sexta-feira, 22 de março de 2019

CANTO XX


PARAÍSO


Canto XX


            Dante refere-se inicialmente ao declínio do Sol, que finaliza o dia em seu hemisfério, e ao surgimento de um céu iluminado pelas estrelas. Ele associa o desaparecimento do Sol ao silêncio do “símbolo do mundo e de seus chefes” (/.../ ‘l segno del mondo e de’ suoi duci- v. 8), ou seja, ao silêncio da Águia, símbolo do Império, que se cala após falar ao poeta. Por outro lado, as “luzes vivas” (vive luci- v. 10) (as almas) que a compõem iniciam seus cantos (após a Águia calar-se) e isso é associado ao surgimento das estrelas (1). Mas o brilho dessas, que é crescente à medida que as almas cantam, ainda provém da fonte primeira, o Sol (de acordo com a astronomia da época, as estrelas não tinham luz própria) (2). Dante lamenta não poder reter tais cantos, dada a sua excelência.   


Gustave Doré

            Na sequência, o poeta invoca as almas, chamando-as de  doce amor” (dolce amor- v. 13), comparando os sons que produziam com seu canto ao de flautas “sopradas só com pensamentos santos!” (ch’avieno spirto sol di pensier santi!- v.15). Em seguida, elas são referidas como “preciosas e reluzentes gemas” (/.../ i cari e lucidi lapilli- v. 16), incrustadas no “sexto céu” (sesto lume- v. 17), o céu de Júpiter, onde ele está, com Beatriz. Após elas silenciarem o seu canto, Dante diz

urdir mi parve un mormorar di fiume
che scende chiaro giù di pietra in pietra,
mostrando l’ubertà del suo cacume       (v. 19-21)

me pareceu ouvir o murmurar de um rio/ que límpido cai, de pedra em pedra,/ mostrando a abundância da sua fonte 

            Os versos seguintes afirmam que aquele murmurar provinha da Águia, cujo som é comparado ao de dois instrumentos musicais, a cítara e a gaita de foles. Esse som se elevou pelo pescoço da ave e se tornou voz, saindo pelo bico em forma de palavras, aguardadas pelo poeta. Este afirma que a ave as pronuncia  como esperava meu coração, e nele as inscrivi” (quali aspettava il core ov’io le scrissi- v. 30), passando a reproduzi-las fielmente na continuação do Canto.

            A Águia começa a falar pedindo a atenção de Dante para aquela parte  das águias mortais que suportam a vista do Sol, i.e os olhos (uma característica dessa ave) (3). Diz a ele que os lumes que formam um dos olhos (inclusive o entorno) “são os de grau mais elevado” (e’ di tutti lor gradi son li sommi- v. 36), considerados todos os que formam a ave. Passa então a mencionar seis homens justos, e o primeiro deles, é “Aquele que, como pupila, brilha no centro” (v. 37), vale dizer, o rei David, da Bíblia, identificado indiretamente pela referência ao fato de que é “o cantor do Espírito Santo” (fu il cantor de lo Spirito Santo- v. 38) e por ter transportado a Arca da Aliança “de vila em vila” (/.../ di villa in villa- v. 39), até Jerusalém (essa Arca simboliza a presença divina) (4).  Ele é o autor dos Salmos, e para compô-los aceitou o Espírito Santo como seu inspirador. O rei David “agora sabe” (ora conosce- v. 40) que está no Paraíso como recompensa por ter feito de sua vontade (v.41) a vontade divina. O poeta inicia aqui a fazer uso de uma anáfora, repetindo por seis vezes a expressão “agora ele sabe” (v. 40, 46, 52, 58, 64 e 70), uma para cada um dos justos governantes mencionados nos versos, explicita ou implicitamente (5).  
   
Salvador Dali
             A Águia diz que os outros cinco notáveis formam o arco de sua sobrancelha. E que o primeiro deles está mais próximo do bico da ave. Este é identificado como Trajano, imperador romano (de 98 a 117 da era cristã), por causa do v. 45 —“ele consolou a viúva pelo filho” (la vedovella consolò del figlio)  – que se refere a um episódio de sua vida (já referido em “Purgatório”, X, 73-93),  em que retardou uma viagem para reparar injustiça feita a uma pobre viúva e vingar a morte do filho dela (6). Trajano “agora sabe” quanto custa caro não seguir a Cristo, pois ele, que ora desfruta a “doce vida” (dolce vita- v.48) do Paraíso, já conheceu a “oposta” (l’opposta- v. 48), ou seja, já esteve no Inferno (no Limbo). Segundo uma tradição medieval, ele foi resgatado daí pelas preces de S. Gregório.

            Segue-lhe, nesse arco da sobrancelha, aquele que “retardou a morte para fazer penitência” (morte indugiò per vera penintenza- v.51). Trata-se de Ezequias, o justo rei de Judá, a quem, segundo a Bíblia, o Senhor concedeu mais quinze anos de vida, após ele ter chorado e rezado ao ouvir o profeta Isaías lhe comunicar que logo morreria. Ezequias “agora sabe que o julgamento eterno/ não se altera /.../ (ora conosce ch ‘l giudicio etterno/ non si trasmuta /.../- v. 52-53) mesmo com uma “digna súplica” (degno preco- v. 53). Se ele obteve a prorrogação de sua vida, é porque isso já estava predeterminado por Deus, e não por causa de sua oração (7).

            A seguir, vem aquele “cuja boa intenção resultou em mau fruto” (sotto buona intenzion che fé mal frutto- v.56), ou seja, o imperador Constantino, que transferiu a sede do Império (“com as leis e comigo”: con le leggi e meco- v. 55, i.e. o símbolo da Águia) para Constantinopla, então Bizâncio, no ano 330, deixando a região ocidental, centralizada em Roma, para o papa Silvestre (“o Pastor”- v. 57). Essa união dos poderes temporal e espiritual é para Dante a raiz de todos os males da Igreja Católica.  Constantino “agora sabe” que o mal derivado de sua decisão não lhe foi nocivo, pois está no Paraíso, mas ela arruinou o mundo  (v. 58-60).

            O próximo lume daquele arco da sobrancelha é a alma de Guilherme, o justo rei do sul da Itália e Sicília, que reinou de 1169 a 1189. Ele é pranteado pela população daquela terra que hoje é governada pelos reis Charles de Anjou  e Frederico II de Aragão, também causa de choro, mas agora pelas suas más ações. Guilherme “agora sabe” que o Céu ama o rei justo, “e ele faz ver isso/ no fulgor de seu aspecto” (/.../ e al sembiante/ del suo fulgore if fa vedere ancora- v.65- 66).

            Por fim, a quinta luz da sobrancelha (e a sexta citada) é o herói troiano Rifeu, personagem da “Eneida”, que morreu lutando pela sua cidade, considerado por Virgílio um homem justo. Como ele viveu muito antes de Cristo, sua salvação é surpreendente para os crentes. Quanto a Rifeu,  Agora ele sabe” (v. 70) algo mais sobre a graça divina, “embora sua vista não divise o fundo” (ben che sua vista non discerna il fondo- v. 72). Para o poeta, a vontade de Deus é insondável.       

Depois disso, a Águia – identificada como a marca da “eterna Beleza” (etterno piacere- v. 77), i. e. Deus --  se cala, e o poeta a compara a uma cotovia, contente “da última doçura que a sacia” (de l’ultima dolcezza che la sazia- v. 75), ou seja, a salvação de Rifeu.  Pela vontade divina cada coisa torna-se o que realmente é:

Quale allodetta che ‘n aere si spazia
prima cantando, e poi tace contenta
de l’ultima dolcezza che la sazia,

tal mi sembiò l’imago de la ‘mprenta
de l’etterno piacere, al cui disio
ciascuna cosa qual ell’ è diventa.    (v.73-78)

Qual cotovia que, livre, no ar,/ primeiro canta e depois se cala, contente/ da última doçura que a sacia,
tal me pareceu a imagem da marca/ da eterna Beleza, por cuja vontade/ cada coisa torna-se aquilo que ela é. 

            O poeta então comenta que como ele “/.../ fosse ali, quanto à (sua) minha dúvida,/  transparente como vidro que reveste a cor” (/.../ ch’io fossi al dubbiar mio/ lì quase vetro a lo color ch’ el veste- v. 79-80) -- dada a presença das almas bem-aventuradas  que podem ler sua mente -- sua dúvida não precisaria ser expressa em palavras, mas estas acabam saindo de sua boca—“Que coisas são essas?” (/.../ “Che cose son queste?- v.82), externando assim sua admiração por ver no Paraíso dois pagãos (Trajano e Rifeu), um que viveu depois da vinda de Cristo, e outro, antes.
           
A “santa insígnia” (lo benedetto segno- v.86), a Águia, vendo o assombro de Dante com isso, dirige-se a ele, afirmando que o poeta crê nessas coisas porque ela o diz, mas não percebe as razões que a justificam. Ele é, diz a Águia, “como aquele que conhece a coisa/ pelo nome” (/.../ come quei che la cosa per nome/ apprende ben /.../- v. 91-92), mas não a sua quididade (ou essência, na  filosofia escolástica), e precisa de outro que a mostre. Os comentaristas fazem aqui a distinção da Escolástica entre conhecimento baseado nos sentidos daquele baseado na razão, o único a apreender o verdadeiro significado dos fenômenos (9).

A seguir, citando indiretamente uma passagem do Evangelho de Mateus (11:12), a Águia afirma que o “Regnum celorum” (Reino dos Céus- v. 94) sofre a violência do amor e da esperança, i.e. a entrada nele é forçada por essas duas virtudes (cf o caso do papa Gregório e de Rifeu). Elas vencem a vontade divina, “elas a vencem porque ela quer ser vencida,/ e, vencida, vence com a sua bondade” (ma vince lei perché vuole esser vinta,/ e, vinta, vince con sua beninanza- v. 98-99), notando-se aqui a presença da figura de linguagem chamada quiasmo (10), dada a repetição invertida das palavras.

As duas almas que causam admiração a Dante por estarem na “região angélica” (region de li angeli- v.102) -- a Águia esclarece o poeta -- “Não deixaram seus corpos, como crês,/ gentios, mas cristãos” ( D’i corpi suoi non uscir, come credi,/ Gentili, ma Cristiani, /.../- v. 103-104). A primeira, a de Trajano, saiu excepcionalmente do Inferno (Limbo) onde se encontrava e “retornou a seus ossos” (/.../ tornò a l’ ossa- v. 107). Ressuscitou  graças à “viva esperança” (viva spene- v. 108 e 109), não dele mas de S. Gregório (como salienta Hollander), que com ela reforçou suas preces (v. 110) em favor de Trajano. A alma deste, “retornada à carne, em que permaneceu por pouco tempo,” (tornata ne la carne, in che fu poco,- v. 113), acreditou na ajuda de Cristo e inflamando-se “em tanto fogo/ de vero amor” (/.../ in tanto foco/ di vero amor /.../- v. 115-116), foi digna de vir ao Paraíso, “após a segunda morte” (/.../ a la morte seconda- v.116). Essa narrativa referente à vida do santo decorre de uma lenda medieval.

Amos Nattini

Quanto à outra alma, a do troiano Rifeu, de uma época bem anterior à vinda de Cristo, “todo o seu amor lá embaixo dedicou ao que é certo” (tutto suo amor là giù pose a drittura- v.121), pelo que Deus lhe premiou, concedendo-lhe a graça de apagar o pecado original pelo batismo, pré-condição para a admissão no Paraíso. Esse batismo consistirá nas três Virtudes Teologais (Fé, Esperança e Caridade, ou Amor), virtudes suficientes para assegurar a salvação. Dante havia visto antes tais virtudes, personalizadas em três damas, quando visitou o Paraíso Terrestre (cf. “Purgatório”,  XXIX, 121-129):

Quelle tre donne li fur per battesmo
che tu vedesti de la destra rota,
dinanzi al battezzar più d’un millesmo.    (v. 127-129)

Aquelas três damas que viste junto à roda direita do carro/ foram o seu batismo/ mil anos antes deste ser instituído.

            A Águia conclui sua fala invocando a predestinação, e associando esse mistério aos “que não veem a Primeira Causa plenamente” (che la prima cagion non veggion tota- v. 132), i.e. os seres humanos e mesmo as almas no Paraíso (11), “uma vez que mesmo nós, que vemos Deus,/ não sabemos todos os que estão eleitos” (/.../ ché noi, che Dio vedemo,/ non conosciamo ancor tutti li eletti- v.134-135). Mas isso não a preocupa “pois o que Deus quer, nós queremos também “ (che quel que vole Iddio, e noi volemo- v. 138).

            Nos versos finais do canto, o poeta chama de “suave medicamento” (soave medicina- v.141) o que recebeu daquela “imagem divina” (imagine divina- v. 139), a saber, o seu esclarecimento sobre a dúvida que tinha a respeito da presença de Trajano e Rifeu no Paraíso. Eles são referidos como “duas luzes” (due luci benedette- v. 146) na comparação que conclui o Canto (relacionando um citarista acompanhando um cantor com o flamejar das duas luzes acompanhando as palavras da Águia), como se vê abaixo:

E come a buon cantor buon citarista
fa seguitar lo guizzo de la corda,
in che più di piacer lo canto acquista,

sì, mentre ch’e’ parlò, sì mi ricorda
ch’io vidi le due luci benedette,
pur come batter d’occhi si concorda,

con le parole mover le fiammette.    (v. 142-148)

E como a um bom cantor bom citarista/ o acompanha com a vibração da corda,/ pelo que o canto se torna mais prazeroso,
assim, enquanto a Águia falava, me lembro/ que vi as duas luzes benditas,/ como os olhos que piscam concordes,
flamejarem de acordo com as palavras dela.


G. Di Paolo- A águia 
   
NOTAS


(1) HOLLANDER, Robert & Jean- “Dante Alighieri- Paradiso”: a verse translation by Robert & Jean Hollander. Introduction & Notes by Robert Hollander.  Doubleday, 2007, p.492.

(2) SINCLAIR, John D.—  “The Divine Comedy of Dante Alighieri. III- Paradiso”.  Translaton and Comment by John D. Sinclair. Oxford Univerfsity Press, p. 296.  O autor cita aí uma interessante afirmação de E.G. Gardner, relacionada à interpretação do v. 8. Segundo Gardner, “Como as estrelas na astronomia de Dante refletem a luz do sol, assim também o poder dos reis e príncipes inferiores derivam do poder do Imperador”. 

(3) HOLLANDER, Robert & Jean- “Dante Alighieri- Paradiso”, op cit, p. 493.

(4) SAYERS, Dorothy L. and REYNOLDS, Barbara—“Dante: The Divine Comedy 3- Paradise”. Translated by Dorothy L. Sayers and Barbara Reynolds.  Penguin Books, 1971, p.237.                           

(5) MANDELBAUM, Allen- “The Divine Comedy of Dante Alighieri- Paradiso”. A verse translation by Allen Mandelbaum. Notes by Anthony Oldcorn and Daniel Feldman, with Giuseppe Di Scipio. Bantam Books, 1986- p.380-381..
.
(6) Id. ib., p. 381. 

(7) Id. ib., p.381.

(8) HOLLANDER, Robert & Jean- “Dante Alighieri- Paradiso”, op cit, p. 498. 

(9) Id. ib., p.499.

(10) Id. ib., p.499.

(11) CIARDI, John- “The Divine Comedy”: The Inferno. The Purgatorio. The Paradiso”. Translated by John Ciardi.  New American Library, 2003, p.776.
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-Para ouvir o Canto XX:

 

https://www.youtube.com/watch?v=vG21sqQKmlU&t=10s

 

 (acessado em 25.09.20)

 












quinta-feira, 20 de dezembro de 2018

CANTO XIX


PARAÍSO


Canto XIX


Gustave Doré
   
            Dante inicia o canto XIX referindo-se à “bela imagem que em sua doce fruição/ as almas felizes formavam reunidas” (la bela image che nel doce frui/ liete facevan l’anime conserte- v. 2-3). A imagem é da águia imperial romana, símbolo da justiça terrena (decorrente da justiça divina), que com as asas abertas se mostrava ao poeta no céu de Júpiter. Cada luz ou alma (de um justo governante que ali está) formadora da águia era um rubi (cf a metáfora) que brilhava tão intensamente pela incidência do raio do Sol (Deus) que para os olhos dele era como se todo o Sol se refletisse numa só alma.

            E ocorre então algo que “não foi jamais dito, nem escrito” (non portò voce mai, né scrisse incostro-  v. 8) nem concebido pela fantasia, pois Dante vê e ouve a águia se manifestar em palavras, usando a primeira pessoa do singular e não a do plural.  Ela diz que “por ser justa e piedosa” (/.../. Per esser giusto e pio- v.13) (ela, i.e. as almas dos príncipes justos que a compõem) foi elevada à glória máxima, a do Paraíso. E que na Terra deixou tal memória (a da vida correta desses governantes) (1), “que lá a gente malvada/ a elogia mas não segue seu exemplo” (/.../ che le genti lì malvage/ commendan lei, ma non seguon la storia- v. 17-18).

            Enfatizando a expressão una de uma pluralidade de almas, Dante a compara ao calor resultante de muitas brasas:

Così um sol calor di molte brage
si fa sentir, come di molti amori
usciva solo un suon di quella image.    (v. 19-21)

Como um só calor de muitas brasas/ se propaga, assim de muitos amores/ só um som saía daquela imagem.

            Na sequência, o poeta começa a falar, dirigindo-se àquelas “flores perenes da eterna alegria” (/.../ O perpetüi fiori/ de l’etterna letizia, /.../- v. 22-23), que fazem parecer um só todos os seus perfumes. Pede a elas para livrá-lo de seu “grande jejum” (il gran digiuno- v. 25), uma vez que ele não encontra na Terra o alimento necessário para superar o seu jejum, i.e. saciar a sua curiosidade. Ele está ciente de que há um outro reino no céu que “é espelho da justiça divina     (la divina giustizia fa suo specchio- v. 29) (este é o sétimo céu, de Saturno, presidido pelos anjos chamados Tronos, que desvendam os julgamentos de Deus para os bem-aventurados, já referidos no canto IX, v.61-63) (2). Todavia, neste reino em que estão, o céu de Júpiter, os justos também contemplam a perfeição divina de modo não velado. Eles, como todos os bem-aventurados, podem ler o  seu pensamento. Assim, Dante conclui a sua fala afirmando:  sabeis qual é/ a dúvida que me causa fome há tanto tempo” ( /../ sapete qual è quello/ dubbio che m’è digiun contanto vecchio- v. 32-33) (3). Qual é essa dúvida será explicitada para nós, leitores, mais adiante neste Canto (trata-se da exclusão dos pagãos virtuosos do Paraíso apenas por terem nascido antes da vinda de Cristo).

            A seguir, os versos contêm uma comparação. “Aquele símbolo (a águia) de louvores/ à divina graça formado” ( /.../ quel segno, che di laude/ de la divina grazia era contesto- v. 37-38), acompanhado de cantos, é comparado a um falcão, livre do capuz e alegre, “com vontade (de voar) e fazer-se belo” (voglia mostrando  e faccendosi bello- v.36) (nas alturas).  

            Essa águia então recomeça a falar. Afirma que Deus (“Aquele que girou o compasso/ para assinalar os confins do mundo”: “Colui che volse il sesto/ a lo stremo del mondo, /.../- v. 40-41, onde está presente tanto o “oculto” quanto o “manifesto”) não pode imprimir o seu “poder” (= “virtude criativa”) (4) em todo o universo, pois isso superaria “em infinito excesso” (in infinito eccesso- v. 45) sua criação. Deus é infinito e as coisas criadas, finitas. O “primeiro ser soberbo      (/.../ ‘l primo superbo- v. 46), Lúcifer, “que foi a mais alta de todas as criaturas         (che fu la somma d’ogne creatura-  v.47), “por não querer esperar a luz, caiu do céu, imaturo” (per non aspettar lume, cadde acerbo- v.48). Em seu período de provação, Lúcifer lideraria uma rebelião, que acabou  por precipitá-lo do céu, ainda imaturo (sua criação ainda não se completara plenamente) (5).  Toda natureza (como a natureza humana), inferior a ele, (6) “é pequeno receptáculo àquele bem/ que não tem fim e é a sua própria medida”  (è corto recettacolo a quel bene/ che non ha fine e sé com sé misura- v.50-51) (Deus). A águia é direta em dizer a Dante que sua “visão” (ou capacidade de entendimento), que é um dos raios da mente de Deus (v.52-53), não é tão potente “para reconhecer o seu princípio (Deus) / muito além daquilo que lhe foi manifesto” (/.../ che suo principio non discerna/ molto di là da quel che l’è parvente-  v. 56-57).  Assim, sua visão da Justiça eterna é comparada à do olho vendo o mar desde a orla, ciente de que há um fundo, escondido em sua profundidade. A Justiça divina, como o fundo do mar, está presente mas não é vista (a razão humana não pode penetrar nela).  

A seguir, a águia opõe a luz verdadeira, aquela que provém do “céu sereno” (v.64), de outra luz, que na realidade “é treva,/ ou sombra da carne ou veneno dela” ( /.../ è tenèbra/ od ombra de la carne o suo veleno- v. 65-66 ). Só a luz da graça divina pode vencer as limitações do intelecto humano (“sombra da carne”) ou o pecado (“veneno da carne”) (7). 

Ela prossegue afirmando que o esconderijo da “justiça viva” ( giustizia viva- v. 68 ), a quem Dante dirigiu tantas questões (subentendidas nos v. 25-33)  agora lhe é aberto. Explicita agora, para nós leitores, o que se passa na mente de Dante. Um homem nasce às margens do rio Indo, nunca ouviu falar em Cristo, mas sua conduta é boa, sem cometer pecado. E um dia,

Muore non battezzato e sanza fede:
ov’ è questa giustizia che ‘l condanna?
o0v’ è colpa sua, se ei non crede?      (v. 76-78)

Morre sem batismo e sem fé:/ Onde está essa justiça que o condena?/ Onde está sua culpa, se não crê?

            Dante pensa assim. E é repreendido desta forma:

Or tu chi se’, che vuo’ sedere a scranna,
per giudicar di lungi mille miglia
com la veduta corta d’una spanna?    (v.79-81)

Ora, tu quem és para sentar na cadeira do juiz/ e julgar a mil milhas de distância/ com tua vista curta de um palmo?

A águia continua seu discurso recomendando guiar-se pela (Sagrada) Escritura, pois sem ela, “muito teria para duvidar” ( da dubitar sarebbe a maraviglia- v.84 ). A fé no que ela contém auxilia a razão humana, que por si só não chega até essas verdades reveladas (8). As “mentes obtusas” (menti grosse- v. 85) das criaturas humanas (“animais terrenos”: terreni animali-  v.85) não veem que a “vontade primeira” (La prima volontà- v. 86) (ou a vontade divina) (9) “é o sumo bem” (è sommo ben- v. 87), que todo bem criado é causado por ela própria. Assim, não poderia haver discordância entre o desejo de justiça de Dante e a “vontade primeira”. Mas isso deve ser aceito pela fé, não é demonstrado pela razão.

Interrompe-se por um momento a fala da águia e Dante introduz em seu relato este comentário, sob a forma de uma comparação, em que uma cegonha é associada à águia e um dos filhotes dela, a Dante (v. 91-96):.

Como sobre o ninho gira/ a cegonha após alimentar os filhos/ e como aquele que se alimentou olha para ela (Quale sovresso il nido si rigira/ poi c’ha pasciuti la cicogna i figli,/ e come quel ch’è pasto la rimira;-  v. 91-93),  assim também se sentiu Dante, erguendo os olhos para ver a águia, depois de alimentado (espiritualmente) por ela, que abriu as asas, impelida pelas inúmeras almas concordes que a formavam.  

Rodeando, a águia cantava e comparava a incompreensão do canto dela por Dante com outra incompreensão, a da Justiça divina, por parte dos seres humanos (indicado pelo uso do “vós”): 

/.../ “Quali
son le mie note a te, che non le’ ntendi,
tal è il giudicio etterno a voi mortali”.      (v. 97-99)

/.../ “Como/ são as minhas notas para ti, que não as entendes,/ tal é o juízo eterno a vós mortais”. 

            Mais adiante, aquele “símbolo (a águia)/ que fez os romanos reverenciados no mundo” ( /.../ segno/ che fé i Romani al mondo reverendi- v. 101-102)  afirma que “A este reino (o do Paraíso)/ não subiu jamais quem não acreditou em Cristo” ( /.../ A questo regno/ non salì mai chi non credette ‘n Cristo- v. 103-104). Mas, diz ele, muitos cristãos atuais estarão, no Dia do Juízo, mais afastados de Cristo do que os que não o conheceram.  E quando os cristãos forem separados em duas fileiras --  uma dos salvos e outra dos condenados, ou, como ele diz, “uma dos ricos para sempre, e outra, dos pobres” ( l’uno in etterno ricco e l’altro inòpe- v. 111) – o poeta, pela boca da águia, opta por vê-los do ponto de vista dos não-cristãos, representados pela menção aos etíopes (v.109) ou aos persas (v. 112). Ela então afirma que “o etíope condenará tais cristãos” ( e tai Cristian dannerà l’ Etïòpe- v. 109) (que diferentemente dos etíopes justos não-salvos tiveram a chance de ir para o Paraíso e a desprezaram) (10). Faz depois uma pergunta retórica:

Che poran dir li Perse a’ vostri regi,
come vedranno quel volume aperto
nel qual si scrivon tutti suoi dispregi?  ( v. 112-114).

Que dirão os persas aos vossos reis/ quando virem aberto aquele volume/ no qual se escrevem todos os seus malfeitos?

            Tal volume, de acordo com os comentaristas (11), é aquele referido na Bíblia (“Apocalipse”, XX, 12), aberto no Dia do Juízo.

            O primeiro dos “reis” injustos a ser citado naquele volume  é Alberto (de Áustria) (1248-1308), cujas ações em breve (em 1304) devastarão o reino de Praga (ou da Boêmia), desrespeitando assim os direitos do vassalo. Esse reino  estava a cargo de Venceslau IV, seu cunhado (12).  Depois é citado “aquele que morrerá pelo golpe do javali” (quel che morrà di colpo di cotenna- v. 120), vale dizer, Filipe o Belo de França (cf menção ao rio  Sena no v. 118), que teria falsificado moeda em prejuízo da população. Morreu em 1314 num acidente quando participava de uma caça ao urso  (13).  O livro refere-se, na sequência, às guerras empreendidas, por sede de poder (/.../ la superbia ch’ asseta- v. 121), entre o  rei inglês e o escocês (14); refere-se também à luxúria e à indolência “daquele de Espanha (Ferdinando IV de Castela) e daquele de Boêmia” (Venceslau IV) (di quel di Spagna e di quel di Boemme- v. 125);  ao Coxo de Jerusalém (Ciotto di Ierusalemme- v.127) (Charles II, de Anjou, Charles, o Coxo, também chamado  rei de Jerusalém), rei da Apúlia e Nápoles (15), cujas ações más foram mil vezes mais frequentes do que as boas, daí a menção aos algarismos romanos  I e M nos vv. 128-9, que são também a primeira e última letra da palavra Ierusalem (16). Ver-se-á também naquele livro registro (abreviado, porque as ações más são muitas e o espaço é pequeno- v. 134-135) da “avareza e vilania/ daquele que guarda a ilha do fogo/ onde Anquises findou a longa vida” ( /.../ l’avarizia e la viltate/ di quei che guarda l’isola del foco,/ ove Anchise finì la lunga etate”- v. 130-132). Quem “guarda” tal ilha (chamada “do fogo” por causa da presença do vulcão Etna) (17), a da Sicília, é o seu rei Frederico II, de Aragão. E Anquises é o pai de Enéas, que ali faleceu (17). É citada ainda a “obra vergonhosa” ( l’opere sozze- v. 136 ) de Jaime e Jaime II, respectivamente tio e irmão desse Frederico, que desonraram, além de sua estirpe, duas coroas (v.137-8), pois o primeiro foi rei de Majorca e o segundo, de Aragão (18). São citados ainda os reis de Portugal (D.Diniz, que reinou de 1279 a 1325 ) e da Noruega (Akon VIII), além do rei da Rascia (ou Sérvia), que falsificou a moeda de Veneza. Quanto a D. Diniz e ao rei da Noruega, nota em Mandelbaum et al. afirma que “não parecem merecer o opróbrio de Dante”. Quanto a D. Diniz, especificamente, Graça Moura (19) considera pouco consistente a inclusão dele “no livro das malfeitorias dos reis por ser ‘todo dado a adquirir haveres’”, conforme antigo comentador, o que seria explicado pelo seu interesse nos bens da Ordem dos Templários, quando da liquidação desta.

            Encerra-se aqui, no v. 141, o conjunto de nove tercetos relativos aos maus reis citados, iniciado no v.115. Cada grupo de três tercetos começa, nos versos originais, por uma mesma expressão, cujas primeiras letras formam a palavra L- V (ou U)- E.  “Lue” significa “peste” ou “pestilência” (20). É assim, usando anáforas, que Dante cria um artifício para qualificar globalmente esses reis de seu tempo...

            O Canto conclui apostrofando a Hungria, que será “ditosa” (v. 142) se  não tiver mais maus governantes (como tem tido), assim como será Navarra, “se se defender com os montes que a circundam!” ( se s’armasse del monte che la fascia!- v. 144 ), i.e. os Pirineus. Por último, é citado indiretamente o reino de Chipre, dada a menção a duas cidades suas, Nicosia e Famagosta, que “se lamentam e bradam contra seu bestial rei” (per la lor bestia si lamenti e garra- v. 147), Henrique II de Lusignan, que não deve ser separado do rol de maus reis mencionado acima (21).     

Amos Nattini 

         

NOTAS


(1) MARTINS, Cristiano- “A Divina Comédia”. Segundo volume. Purgatório. Paraíso. Tradução, introdução e notas de Cristiano Martins. 5a edição. Belo Horizonte: Ed Itatiaia, 1989, p. 443.

(2) Id. ib,, p. 364 e 443.

(3) Id. ib., p.443.

(4) ZOLI, M. e ZANOBINI, F.- “La Divina Commedia: a cura di M.Zoli e F.Zanobini. Inferno. Purgatorio. Paradiso”. Bulgarini, 2013, p. 897.

(5) MANDELBAUM, Allen- “The Divine Comedy of Dante Alighieri- Paradiso”. A verse translation by Allen Mandelbaum. Notes by Anthony Oldcorn and Daniel Feldman, with Giuseppe Di Scipio. Bantam Books, 1986- p.373.

(6) HOLLANDER, Robert & Jean- “Dante Alighieri- Paradiso”: a verse translation by Robert & Jean Hollander. Introduction & Notes by Robert Hollander.  Doubleday, 2007, p. 472- 473.

(7) CIARDI, John- “The Divine Comedy”: The Inferno. The Purgatorio. The Paradiso”. Translated by John Ciardi.  New American Library, 2003, p.766.

(8) Cf citação de “Monarchia” in MANDELBAUM, Allen- “The Divine Comedy of Dante Alighieri- Paradiso, op cit, p.378.  .

(9) MARTINS, Cristiano- “A Divina Comédia”. Segundo volume, op cit, p. 446..

(10) HOLLANDER, Robert & Jean- “Dante Alighieri- Paradiso”, op cit, p. 476.

(11) MANDELBAUM, Allen- “The Divine Comedy of Dante Alighieri- Paradiso, op cit, p.378.

(12) Id. ib., p. 379.

(13) Id. ib, p. 379

(14) Id. ib, p. 379

(15) HOLLANDER, Robert & Jean- “Dante Alighieri- Paradiso”, op cit, p. 478.

(16) MANDELBAUM, Allen- “The Divine Comedy of Dante Alighieri- Paradiso, op cit, p.379.

(17) HOLLANDER, Robert & Jean- “Dante Alighieri- Paradiso”, op cit, p. 478; MANDELBAUM, Allen- “The Divine Comedy of Dante Alighieri- Paradiso, op cit, p.379.
.
(18) MANDELBAUM, Allen- “The Divine Comedy of Dante Alighieri- Paradiso, op cit, p.379.

(19) MOURA, Vasco Graça—“Dante Alighieri- A Divina Comédia”- Introdução, tradução e notas de Vasco da Graça Moura. S.Paulo: Landmark, 2005- p. 765. .

(20) MANDELBAUM, Allen- “The Divine Comedy of Dante Alighieri- Paradiso, op cit, p.378.  

(21) HOLLANDER, Robert & Jean- “Dante Alighieri- Paradiso”, op cit, p. 479.  

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-Para ouvir o Canto XIX:

 

https://www.youtube.com/watch?v=aALdjTPAR2I

 

(acessado em 23.09.20)

 

 


G. Di Paolo- Gli spiriti dell'aquila