeos -- para o “céu mais veloz”, o Primum Mobile, que impulsiona todos os outros. Dante chama a constelação de Gêmeos de “o belo ninho de Leda” porque, conforme a mitologia, Leda é mãe dos gêmeos Castor e Pólux, nascidos de um ovo, pois ela foi fecundada por Júpiter, transformado em cisne (13). 

            Dante não sabe dizer por onde entrou nesse 9º céu, pois suas partes, “vivíssimas e altíssimas” (vivissime ed eccelse- v. 100), são todas uniformes. Beatriz, percebendo o “desejo” (disire- v. 103) dele de saber mais sobre o lugar onde está, começa sua fala, que se estende do v. 106 até o 148, o último do Canto.

            Beatriz inicia referindo-se à “natureza do universo” (La natura del mondo, /.../- v. 106), “que mantém/ o centro parado e move todo o restante em torno”  (/.../ che quïeta/ il mezzo e tutto l’altro intorno move- v. 106-107). Tal movimento principia aqui, neste novo céu. Sua concepção assim é a ptolomaica, da ciência da época, em que a Terra ocupava o centro do universo e os astros giravam em torno dela.

            O Primum Mobile deriva da “mente divina na qual se acende/ tanto o amor que o faz girar quanto a força que ele chove” (/.../ la mente divina, in che s’accende/ l’amor che ‘l volge e la virtù ch’ei piove- v.110-111). Está contido no Empíreo, a residência de Deus: “Luz e amor o contêm/ assim como ele contém os outros céus” (Luce e amor d’un cerchio  lui compreende,/ sì come questo li altri; /.../- v.112-113).

            O poeta, curiosamente, ilustra essa determinação com a de uma operação matemática (5 x 2 = 10), como se vê na comparação abaixo:

Non è suo moto per altro distinto,
ma li altri son mensurati da questo,
sì come diece da mezzo e da quinto;  (v. 115-117)

Seu movimento não é determinado por outro céu,/ mas os outros o são por este,/ assim como a metade e o quinto determinam dez.

            Beatriz afirma ainda que “o tempo tem neste vaso/ suas raízes e nos outros, as folhas” (e come il tempo tegna  in cotal testo/ le sue radici e ne li altri le fronde- v. 118-119). Ou seja, o tempo, como a raiz de uma árvore, tem sua origem oculta neste céu (no Primum Mobile), enquanto os outros céus carregam suas “folhas”, i.e. os planetas e estrelas, observados por nós (14). Como sabemos, o tempo é função do movimento dos astros (15).

      Prosseguindo, Beatriz faz uma crítica violenta à cobiça dos seres humanos. Inicia identificando-a com o mar, nesta metáfora: 

Oh cupidigia, che i mortali affonde
sì sotto te, che nessuno ha podere
di trarre li occhi fuor de le tue onde!   (v. 121-123)

Ó cupidez, que os mortais tanto afundas/ em suas águas profundas de modo que nenhum tem o poder/ de erguer os olhos para fora das tuas ondas! 

            No início da vida, a vontade humana “bem floresce” (Ben fiorisce /.../- v. 124). “Mas a chuva constante (i.e. a influência perniciosa do meio) transforma/ em frutas estragadas as ameixas boas” (ma la pioggia continüa converte/ in bozzacchioni le sosine vere- v.125-126). Ocorre aqui, como se vê, uma nova incidência de imagens inspiradas pela flora. Em seguida, ela afirma: enquanto são meninos, possuem ”fidelidade e inocência” (Fede e innocenza -v. 127), mas depois, quando suas faces se cobrem de barba, essas características fogem deles. Cita ainda estes exemplos: no início, jejuam, depois devoram “qualquer alimento em qualquer lua” (poi divora /.../ qualunque  cibo per qualunque luna- v. 132-133), i.e. em qualquer época do ano, inclusive na Quaresma e outros dias de jejum (16).  No início, amam e escutam sua mãe, depois querem vê-la morta.
            Beatriz pede para Dante considerar “que na terra falta quem governe/ pelo que a família humana se extravia” (pensa che ’n terra non è chi governi;/ onde si svïa l’umana famiglia- v.140-141). O poeta reafirma aqui, pela voz de Beatriz, sua convicção de que esse mal decorre da vacância do papado, aos olhos de Cristo, e da falta de um imperador, quanto aos assuntos temporais (17).
            Beatriz conclui sua fala (e o Canto) utilizando um recurso de retórica. Ela expressa a esperança na intervenção divina “antes que janeiro desinverne” (Ma prima che gennaio tutto si sverni- v. 142), i.e. antes que janeiro (no hemisfério Norte) deixe a estação do inverno e passe para a primavera, a persistir o erro do calendário juliano então em vigor, estimado na centésima parte de um dia (“pela centésima parte do dia negligenciada lá embaixo”: per la centesma ch’ è là giù negletta- v. 143) (esse erro seria corrigido mais tarde, em 1582, pelo calendário gregoriano) (18).
            Assim, “antes que janeiro desinverne”, diz ela, virá uma “tempestade” (fortuna- v. 145; essa tradução, segundo Hollander, está de acordo com o   sentido medieval da palavra) (19) “que voltará as popas para onde estão as proas/ de modo que a frota correrá na direção correta;/ e o bom fruto virá depois da flor” (le poppe volgerà u’ son le prore,/ sì che la classe correrà diretta;/ e vero frutto verrà dopo ‘l fiore- v. 146-148).  Desse modo, com a intervenção divina suprindo aquela necessidade de um bom governo, a “frota” (classe- v.147) -- metáfora da humanidade ou da “família humana” mencionada no v. 141 -- avançará na boa direção.  


NOTAS


(1) MANDELBAUM, Allen- “The Divine Comedy of Dante Alighieri- Paradiso”. A verse translation by Allen Mandelbaum. Notes by Anthony Oldcorn and Daniel Feldman, with Giuseppe Di Scipio. Bantam Books, 1986- p.408. 

(2) Id. ib, p. 408. 

(3) MUSA, Mark-- “Dante- The Divine Comedy- Volume 3: Paradise”. Translated with an Introduction, Notes, and Commentary by Mark Musa. Penguin Books, 1986, p.324.

(4) LONGNON, Henri- “La Divine Comédie”. Traduction, préface, notes et commentaires par Henri Longnon. Paris: Garnier, 1951, p. 684.

(5) MANDELBAUM, Allen- “The Divine Comedy of Dante Alighieri- Paradiso”, op cit, p. 409.   

(6) MANDELBAUM, Allen- “The Divine Comedy of Dante Alighieri- Inferno”. A verse translation by Allen Mandelbaum. Notes by Allen Mandelbaum, Gabriel Marruzzo with Laury Magnus. Bantam Books, 1982- p. 383; SAYERS, Dorothy L. and REYNOLDS, Barbara—“Dante: The Divine Comedy 3- Paradise”. Translated by Dorothy L. Sayers and Barbara Reynolds.  Penguin Books, 1971, p.298.   

(7) MUSA, Mark-- “Dante- The Divine Comedy- Volume 3: Paradise”, op cit, p 325.

(8) SAYERS, Dorothy L. and REYNOLDS, Barbara—“Dante: The Divine Comedy 3- Paradise”, op cit, p. 298. .

(9) MANDELBAUM, Allen- “The Divine Comedy of Dante Alighieri- Paradiso”, op cit, p. 409.

(10) LONGNON, Henri- “La Divine Comédie”. Traduction, préface, notes et commentaires par Henri Longnon. Paris: Garnier, 1951, p. 685.

(11) MUSA, Mark-- “Dante- The Divine Comedy- Volume 3: Paradise”, op cit, p 326.

(12) CIARDI, John- “The Divine Comedy”: The Inferno. The Purgatorio. The Paradiso”. Translated by John Ciardi.  New American Library, 2003, p. 629.  Para a identificação de Beatriz com a Verdade Revelada, p. 840.

(13) MANDELBAUM, Allen- “The Divine Comedy of Dante Alighieri- Paradiso”, op cit, p. 410.   

(14) CIARDI, John- “The Divine Comedy”: The Inferno. The Purgatorio. The Paradiso”, op cit, p. 840-841.

(15) MANDELBAUM, Allen- “The Divine Comedy of Dante Alighieri- Paradiso”, op cit, p. 410.   

(16) CIARDI, John- “The Divine Comedy”: The Inferno. The Purgatorio. The Paradiso”, op cit, p. 841.

(17) LONGNON, Henri- “La Divine Comédie”. Traduction, préface, notes et commentaires par Henri Longnon. Paris: Garnier, 1951, p. 686.

(18) MANDELBAUM, Allen- “The Divine Comedy of Dante Alighieri- Paradiso”, op cit, p. 410.  

(19) HOLLANDER, Robert & Jean- “Dante Alighieri- Paradiso”: a verse translation by Robert & Jean Hollander. Introduction & Notes by Robert Hollander.  Doubleday, 2007, p. 678. MANDELBAUM, op cit, p. 249, traduz “fortuna” por “Providência”.
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-Para ouvir o Canto XXVII:

https://www.youtube.com/watch?v=FMqSjGkUSjY

(acessado em 13.10.20)


sexta-feira, 31 de janeiro de 2020

CANTO XXVI


PARAÍSO


Canto XXVI


            Dante não está podendo enxergar por ter olhado fixamente para a chama em que se apresenta S. João Evangelista. Dessa chama sai uma voz que o tranquiliza um pouco ao afirmar que enquanto não recupera a visão, ele deve dizer —“para onde tende/ a alma tua” ( /.../ e dì ove s’appunta/ l’anima tua /.../- v. 7-8). S. João começa agora a examiná-lo quanto à caridade (ou amor) assim como S.Pedro o examinara quanto à fé e S.Tiago, sobre a esperança.


Amos Nattini



             A voz afirma que “tua vista está confusa mas não morta” (la vista in te smarrita e non defunta- v. 9), pois a dama que o conduz (Beatriz) naquela região “tem no olhar/ a virtude que teve a mão de Ananias” ( /.../ ha ne lo sguardo/ la virtù ch’ebbe la man d’Anania”- v. 11-12), o personagem bíblico que curou a cegueira de S. Paulo após o episódio extraordinário ocorrido em seu caminho para Damasco, conforme  Atos dos Apóstolos IX, 17  (1)

            Dante quer que tal remédio a seus olhos venha quando aprouver a ela, Beatriz. Os olhos dele são comparados a “portas” (porte- v. 14) de seu coração, “quando ela entrou com o fogo em que eu sempre ardo” (quand’ ella entrò col foco ond’ io sempr’ ardo- v.15), vale dizer, o fogo do amor (2). Afirma que o bem  (v. 16), ou seja Deus, é o alfa e ômega de tudo o que o amor, nas escrituras, lhe ensina. É o destino de todo o seu amor.

S.João Evangelista

        Aquela mesma voz volta a se manifestar. Dante deve tornar mais claro seu pensamento, torná-lo mais preciso. Em seguida, pergunta “o que levou teu arco a mirar tal alvo” (chi drizzò l’ arco tuo a tal berzaglio-  v. 24), i.e. o que fez com que seu amor se dirigisse para Deus. Dante lhe responde:

/.../ Per filosofici argomenti
e per autorità che quinci scende
cotale amor convien che in me si’ mprenti  (v.25-27)

/.../ Por argumentos filosóficos/ e pela autoridade que desce daqui/ tal amor imprimiu-se em mim”.  

            Assim, sua convicção baseia-se tanto na razão quanto na revelação, expressa nas Escrituras Sagradas (3).

            Como acentua um comentarista (4), os próximos tercetos contêm um caráter silogístico. O bem “acende amor” (accende amore- v.29), tanto maior este quanto maior é aquele. Deus é a “Essência” (l’essenza- v.31) da bondade, superior a qualquer bem que se encontra fora dela (que “não é mais do que um brilho de seus raios”: altro non è ch’ un lume di suo raggio- v. 33). Logo, a mente, amando, deve mover-se para Deus. À Essência “/.../ convém que se mova/ a mente, amando, de cada um que divise/ a verdade /.../” (/.../ convien che si mova/ la mente, amando, di ciascun che cerne/ il vero /.../- v. 34-36).

            Tal verdade, diz o poeta, lhe foi evidenciada por “aquele que me demonstrou o primeiro amor/ de todas as substâncias eternas” (colui che mi dimostra il primo amore/ di tutte le sustanze sempiterne- v.38-39), uma referência provável a Aristóteles e à sua concepção do “primeiro motor” (Deus) que move todas as coisas. Assim, é por amor a Ele que as esferas celestes giram (5).

            Também lhe foi apontada pela voz de Deus (o “Autor veraz”: verace autore- v. 40) quando disse a Moisés –“Eu te mostrarei todo o bem(“Io te farò vedere ogne valore”- v.42) (Êxodus, 33-18:23), e por ele mesmo, S. João, quando trata de Deus em seu Evangelho, ao iniciar “o alto anúncio que apregoa  o arcano” (l’alto preconio che grida l’ arcano- v. 44).  

            Em seguida, o Santo reconhece que o amor soberano de Dante -- baseado na razão e na revelação, ou, como diz, no “intelecto humano (intelletto umano-v.46) e na “autoridade com ele concorde” (autoritadi a lui concorde- v. 47) (as Escrituras) -- volta-se para Deus.  Depois, formula a Dante outra questão:

Ma dì ancor se tu senti altre corde
tirarti verso lui, sì che tu suone
com quanti denti questo amor ti morde.    (v.49-51)

Mas diz-me ainda se sentes outras cordas/ puxarem-te para Ele, de modo que tu exprimas/ com quantos dentes este amor te morde. 

            Dante diz que entende a intenção da “águia de Cristo” (l’aguglia di Cristo- v.53), que seria explicitar mais o papel do amor em conduzi-lo à compreensão do que importa (6). A propósito dessa expressão, os comentaristas assinalam que em Apocalipse, 4:6-7 quatro animais são mencionados como símbolos dos evangelistas: o leão (S. Marcos), o touro (S. Lucas), um animal com rosto humano (S. Mateus) e a águia (S. João). A imagem quanto a este último santo se justifica porque demonstrou ter “uma visão aguçada do mistério celeste” (7).

            Dante então enumera os fatores (as “mordidas”: Tutti quei morsi - v. 55) que o fizeram voltar-se para Deus, ou seja, que “me tiraram do mar do amor distorcido/ e me puseram na praia do amor certo” (tratto m’hanno del mar de l’amor torto,/ e del diritto m’han posto a la riva- v.62-3): a existência do mundo e dele próprio (a criação), o sacrifício de Cristo “para que eu viva” (/.../ perch’io viva- v. 59) (a redenção da humanidade), a esperança dada aos “que têm fé como eu” ( /.../ ogne fedel com’io- v.60) (a salvação prometida), além do “conhecimento vivo” ( /.../ conoscenza viva- v. 61) já mencionado (o de que Deus é o supremo bem e deve ser amado sobre todas as coisas) (8).

            Após Dante concluir sua fala, o céu mostra sua aprovação e júbilo ao que disse, pois ressoou ali “um dulcíssimo canto” (v.67)  ( /.../ un  dolcissimo canto-  v.67), iniciado por “Santo, santo, santo” (v.69),  do qual participaram Beatriz e todos os bem-aventurados.  
           
            Em seguida, Dante afirma que recuperou sua visão, passando a ver “melhor do que antes” (onde mei che dinanzi vidi poi- v. 78), pois “dos olhos meus toda impureza/ tirou Beatriz com os raios dos seus” ( /.../ de li occhi miei ogne quisquilia/ fugò Beatrice col raggio d’i suoi- v. 76-7). O poeta se compara aqui a alguém que é despertado por uma luz intensa, e de início nada distingue, “até que a reflexão o ajude” (fin che la stimativa non socorre- v.75).

            Percebe então um “quarto lume” (v.81) entre eles. Ao ser indagada sobre esse fato, Beatriz lhe responde tratar-se da “primeira alma/ que o Primeiro Poder havia criado” (/.../ l’anima prima/ che la prima virtù creasse mai- v. 83-4), ou seja, a alma de Adão.  Os outros três lumes correspondem naturalmente aos três apóstolos, que representam as três virtudes teologais—fé, esperança e caridade (amor), graças concedidas à humanidade por Deus, através de Cristo.  Esse é o caminho para a salvação, fechado para os homens após a expulsão de Adão do Paraíso (9).  
             
            Novamente, segue-se uma comparação. “Como a árvore que inclina sua copa/ à passagem do vento, e depois a ergue” (Come la fronda che flette la cima/ nel transito del vento, /.../- v. 85-86), assim é ele, retraído quando Beatriz fala, recobrando depois “a confiança/ por um ardente desejo de falar” (/.../ e poi mi rifece sicuro/ um disio di parlare ond’ ïo ardeva- v. 90-1).



Peter Paul Rubens- Paraíso Terrestre com a Queda de Adão e Eva, 1615

            E Dante fala. Pede que Adão -- chamado de “pai antigo” (padre antico- v.92) e “único fruto a surgir já maduro” ( /.../ pomo che maturo/solo prodotto fosti /.../- v. 91-2), “de quem qualquer esposa é filha e nora” (a cui ciascuna sposa è figlia e nuro- v. 93) -- sacie sua curiosidade. E para que não demore, não vai nem formular as suas perguntas, pois ele já sabe a que se referem (pois os bem-aventurados podem ler o pensamento de Dante refletido na mente de Deus, o “Veraz Espelho” mencionado abaixo). 

            Antes de falar, a “alma primeira/ revelava pela tremulação de seu manto luminoso/ quanto vinha alegre a comprazer-me” (/.../ l’anima primaia/ mi facea trasparer per la coverta/ quant’ella a compiacermi venìa gaia- v. 100-102). O poeta compara essa tremulação ao de um pano, que também revela os sentimentos do animal quando este se agita debaixo dele.

            Adão então diz que sabe o que ele quer, pois vê o seu desejo no “Veraz Espelho” (verace speglio- v. 106), Deus, “que reflete tudo o mais/ enquanto nenhum pode refleti-lo” (che fa di sé pareglio a l’altre cose,/ e nulla face lui di sé pareglio-  v.107-108).   

            Dirigindo-se a si mesmo, Adão formula as perguntas que Dante lhe faria: 1) “quanto tempo faz que Deus me pôs/ no excelso jardim” ( /.../ quant’ è che Dio mi puose/ ne l’eccelso giardino- v. 109-110), i.e, quando ele foi criado e posto no jardim do Éden;  2) “quanto tempo deleitaram-se os meus olhos” ( e quanto fu diletto a li occhi miei- v. 112), ou quanto tempo ele permaneceu lá;   3) “qual foi a verdadeira causa da grande ira” (e la propria cagion del gran disdegno- v. 113), ou da ira divina, que motivou sua expulsão do Paraíso  Terrestre e 4) “qual o idioma que usei e criei”, ou seja, com que linguagem se comunicou inicialmente. 



Masaccio- Expulsão de Adão e Eva

            Nosso “pai antigo” começa a  responder  pela  terceira   questão. Afirma que a causa não foi provar o fruto da árvore “mas somente a transgressão de um limite” (ma solamente il trapassar del segno- v.117), i.e, o pecado da desobediência e também do orgulho, pois ele quis ser semelhante a Deus, conhecendo o bem e o mal (10). Responde em seguida à primeira questão: permaneceu no Limbo (“De onde tua dama fez sair Virgílio”: Quindi onde mosse tua donna Virgilio- v.118) 4.302 anos (4.302 “retornos do sol”: volumi/ di sol- v.119-120). Antes disso, viveu na terra 930 anos, pois viu “o sol voltar a todos os lumes/ de sua estrada /.../” ( e vidi lui tornare a tutt’ i lumi/ de la sua strada /.../- v.121-122) (o Zodíaco) tal número de vezes. Assim, considerando-se que a ação do poema transcorre em 1.300 d.C., e que Cristo após sua morte desceu aos Infernos em 34 d.C. e retirou do Limbo, dentre outros, Adão, este foi criado há 6.498 anos em relação ao ano em que se passa o poema, ou em 5.198 a. C. Relativamente à segunda questão, foi dito que Adão viveu 930 anos (cf. a Bíblia, Gen. V,5), mas não se menciona aqui o tempo que passou no jardim do Éden, de onde foi expulso (isso será respondido apenas nos últimos versos deste Canto).  A última questão trata da língua que Adão então falou. Ele diz que ela já era morta antes que “a gente de Nemrod” (la gente di Nembròt- v.126), rei dos babilônios, se dedicasse “à obra inacabável” (a l’ovra inconsummabile-  v. 125), vale dizer, à Torre de Babel. Ele acha natural que se altere o modo de falar ao longo do tempo, “pois nenhum produto da razão” ( ché nullo effetto mai razïonabile- v. 127) “/.../ dura para sempre” (/.../ sempre fu durabile- v. 129). Dá como exemplo a alteração do nome do “Sumo Bem” (sommo bene- v. 134) (Deus), que se chamava “I” quando ele vivia na terra e depois passou a se chamar “El” (o “I” é a letra romana que designa a unidade; o “El” é um dos nomes de Deus em hebraico) (11). Essas alterações da linguagem, ou “os usos dos mortais são como folhas/ no ramo, uma vai e outra vem” (ché l’uso d’i mortali è come fronda/ in ramo che sem va e altra vene-  v. 137-8). Essa é a última comparação feita no Canto, que termina com Adão completando sua resposta à segunda questão. Ele afirma que “No monte que mais se ergue do mar” (Nel monte che si leva più da l’onda- v.139), no monte do Purgatório, esteve no Paraíso Terrestre (situado em seu topo) “da primeira hora até aquela que segue/ a sexta, quando o sol muda de quadrante” (de la prim’ ora a quella che seconda,/ come ‘l sol muta quadra, l’ ora sesta- v.141-142), ou seja, permaneceu no Jardim do Éden desde as 6h até 1h da tarde, após o Sol já ter passado do primeiro quadrante, concluído ao meio-dia, correspondente a um quarto da sua jornada diária.     


NOTAS


(1) SAYERS, Dorothy L. and REYNOLDS, Barbara—“Dante: The Divine Comedy 3- Paradise”. Translated by Dorothy L. Sayers and Barbara Reynolds.  Penguin Books, 1971, p. 287. 

(2) Id. ib, p. 403. 

(3) MUSA, Mark-- “Dante- The Divine Comedy- Volume 3: Paradise”. Translated with an Introduction, Notes, and Commentary by Mark Musa. Penguin Books, 1986, p.312.

(4) MERLO, Luis Martínez de— “Dante Aligghieri- Divina comedia”. Traducción y notas de Luis Martínez de Merlo. 14a. ed. Madrid: Ediciones Cátedra, 2012, p. 690.   

(5) Id. ib, p. 691. Cf também HOLLANDER, Robert & Jean- “Dante Alighieri- Paradiso”: a verse translation by Robert & Jean Hollander. Introduction & Notes by Robert Hollander.  Doubleday, 2007, p. 640-1.

(6) HOLLANDER, Robert & Jean- “Dante Alighieri- Paradiso”, op cit, p.626. 

(7) MANDELBAUM, Allen- “The Divine Comedy of Dante Alighieri- Paradiso”. A verse translation by Allen Mandelbaum. Notes by Anthony Oldcorn and Daniel Feldman, with Giuseppe Di Scipio. Bantam Books, 1986- p.404.  

(8) Id. ib, p. 405.

(9) Id. ib, p. 406. 

(10) MUSA, Mark-- “Dante- The Divine Comedy- Volume 3: Paradise”, op cit, p 316. Cf  também
SAYERS, Dorothy L. and REYNOLDS, Barbara—“Dante: The Divine Comedy 3- Paradise”, op cit, p. 289.   
 
 (11) MOURA, Vasco Graça—“Dante Alighieri- A Divina Comédia”- Introdução, tradução e notas de Vasco Graça Moura. S.Paulo: Landmark, 2005- p. 827. Cf também MERLO, Luis Martínez de— “Dante Aligghieri- Divina comedia”, op cit, p 695.
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-Para ouvir o Canto XXVI:

https://www.youtube.com/watch?v=R7FrXJCxWd8&t=23s

(acessado em 9.10.20)





sexta-feira, 13 de dezembro de 2019

CANTO XXV



PARAÍSO


Canto XXV


            O Canto XXV começa com uma referência ao próprio poema que Dante está compondo. Ele espera que tal “poema sacro” (poema sacro- v. 1) vença a crueldade dos florentinos que o desterraram. Seus inimigos são comparados a “lobos” (lupi- v.6) enquanto ele é um “cordeiro” (agnello- v. 5) e Florença é um “belo aprisco” (bello ovile- v. 5).  Ele tem esperança assim de um dia voltar para  sua cidade natal e ser festejado por ela na igreja onde foi batizado (/.../ e na fonte/ do meu batismo receberei a coroa de louros” (/.../ e in sul fonte/ del mio battesmo prenderò ‘l cappello- v. 8-9). Essa foi, pelo batismo, a sua entrada na fé católica. E S. Pedro, reconhecendo que ele a tem, o homenageia, girando sua luz, à guisa de coroa, em torno de sua fronte (v.12).


Amos Nattini
             Então, uma outra luz se aproxima de Dante e Beatriz. Trata-se do apóstolo, S.Tiago, que sai da mesma esfera de onde saíra “o primeiro/ dos vigários que Cristo tinha deixado na terra” (/.../ la primizia/ che lasciò Cristo d’i vicari suoi- v. 14-15), i.e., S.Pedro.  Essa esfera de luz não é o Céu das Estrelas Fixas, o oitavo céu, onde o poeta e sua dama estão (1). S. Tiago é identificado pelas palavras de Beatriz, quando afirma que ele é o “barão” (barone – v. 17, termo aqui usado como sinônimo de senhor feudal, já empregado no Canto XXIV em relação a S.Pedro) “por quem, lá embaixo, se visita a Galícia” (per cui là giù si vicita Galizia- v. 18). Esta é uma região da Espanha onde está situado o santuário de Santiago de Compostela e onde, acreditava-se,  fora sepultado o santo. Era o segundo local de peregrinação mais importante (depois de Roma) na Idade Média (2).

S.Tiago por Peter Paul Rubens
             O poeta, na sequência, compara o encontro entre Pedro e Tiago ao de pombos. Enquanto um destes pousa perto do outro, demonstrando afeição, também aqueles santos se acolhem assim, reciprocamente, “louvando o alimento que lá em cima os nutre” (laudando il cibo che là sù li prande- v. 24), ou seja, a alegria da contemplação de Deus (3).  Depois, eles param diante de Dante (“coram me” = diante de mim- v. 26) (4), “tão fulgurantes” (ignito sì- v. 27) que o ofuscam. Então, Beatriz pede a Tiago fazer “ressoar a esperança nestas alturas/ tu que tantas vezes a figuras / quantas Jesus aos três (apóstolos) mostrou mais benevolência” (fa rissonar la spene in questa altezza:/ tu sai, che tante fiate la figuri,/ quante Iesù ai tre fé più carezza-  v.31-33). S. Tiago está associado à esperança, enquanto S. Pedro, como se viu, à . Mais adiante, os versos indicarão que a caridade (ou o amor) vincula-se a S.João. Os três apóstolos assim representam as três virtudes teologais. A maior benevolência de Cristo por eles se revela no fato de que foram os únicos discípulos que testemunharam certos eventos importantes como a ressureição da filha de Jairo (Luc. 8: 40-56), a transfiguração (Mat.17:1-8) e a oração no horto de Getsêmani, ou das Oliveiras (Mat. 26: 36-46) (5). Quanto ao ofuscamento, Tiago tranquiliza Dante, dizendo que quem vem do “mortal mundo” (mortal mondo- v. 35) “deve em nossos raios amadurecer (sua vista)” (convien che’ai nostri raggi si maturi- v. 36), ou seja, se familiarizar com os raios de luz emanados pelos bem-aventurados. E isso de fato ocorre.

            Uma vez que a Dante, diz S.Tiago, foi concedida, pelo “nosso Imperador” (lo nostro Imperadore- v. 41) (cf a terminologia feudal, também na sequência), a graça dele “antes da morte” (anzi la morte- v.41) se encontrar “com seus condes na sala mais reservada” (ne l’aula più secreta co’ suoi conti- v. 42) – ou seja, encontrar-se com os santos no Empíreo (6) – a fim de que sua esperança, e a de outros (os que ouvirão/ lerão seu poema), seja reforçada, ele deve agora responder às três questões seguintes sobre a esperança que S. Tiago lhe formula: “diz o que ela é, como floresce/ na mente tua, e de onde ela vem para ti” (dì quel ch’ell’ è, dì come se n’nfiora/ la mente tua, e dì onde a te venne - v. 46-47).  

            É Beatriz então, em vez de Dante, quem fala. Ela se antecipa a ele, respondendo à segunda questão. Diz que está escrito no Sol (ou seja, na mente de Deus) que “Nenhum filho da Igreja Militante/ tem mais esperança /.../” (La Chiesa militante alcun figliuolo/ non há con più speranza / ../.- v. 52-53) do que Dante, e que por isso lhe foi concedido “vir do Egito/ a Jerusalém (/.../ che d’Egitto/ vegna in Ierusalemme- v.55-56), “antes que termine seu período de militância” (anzi che ‘l militar li sia prescritto- v. 57), i.e. enquanto está vivo ainda.  Egito -- que é a terra do exílio e cativeiro dos hebreus, conforme a Bíblia --simboliza a vida terrena enquanto Jerusalém, a vida no Céu (7).        

            As outras duas questões Beatriz deixa para Dante responder. A segunda ela respondeu para que ele não elogie a si mesmo, não seja causa de “jactância” (iattanza- v. 62).

            Como discípulo ansioso para mostrar seu conhecimento ao mestre, Dante responde a primeira questão. Ele diz que a esperança “é a expectativa certa/ da glória futura” (è uno attender certo/ de la gloria futura /.../- v. 67-68), ou da “futura beatitude” (8), que resulta da “graça divina e do mérito adquirido” (grazia divina e precedente merto- v. 69).

            Quanto à terceira questão, de onde veio a esperança de Dante, ele afirma:  

Da molte stelle mi vien questa luce;
ma quei la distillò nel mio cor pria
che fu sommo cantor del sommo duce.   (v. 70-72)

Essa luz veio a mim de muitas estrelas;/ mas quem primeiro a instilou em meu coração/ foi o supremo cantor do Supremo Senhor.

            Assim, a esperança lhe veio de “muitas estrelas” (os autores de textos sacros), mas o primeiro a influenciá-lo foi o cantor dos Salmos, o rei Davi (9).  Os versos 73-74 transcrevem inclusive uma passagem deles relativa à esperança (10). Dante diz que está pleno de esperança (que ele replica em outras almas), instilada pela sua “epístola” (pistola- v. 77), a qual, por sua vez, é instilada pelo canto do salmista. Conforme os comentaristas, Dante não distingue S.Tiago Maior (o apóstolo venerado em Santiago de Compostela, irmão de S. João Evangelista) de S.Tiago Menor (irmão de Jesus), que se acredita ser o autor da Epístola bíblica (11).  

            A satisfação de S.Tiago, decorrente da resposta dada por Dante, é revelada, nos vv. 80-82, pelos clarões repentinos, como de relâmpago, no seio daquele "incêndio" (12).
 
          O Santo afirma depois que tal virtude (a esperança) o acompanhou  até a morte (ele foi decapitado no ano 44 d.C.) ou em suas palavras “até a palma (símbolo do martírio) e minha partida do campo de batalha” (infin la palma e a l’uscir del campo- v. 84), vale dizer, quando ele passou da Igreja Militante para a Igreja Triunfante (13). S.Tiago gostaria que Dante lhe dissesse agora “aquilo que a esperança te promete” (quello che la speranza ti ‘mpromette- v. 87).

            O poeta lhe responde que isso está contido nas “novas e antigas escrituras” (/.../ Le nove e le scritture antiche- v.88). E cita o profeta Isaías (LXI, 7), que menciona a “dupla veste” (doppia vesta- v.92) que cada alma usará na “doce vida” (dolce vita- v. 93), o Paraíso. Essa vestimenta dupla se refere às luzes da alma e do corpo dos bem-aventurados, entendendo-se “corpo” a carne ressurecta após o Dia do Juízo (14). Dante cita também “o teu irmão” (tuo fratello- v.94), a saber, S. João Evangelista, que igualmente se refere a essas  brancas vestes” (bianche stole- v. 95) no Apocalipse, VII, 9, 13-17 (15).  

            Concluído o exame de Dante, ouve-se no Céu o canto do salmo IX, relativo à esperança, antes referido.  Depois, entre essas almas, uma luz se intensifica tanto “que se em Câncer houvesse tal cristal/ o mês de inverno seria um só dia” (sì che, se’l Cancro avesse un tal cristallo,/ l’inverno avrebbe un mese d’un sol dì- v. 101-102) (essa luz, como se verá logo adiante, é a de S.João).  O mês de inverno (do ponto de vista do hemisfério Norte), no caso, é o que vai de 21 de dezembro a 21 de janeiro, em que a constelação de Câncer está presente à noite. Se houvesse “tal cristal” ali, ou uma estrela como o Sol nessa constelação, todo o mês em questão estaria iluminado, não haveria mais noite, apenas o dia (16).

S.João Evangelista, por El Greco

            Dante então compara o movimento desse “refulgente esplendor” (schiarato splendore- v. 106), S. João, em direção aos outros dois apóstolos -- “que dançavam segundo o ritmo do canto/ adequado ao seu ardente amor” (/.../ si volgieno a nota/ qual conveniesi al loro ardente amore- v. 107-108) -- a uma alegre donzela entrando na dança para honrar a noiva, no dia do casamento (lembremo-nos que S. João está associado ao amor, ou caridade, a terceira virtude teologal). Beatriz observa a dança e o canto dos três apóstolos “como a esposa (recém-casada), silenciosa e imóvel” (pur come sposa tacita e immota- v.111). Mantendo o olhar neles, ela assim se refere a S.João, que foi escolhido por Cristo, do alto da cruz, para cuidar de sua mãe, conforme o evangelho desse santo:

“Questi è colui che giacque sopra ‘l petto
del nostro pellicano, e questi fue
di su la croce al grande officio eletto.”    (v. 112-114)     
Este é aquele que recostou a cabeça no peito/ do nosso pelicano, e foi escolhido/ para a grande tarefa desde o alto da cruz”.
            Acreditava-se que o pelicano bicava o próprio peito para, com seu sangue, dar vida novamente ao filhote falecido. Por isso, sua imagem está associada a Cristo, cujo sacrifício, para os cristãos, redimiu e deu a vida eterna aos homens (17).   

            Segue-se uma comparação entre a perda de visão de alguém cujo olhar se fixa num eclipse e o ofuscamento de Dante que olha atentamente “o último fogo” (v. 121) para procurar algo que não está ali, ou seja, o corpo de S.João:

Qual è colui ch’adocchia e s’argomenta
di vedere eclissar lo sole un poco,
che, per veder, non vedente diventa;

tal mi fec’ïo a quell’ ultimo foco
mentre che detto fu:  “Perché t’abbagli
per veder cosa che qui non ha loco?     (v. 118-123)

Como aquele que aguça o olhar e se esforça/ para ver o Sol eclipsar-se um pouco/ e que por ver fica sem visão,
assim fiquei eu ao olhar atentamente o último fogo/ até que ele me disse: “Por que te ofuscas/ para ver coisa que aqui não tem lugar?”

            Note-se a sonoridade dos versos acima, no original, decorrente da ocorrência dos fonemas envolvendo as consoantes k (ou o c com som equivalente), v e d, sonoridade essa criada pelo poeta, que mostra aqui sua grande virtuosidade formal.  

            S. João conclui sua manifestação afirmando que seu “corpo agora é terra” (/.../ è terra il mio corpo /.../- v.124). Ele está na terra, juntamente com outros, até que o número deles “se iguale ao propósito divino” (con l’etterno proposito s’agguagli- v. 126), ou seja, até que ocorra a ressurreição da carne no Dia do Juízo (18). “Com dupla veste” (Con le due stole /.../- v.127), i.e., com corpo e alma, “somente duas luzes subiram” (son le due luci sole che saliro- v. 128) ao “santo claustro” (beato chiostro- v. 127), vale dizer, somente Cristo e sua mãe subiram ao Céu com corpo e alma. Dante deve relatar isso, ao retornar ao nosso mundo. E assim desfazer a lenda relativa a S.João.  

            A essas palavras os três apóstolos (Pedro, Tiago e João) param sua dança e canto. Isso é comparado por Dante a um assobio que faz pousar os remos, os quais antes golpeavam a água.

            Nos últimos versos do Canto, Dante diz que ficou admirado com o fato de que, quando se voltou para ver Beatriz, ele não pôde vê-la, embora estivesse perto dela.   

Sandro Botticelli

Salvador Dalì 
  
NOTAS


(1) CIARDI, John-  “The Divine Comedy”: The Inferno. The Purgatorio. The Paradiso”. Translated by John Ciardi.  New American Library, 2003, p.821
(2) MANDELBAUM, Allen- “The Divine Comedy of Dante Alighieri- Paradiso”. A verse translation by Allen Mandelbaum. Notes by Anthony Oldcorn and Daniel Feldman, with Giuseppe Di Scipio. Bantam Books, 1986- p.398. 

(3) SAYERS, Dorothy L. and REYNOLDS, Barbara—“Dante: The Divine Comedy 3- Paradise”. Translated by Dorothy L. Sayers and Barbara Reynolds.  Penguin Books, 1971, p. 278.

(4) MOURA, Vasco Graça—“Dante Alighieri- A Divina Comédia”- Introdução, tradução e notas de Vasco Graça Moura. S.Paulo: Landmark, 2005- p. 813.

(5) MANDELBAUM, Allen- “The Divine Comedy of Dante Alighieri- Paradiso”, op cit, p.398-9.

(6) MUSA, Mark-- “Dante- The Divine Comedy- Volume 3: Paradise”. Translated with an Introduction, Notes, and Commentary by Mark Musa. Penguin Books, 1986, p.301.

(7) MANDELBAUM, Allen- “The Divine Comedy of Dante Alighieri- Paradiso”, op cit, p. 399.

(8) Id. ib, p. 400.

(9) Id. ib, p. 400.

(10) Salmo IX, 10 (Bíblia traduzida das línguas orientais) ou IX,11 (Bíblia traduzida da Vulgata): "E em ti esperarão os que conhecem o teu nome, porque tu, Senhor, não desamparaste os que te buscam".
 Quase todos os livros do Velho Testamento foram escritos em hebraico enquanto o Novo Testamento foi escrito em grego. É conhecida como  “Vulgata” a versão latina da Bíblia, feita na sua quase totalidade por S.Jerônimo (“Bíblia Sagrada”. Ed. Paulinas, 1960, XII edição, p.612 e Introdução, p. 12-13). S.Jerônimo viveu de 347 d.C. a  420 d.C.     

(11) SAYERS, Dorothy L. and REYNOLDS, Barbara—“Dante: The Divine Comedy 3- Paradise”, op cit, p. 278.  

(12) MUSA, Mark-- “Dante- The Divine Comedy- Volume 3: Paradise”, op cit, p.303

(13) MANDELBAUM, Allen- “The Divine Comedy of Dante Alighieri- Paradiso”, op cit, p. 400;  CIARDI, John-  “The Divine Comedy”: The Inferno. The Purgatorio. The Paradiso”, op cit, p. 823.

(14) Id. ib,, p. 823; MOURA, Vasco Graça—“Dante Alighieri- A Divina Comédia”- Introdução, tradução e notas de Vasco Graça Moura. S.Paulo: Landmark, 2005- p. 817.

(15) LONGNON, Henri- “La Divine Comédie”. Traduction, préface, notes et commentaires par Henri Longnon. Paris: Garnier, 1951, p. 682.

(16) MUSA, Mark-- “Dante- The Divine Comedy- Volume 3: Paradise”, op cit, p.304.

(17) MANDELBAUM, Allen- “The Divine Comedy of Dante Alighieri- Paradiso”, op cit, p. 401-2

(18) Id. ib., p. 402.
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-Para ouvir o Canto XXV:

 

https://www.youtube.com/watch?v=vmIfQ-ebZLc

 

(acessado em 7.10.20)