quinta-feira, 23 de março de 2017

CANTO VII

PARAÍSO


Canto VII


Justiniano se retira, saudando -- no primeiro terceto do Canto, em latim e hebraico -- o Deus dos exércitos, que das alturas ilumina com sua claridade os felizes fogos (ou almas) desses reinos (1). Ele é referido como “aquela substância” (essa sustanza- v. 5) que, juntamente com outras, se afasta dançando e cantando os versos daquele terceto inicial, sumindo da vista de Dante.  “Substância” é um termo da filosofia escolástica e designa aquilo que subsiste por si mesmo, em contraposição àquilo que é “acidental” (2).

Dante tem uma dúvida mas não a expressa verbalmente à senhora que lhe “sacia a sede com suas doces palavras” (che mi diseta con le dolce stille- v. 12).  Não ousa fazê-lo agora, mantendo-se reverente a ela, bastando para tanto ouvir Be ou ice (v. 14) de seu nome original (Bice era o apelido de Beatrice). Beatriz logo percebe o que se passa dentro dele e inicia sua exposição (que vai se estender até o último verso do Canto) na qual esclarecerá algumas dúvidas de Dante. Essa primeira dúvida é assim formulada por ela: “como uma justa vingança pudesse ser/ justamente punida /.../” (come giusta vendeta giustamente/ punita fosse /.../- v. 20-21). Ou seja, como a crucificação de Cristo, justa vingança ou punição pelo pecado original, pudesse ser, por sua vez, punida justamente, como Justiniano afirmou no canto anterior (VI,  v.91-93).  

O pecado original relaciona-se ao “homem que não nasceu” (/.../ quell’ uom che non nacque- v.26), Adão, que, “condenando-se, condenou toda a sua prole” (dannando sé, dannò tutta sua prole- v.27). Essa situação persistiu por muitos séculos até que o Verbo de Deus (Verbo di Dio- v.30), Cristo, encarnou-se na natureza humana – “que de seu Criador se afastara” (/.../ che dal suo fattore/ s’era allungata /.../- v. 31-32) pelo pecado original – “só por obra do Seu eterno amor” (con l’atto sol del suo eterno amore- v.33), o Espírito Santo (menção aqui à trindade divina) (3), a fim de abrir as portas do Paraíso para a humanidade. Assim, a crucificação foi justa enquanto punição ao homem pelos pecados, desde o original (4), mas injusta “se olharmos a Pessoa que a sofreu/ em quem era unida tal natura” (guardando a la persona che sofferse,/ in che era contratta tal natura- v. 44-45), ou seja, Cristo, que possuía dupla natureza, a humana e a divina.  Assim a “justa vingança” (a crucificação), no que se refere à natureza divina, foi uma ofensa a esta praticada pelos judeus e que “foi depois vingada por um justo tribunal” (poscia vengiata fu da giusta corte- v. 51), a saber, foi punida pelo imperador Tito que no ano 70 da nossa era destruiu Jerusalém. 


Amos Nattini

Na sequência, Beatriz detém-se em outra dúvida que ela lê na mente de Dante:

Tu dici: ‘Ben discerno ciò ch’i odo;
ma perché Dio volesse, m’è occulto,
a nostra redenzion  pur questo modo.’    (v. 55-57)

Tu dizes:  ‘Compreendo bem o que escuto;/ mas me é obscuro, por que Deus quisesse/ a nossa redenção apenas deste modo’.

Ela então vai lhe explicar “porque tal modo foi o mais digno” (/.../ perché tal modo fu più degno- v. 63).

Começa por referir-se à “bondade divina” (la divina bontà- v. 64) e sua atividade criadora:  ela

/.../ ardendo in sé, sfavilla
sì che dispiega le bellezze etterne.

Ciò che da lei sanza mezzo distilla
non ha poi fine, /.../                       (v. 65-68)

 /.../ ardendo em si, cintila/ de modo a difundir belezas eternas.
 O que dela, sem mediação, deriva/ não tem fim, /.../

a saber, o que é criado por Deus diretamente (os anjos e a alma humana, além das esferas celestes, da matéria contida nos quatro elementos, da “virtude informante” e do corpo do primeiro homem, conforme o v.130 e seguintes) não tem fim, é  eterno ou, mais precisamente, sempiterno. E “é todo livre” também (libero è tutto- v. 71), não se submetendo “‘à influência das coisas mais recentes” (a la virtute de le cose nove- v. 72), ou seja, à influência de causas naturais. Estas são causas secundárias, distintas do caso anterior, da criação direta por Deus, que é a causa primeira (5).  Além disso, “o ardor santo que irradia de todas as coisas/ na mais semelhante é mais vivaz(/.../ l’ardor santo ch’ ogne cosa raggia,/ne la più somigliante è più vivace- v.74-75). De todos os dons mencionados (imortalidade e liberdade, das quais decorre a semelhança com Deus) (6), a humana criatura se beneficia (v. 76).  

Pelo pecado, prossegue Beatriz, o homem torna-se “dessemelhante do Sumo Bem” (/.../ dissimìle al sommo bene- v. 80) e para retornar à sua dignidade deve preencher o vazio da culpa “com justas penas pelo mau deleite” (contra mal dilettar con giuste pene- v.84), o implícito no pecado. Só havia duas vias para recuperá-la: o perdão pela “cortesia” (v. 91) divina, ou por um esforço de reparação feito pelo próprio homem.  Este segundo caminho é inviável, dada a magnitude da falta (Adão quis ser igual a Deus, ao desobedecer a ordem do Senhor de não comer o fruto proibido da Árvore da Ciência do Bem e do Mal):

Non potea l’uomo ne’ termini suoi
mai sodisfar, per non potere ir giuso
con umiltate obedïendo poi,

quanto disobediendo intese ir suso;
e questa è la cagion per che l’uom fue
da poter sodisfar per sé dischiuso.         (v. 97- 102)

Não poderia nunca o homem, nos termos seus,/ compensar pois não poderia humilhar-se / tanto obedecendo
quanto pretendeu alçar-se desobedecendo;/ e esta é a razão por que o homem foi excluído/ do poder de oferecer satisfação por si mesmo.    

            Era assim necessário que Deus interviesse, utilizando um de seus meios, ou ambos (v. 105). Esses dois meios são interpretados pelos comentaristas como os da justiça e da misericórdia. A “divina bondade” (la divina bontà- v. 109) se compraz “em agir por todos os seus meios/ para vos elevar” (di proceder per tutte le sue vie,/ a rilevarvi suso /.../- v. 110-111), como diz Beatriz.  E ela também afirma que Deus poderia ter apenas perdoado o homem (v. 117) mas dada a sua generosidade Ele preferiu dar seu Filho em sacrifício, pois se isso não ocorresse, “qualquer outro modo seria insuficiente/ à justiça” (e tutti li altri modi erano scarsi/ a la giustizia /.../- v. 118-119).  

Né tra l’ultima notte e ‘l primo die
sì alto o sì magnifico processo,
o per l’una o per l’altra, fu o fie:     (v. 112-114)

Entre a última noite e o primeiro dia,/ tão alto ou tão magnífico fato,/ por um ou outro meio, não houve nem haverá:

A “última noite” é a do Juízo Final. O poeta prefere, para atender aos seus propósitos estéticos, mencionar primeiro o fim da humanidade antes de seu início... 

Prosseguindo sua fala, Beatriz novamente coloca-se no lugar de Dante e explicita mais uma dúvida deste: 

Tu dici: ‘Io veggio l’acqua, io veggio il foco,
l’aere e la terra e tutte lor misture
venire a corruzione, e durar poco;

e queste cose pur furon creature;
per che, se ciò ch’ è detto è stato vero,
esser dovrien da corruzion sicure.’     (v.124-129)

Tu dizes: ‘Eu vejo a água, vejo o fogo,/ o ar e a terra e todos seus compostos/ corromper-se, e durar pouco;
todavia, estas foram coisas criadas,/ pelo que, se o que foi dito é verdadeiro,/ deveriam ser imunes da corrupção’.

            Se foram criadas diretamente por Deus, não teriam fim, como vimos antes.

            Em sua explicação, Beatriz afirma que “Os anjos, irmão, e o lugar puro/ no qual tu estás foram criados” (Li angeli, frate, e ‘l paese sincero/ nel qual tu se’, dir si posson creati,- v. 130-131) diretamente por Deus mas não os quatro elementos citados, “e as coisas que deles se fazem” (e quelle cose che di lor si fanno- v. 134), pois “recebem forma de uma virtude criada” (da creata virtù sono informati- v. 135), essa sim criada diretamente por Deus, assim como a matéria que esses elementos contêm.  

Essa “virtude informante” (v. 137) é própria dos corpos celestes (“estrelas”- v. 138 e “luzes santas”- v. 141) que giram sobre os elementos. São as “luzes santas” (le luci sante) que extraem de uma mistura de elementos (“complexão potenciada”: complession potenzïata- v. 140) a alma vegetativa das plantas e a alma sensitiva dos animais, almas mortais.  Mas a alma humana é criada diretamente por Deus (“/.../ a Suma Bondade infunde vossa vida/ sem intermediário /.../”: /../ vostra vita sanza mezzo spira/ la somma beninanza, /.../- - v. 142-143), que a faz, além de imortal, sempre ansiar por Ele (v. 144). (7)

Nos últimos versos do Canto, Beatriz lembra a Dante que o corpo de nossos “primeiros pais” (li primi parenti- v. 148), Adão e Eva,  também foi criado diretamente por Deus, logo é igualmente imortal. Desse fato, diz ela, Dante pode deduzir  a ressurreição da carne, evento previsto para o final dos tempos (Juízo Final) segundo a doutrina cristã.
           
  
           
NOTAS



(1) MUSA, Mark-- “Dante- The Divine Comedy- Volume 3: Paradise”. Translated with an Introduction, Notes, and Commentary by Mark Musa. Penguin Books, 1986, p.87  

(2) LONGNON, Henri- “La Divine Comédie”. Traduction, préface, notes et commentaires par Henri Longnon. Paris: Garnier, 1951, p. 645.

(3) CIARDI, John-  “The Divine Comedy”: The Inferno. The Purgatorio. The Paradiso”. Translated by John Ciardi.  New American Library, 2003, p. 654.

(4) HOLLANDER, Robert & Jean- “Dante Alighieri- Paradiso”: a verse translation by Robert & Jean Hollander. Introduction & Notes by Robert Hollander.  Doubleday, 2007, p. 171..

(5) MANDELBAUM, Allen- “The Divine Comedy of Dante Alighieri- Paradiso”. A verse translation by Allen Mandelbaum. Notes by Anthony Oldcorn and Daniel Feldman, with Giuseppe Di Scipio. Bantam Books, 1986- p.334. Ver também SAYERS, Dorothy L. and REYNOLDS, Barbara—“Dante: The Divine Comedy 3- Paradise”. Translated by Dorothy L. Sayers and Barbara Reynolds.  Penguin Books, 1971, p. 113.

(6) MUSA, Mark-- “Dante- The Divine Comedy- Volume 3: Paradise”, op cit, p. 90-91.

(7) MANDELBAUM, Allen- “The Divine Comedy of Dante Alighieri- Paradiso”, op cit, p.335-336.

-------------------------------

Para ouvir o Canto VII:


(acessado em 28.08.20)


sexta-feira, 17 de fevereiro de 2017

CANTO VI

PARAÍSO


Canto VI


Justiniano- mosaico em Ravenna (séc. VI)
  
            Neste Canto, do primeiro ao último verso, quem fala é Justiniano, que se identifica no v.10: “César fui e sou Justiniano” (Cesare fui e son Iustinïano), imperador de 527 a 565 da era cristã, cuja grande obra foi a codificação do Direito Romano, compilando e depurando a legislação existente (1) (aliás, ele se  refere a esse feito no v.12: “removi das leis o excessivo e o vão”: d’entro le leggi trassi il tropo e ‘l vano). 

Justiniano inicia referindo-se à transferência “contra o curso do céu” (contr’al corso del ciel- v.2) (i.e., de ocidente para oriente) da sede do Império Romano -- representado pelo seu símbolo, a “águia” (l’aquila- v.1) -- para Bizâncio, efetivada por Constantino no ano 324 (por isso a cidade passará a se chamar Constantinopla). Quando Justiniano assumiu o trono, a sede do Império retornou para a Itália. Mas a “ave de Deus” (l’uccel di Dio- v. 4) permanecera lá por mais de duzentos anos, “perto dos montes de onde primeiro levantou voo” (vicino a’ monti de’ quai prima uscìo- v. 6), vale dizer, próximo a Troia, a região de Eneas e outros fundadores míticos de Roma (esse é o tema da “Eneida” de Virgílio). Depois da derrota na guerra contra os gregos eles emigram para o Lácio, tendo Eneas se casado com Lavínia, filha do rei Latino. Após vários governantes o poder chegou até as mãos dele, diz Justiniano (v.9) (2)  

A imagem da águia, a Águia Imperial -- símbolo, emblema ou signo do Império Romano -- será explorada frequentemente neste Canto e referida sempre em substituição ao Império que representa.

Justiniano menciona o seu abandono da heresia monofisita (para quem Cristo não tinha duas naturezas, mas só uma, a divina) e sua conversão “à fé verdadeira” (la fede sincera- v.17) pelo papa Agapito.  Passa, em consequência, a “caminhar com a Igreja” (/.../ con la Chiesa mossi i piedi- v. 22) e, inspirado por Deus, a dedicar-se integralmente à sua “alta tarefa” (alto lavoro- v. 24), a saber, a codificação da legislação romana, confiando as armas ao seu general Belisário (que venceria vândalos na África e godos na Itália). Após dizer isso, afirma que está respondida a primeira pergunta de Dante (v.28), aquela que pedia a identificação do espírito com quem conversava (cf. final do Canto V) (3).


Amos Nattini

Mas Justiniano acrescenta que sua resposta o induz a ir adiante, e apresenta, nos versos subsequentes, um rápido apanhado da história de Roma (ou melhor, do “sacrossanto símbolo”, sacrossanto segno- v.32 , a águia), desde os seus primórdios, para que Dante-personagem veja “quanta virtude o fez digno de/ reverência” (Vedi quanta virtù l’ha fato degno/ di reverenza; /.../ v.34-35)...   

 Refere-se então, rapidamente, ao sete reinados (de Rômulo a Tarquínio), depois à República e por fim ao Império, quando ocorre, durante a época de Augusto -- após este vencer seus adversários -- e de Tibério, a “pax romana” (“/.../ tempo em que o céu/ quis trazer o mundo ao seu modo sereno: /.../ tempo che tutto ‘l ciel volle/ redur lo mondo a suo modo sereno- v. 55-56),  época, não por acaso, para Dante, do nascimento e morte de Cristo. Conforme as ideias políticas do poeta florentino expostas em “Da Monarquia”, o Império Romano é a forma política desejada por Deus para o mundo relativamente ao aspecto temporal, da mesma forma que o poder espiritual cabe à Igreja Católica.
Justiniano inicialmente refere-se ao reino de Eneas transferido por seu filho para Alba Longa, onde “ele” (o símbolo, a águia romana) “fez sua morada/ por trezentos anos e mais” (“/.../ el fece in Alba sua dimora/ per trecento anni e oltre, /.../- v. 37-38), até que os três Horácios, de Roma, derrotaram os três Curiácios, de Alba (v. 38-39), e afirmaram a supremacia de Roma nessa luta entre dois povos do Lácio descendentes dos troianos. Menciona o mal que “ele” fez, “desde as Sabinas/ até a dor de Lucrécia, durante os sete reinados(/.../ el fé dal mal de le Sabine/ al dolor di Lucrezia in sete regi- v. 40-41), ou seja, desde o rapto das Sabinas, ordenado pelo primeiro rei, Rômulo, para prover de esposas seu povo, até a violação de Lucrécia feita pelo sétimo e último rei, Tarquínio (ou seu filho), o que a levou ao suicídio e motivou a deposição do rei, em 510 a.C., iniciando-se o período da República. Refere-se então às vitórias que “ele” obteve contra o gaulês Breno (390 aC), contra o grego Pirro (280 aC), rei do Epiro, aliado dos tarentinos em guerra com os romanos na Itália, e outros, razão por que certos “egrégios romanos” (egregi/ Romani- v.43-44), citados nominalmente por Justiniano, “ganharam a fama que com prazer incenso” (ebber la fama che volontier mirro-v. 48). Depois, “ele” (o símbolo, a águia) “abateu o orgulho dos árabes” (Esso atterrò l’orgoglio de li Aràbi- v. 49), vale dizer, dos cartagineses liderados por Aníbal (247-183 a.C.) (trata-se de um anacronismo de Dante: na época deste o território cartaginês estava ocupado pelos árabes, mas não na época dos romanos) (4). Nessas lutas e em outras, posteriores, destacaram-se novos heróis, Cipião e Pompeu.  

A seguir, Justiniano sumariza as ações empreendidas por Júlio César, que se apossou daquele símbolo (v. 57). Seus feitos foram vistos por determinados rios, citados nos versos, localizados na região da Gália, uma forma indireta de indicar essa região.  Prossegue, explorando a imagem da águia:

Quel che fé poi ch’elli uscì di Ravenna
e saltò Rubicon, fu di tal volo,
che nol seguiteria língua né penna.      (v. 61-63)

Aquilo que ele (o símbolo, a águia) fez depois quando deixou Ravena/ e saltou o Rubicão foi um tal voo/ que não pode segui-lo língua nem pena.

(o rio Rubicão faz a divisa entre a Gália Cisalpina e a Itália) (5)

Refere-se então “en passant” à luta dos exércitos de Júlio César contra os da República romana na Espanha, e também em Durazzo e em Farsália, onde ocorreu a batalha em que Pompeu foi derrotado no ano 48 a.C., fugindo para o Egito:  “Farsalia golpeou/ tanto que até o quente Nilo sentiu a dor” (/.../ e Farsalia percosse/ sì ch’al Nil caldo si sentì del duolo- v.65-66) (no Egito, Pompeu foi traído por Ptolomeu e aí encontrou a morte). Afirma ainda que César, perseguindo Pompeu,  andou pela região de Tróia, onde visitou “o lugar onde jaz Heitor(/.../ là dov’ Ettore si cuba-  v.68), o herói troiano,  antes de deslocar-se para o norte da África (“e depois partiu para o mal de Ptolomeu”: e mal per Tolomeo poscia si scosse- v. 69), onde  César depôs Ptolomeu, colocando Cleópatra em seu lugar, e “caiu como um raio sobre Juba” (/.../ scese folgorando a Iuba-  v.70), rei da Mauritânia, aliado de Pompeu (6).  

Justiniano dá continuidade ao seu discurso mencionando o destino que o símbolo deu, “com o portador seguinte” (col baiulo seguente- v. 73) (Otaviano, conhecido como Augusto), a Brutus que “no inferno ladra” (ne l’inferno latra- v. 74) juntamente com Cássio, enquanto a cidade de Modena se torna “dolorosa” (dolente- v.75) assim como Perugia, haja vista as derrotas infligidas aí, respectivamente, contra  as forças de Marco Antonio e seu irmão. Anos mais tarde a derrota final de Marco Antonio em Actium leva-o a cometer suicídio, o que também comete Cleópatra (v.76) (7). Augusto, que chegou em seus deslocamentos até a “margem do mar Vermelho” (al lito rubro- v.79), após suas vitórias, coloca o mundo em paz. Por isso, “fechado ficou o templo de Jano” (che fu serrato a Giano il suo delubro-  v. 81), que só abria em tempo de guerra...

Mas tudo o que o símbolo fizera antes torna-se insignificante perto do que fez no período do “terceiro César” (terzo Cesare- v. 86), Tibério, a quem coube “a glória de vingar a sua ira” (gloria di far vendeta a la sua ira- v. 90), i.e. a ira divina, motivada pelo pecado de Adão, pois foi um representante de Tibério, Pôncio Pilatos, quem autorizou a crucificação de Cristo, ocorrida na época daquele imperador. Viabilizou assim o sacrifício de Cristo, por meio do qual Ele quis, segundo a doutrina católica, apagar o pecado original para reabrir as portas do Paraíso à humanidade. O símbolo “com Tito depois apressou-se a vingar/ a vingança do pecado antigo” (poscia con Tito a far vendeta corse/ de la vendeta del peccato antico- v. 92-93). Tito, ao destruir Jerusalém no ano 70 d.C., vingava outra vingança, ou seja, punia o povo judeu que pedira a morte de Cristo, morte essa que representava reparação pelo pecado antigo, o pecado original.

Justiniano então dá um salto de sete séculos referindo-se à vitória de Carlos Magno sobre os longobardos que em 723 d.C. haviam atacado a “Santa Igreja” (Santa Chiesa- v. 95), invadindo o território papal (8).  Estabelece assim uma continuidade entre o antigo Império Romano e o Sacro Império Romano, o que fica evidenciado pela associação a Carlos Magno da expressão “sob suas asas” (sotto le sue ali- v. 95), quer dizer, sob as asas da águia romana.   

Em seguida, Justiniano concentra-se na situação política da Itália de então, caracterizada pela rivalidade entre guelfos e gibelinos. Diz a Dante que as falhas deles “são a causa de todos os vossos males” (che son cagion di tutti vostri mali- v. 99). Já fizera alusão a essas duas correntes políticas  anteriormente (no v. 33), afirmando que uns se apropriam do “sacrossanto símbolo” (sacrosanto segno- v. 32) -- caso dos gibelinos, cujo emblema era a águia romana -- e outros se lhe opõem, caso dos guelfos (9). Este partido “à insígnia universal opõe lírios amarelos” (/.../ al pubblico segno i gigli gialli/ oppone /.../- v. 100-101), ou seja,  à águia romana opõe os lírios dourados da casa real francesa. Dante, pela voz de Justiniano, critica ambos: “é difícil ver quem erra mais” (/.../ è forte a veder chi più si falli- v. 102). Manda os gibelinos adotarem outro signo e afirma que “esse novo Carlos” (esto Carlo novelo- v.106) (Charles II, d’Anjou, rei de Nápoles de 1289 a 1309, que sucedeu ao pai homônimo) com seus guelfos (partido que lidera na Itália) não tente arrebatá-lo dos gibelinos. Devem temer “as garras dele (da águia)/  que de leão maior arrancou a pele” (/.../ tema de li artigli/ ch’ a più alto leon trasser lo vello- v. 107-108), i.e. de leão maior que aquele que Charles representa, uma ameaça a este se tencionava ampliar seus domínios (10). A opção de Dante pelo Império Romano em detrimento da Monarquia Francesa fica evidenciada nos versos 110-111: “não se creia/ que Deus mude de armas pelos seus lírios!(/.../ non si creda/ che Dio trasmuti l’armi per suoi gigli!)

Logo após Justiniano responde à segunda questão levantada antes por Dante, relativa à posição dos espíritos alocados a Mercúrio na hierarquia associada ao sistema planetário. Ele explica que estão ali, nessa “pequena estrela” (picciola stella”- v. 112), “os bons espíritos que agiram/ para obter glória e fama” (/.../ i buoni spirti che son stati attivi/ perché onore e fama succeda- v. 113-114), quer dizer, se voltaram antes para os seus contemporâneos do que para Deus, assim se desviando do fim mais elevado. Mas esses espíritos estão contentes com a recompensa que corresponde ao seu mérito, “não a vemos nem maior nem menor” (/.../ non li vedem minor né maggi- v. 120).  Afirmam mais adiante:  “assim os diversos graus em nossa vida/ criam doce harmonia entre estas esferas” (così diversi scanni in nostra vita/ rendon dolce armonia tra queste rote- v. 125-126).

Nos versos finais, Justiniano individualiza um daqueles espíritos que estão “dentro desta gema luminosa(/.../ dentro a la presente margarita- v. 127), chamando-o apenas de Romeo. Trata-se de Romeo de Villeneuve (1170-1250), que serviu com correção, na condição de ministro, ao conde de Provença Raimundo Berenguer, citado nominalmente no v. 134. Mas sua obra “grande e bela foi mal agradecida” (fu l’ovra grande e bella mal gradita-  v. 129), pois ele foi vítima da intriga dos cortesãos, de suas “palavras caluniosas” (parole biece- v. 136), gente assim censurada por Justiniano:  “toma o mau caminho/ quem julga um dano a si o bem feito por outrem” (/.../ e però mal cammina/ qual si fa danno del ben fare altrui- v. 131-132). Esses comentários maliciosos levaram à perda de confiança de Raimundo no “justo” (giusto- v. 137) Romeo, que por isso parte dali,  “pobre e idoso” (povero e vetusto- v. 139). (11)

O Canto termina com os versos transcritos abaixo, em que os comentaristas assinalam a semelhança da situação de Romeo com a de Dante, no exílio:

e se ‘l mondo sapesse il cor ch’elli ebbe
mendicando sua vita a frusto a frusto,
assai lo loda, e più lo loderebbe.    (v. 140-142)

e se o mundo soubesse a coragem que tinha/ mendigando, bocado por bocado, o seu sustento,/ ele, que assaz o louva agora, mais o louvaria. 
  

NOTAS
   
(1) SAYERS, Dorothy L. and REYNOLDS, Barbara—“Dante: The Divine Comedy 3- Paradise”. Translated by Dorothy L. Sayers and Barbara Reynolds.  Penguin Books, 1971, pp.101 e 380

(2) Id. ib,, p. 102-103. Ver também MANDELBAUM, Allen- “The Divine Comedy of Dante Alighieri- Paradiso”. A verse translation by Allen Mandelbaum. Notes by Anthony Oldcorn and Daniel Feldman, with Giuseppe Di Scipio. Bantam Books, 1986- p.328.

(3) MANDELBAUM, Allen- “The Divine Comedy of Dante Alighieri- Paradiso”, op cit, p. 329.

(4) Id. ib, p. 330. Ver também HOLLANDER, Robert & Jean- “Dante Alighieri- Paradiso”: a verse translation by Robert & Jean Hollander. Introduction & Notes by Robert Hollander.  Doubleday, 2007, p. 147-148.

(5) MANDELBAUM, Allen- “The Divine Comedy of Dante Alighieri- Paradiso”, op cit, p. 331.

(6) HOLLANDER, Robert & Jean- “Dante Alighieri- Paradiso”, op cit, p.149.

(7) MANDELBAUM, Allen- “The Divine Comedy of Dante Alighieri- Paradiso”, op cit, p. 331.

(8) Id. ib, p. 332

(9) Id. ib, p. 329.

(10) HOLLANDER, Robert & Jean- “Dante Alighieri- Paradiso”, op cit, p.153.   

(11) MANDELBAUM, Allen- “The Divine Comedy of Dante Alighieri- Paradiso”, op cit, p.332

---------------------------------

Para ouvir o Canto VI:

https://www.youtube.com/watch?v=UFZs5SZyEdg

(acessado em 27.08.20)




quinta-feira, 12 de janeiro de 2017

CANTO V

PARAÍSO


Canto V


O Canto inicia com palavras de Beatriz referindo-se à própria resplandecência que, conforme explica a Dante, procede da sua “visão da perfeição” (perfetto veder- v. 5), ou seja, da sua visão participante da Sabedoria Divina. Ela flameja no “fogo do amor” (caldo d’amore- v.1) divino. Afirma também que essa “eterna luz” (etterna luce- v. 8) -- a luz da Verdade ou da Sabedoria Divina -- já atingiu o intelecto de Dante, que se sente atraído por ela, pois a luz é tal “que, uma só vez vista, o amor por si para sempre acende” (che, vista, sola e sempre amore acende- v.9). E as outras coisas (boas) desejadas pela alma humana não são mais que “vestígio” (vestigio- v.11) dessa luz (1). Dito isso, Beatriz retoma a pergunta formulada por Dante no final do Canto anterior, a saber, se é possível compensar, por alguma boa obra, o voto não cumprido.

Beatriz, em sua resposta, começa referindo-se ao maior dom da criação, concedido por Deus somente às “criaturas inteligentes” (creature intelligenti- v.23) (anjos e seres humanos), i.e., a “liberdade da vontade” (de la volontà la libertate- v.22). Com essa observação, Beatriz salienta a importância do voto religioso, ou do “pacto entre Deus e o homem” (tra Dio e l’omo il patto- v. 28), cujo significado maior é o sacrifício voluntário desse “tesouro” (tesoro- v.29), o livre-arbítrio, ofertado conscientemente pelo ser humano à divindade (2)  

Na sequência, ela passa a discutir a questão da compensação, afirmando que dois aspectos aí são essenciais: o sacrifício em si, e o pacto estabelecido, que “não se cancela jamais” (Quest’ultima già mai non si cancella- v. 46). Quanto ao primeiro, a matéria do voto pode ser substituída por matéria diversa (v.52-54). Mas isso não depende da própria pessoa e sim da “volta/ da chave branca e da amarela” (/.../ la volta/ e de la chiave bianca e de la gialla- v.56-57), vale dizer, da Igreja (cf. Purg., canto IX,v. 115-120). Além disso, o sacrifício envolvido (“a carga de seus ombros”: carco a la sua spalla- v. 55) na substituição ao voto original deve ser mais pesado, nestes termos:

e ogne permutanza credi stolta,
se la cosa dimessa in la sorpresa
come ‘l quattro nel sei non è raccolta   (v.58-60)

e toda mudança deves achar insensata/ se a coisa permutada na substituta/ não estiver contida como quatro em seis

            Mas há votos que não são passíveis de compensação, referidos nos versos 61-63. Um exemplo desses, segundo os comentaristas, é o voto de castidade, que, contra sua vontade, não foram cumpridos por Piccarda e Costanza (cf. Canto IV). 

         Como é seu costume, o poeta a seguir cita exemplos retirados da Bíblia e da mitologia clássica. São os mencionados por Beatriz, que com eles ilustra sua recomendação para que “não façam votos, mortais, levianamente” (Non prendan li mortali il voto a ciancia- v.64). Assim, não devemos ser imprudentes como Jefté, rei de Israel que -- conforme o livro dos Juízes, XI – comprometeu-se, se fosse vitorioso em sua luta contra os amonitas, a oferecer em sacrifício a Deus o primeiro ser vivo que saísse de sua casa para recebê-lo. E quem saiu foi sua filha.  O outro exemplo citado é de Agamenon (“o grande chefe dos gregos”: il gran duca de’ Greci- v. 69), que prometera sacrificar à deusa Ártemis a mais adorável criatura que nascesse naquele ano, porém recusou-se a sacrificá-la quando viu que se tratava de sua filha Ifigênia. Mais tarde foi obrigado a cumprir seu voto, pois os gregos atribuíram as más condições de navegação ao não cumprimento daquele voto (3). 

          Beatriz conclui essa sua fala recomendando que os cristãos sejam “mais ponderados no agir” (Siate, Cristiani, a muovervi più gravi- v.73) e lembrando que, para sua salvação, lhes é suficiente “o novo e o velho Testamento” (il novo e ‘l vecchio Testamento- v.76) e a orientação do “pastor da Igreja” (pastor de la Chiesa- v. 77), i.e. do papa.  

            Depois, ambos sobem para o segundo céu no sistema de Ptolomeu, o de Mercúrio. E para descrever essa rapidíssima ascensão, Dante usa mais uma vez a imagem do arco e da seta:

e sì come saetta che nel segno
percuote pria che sia la corda queta,
così corremmo nel secondo regno.    (v. 91-93)

e como uma seta que o alvo/ atinge antes que a corda deixe de vibrar,/ assim subimos ao segundo reino

            Dante nota que a alegria de Beatriz ao entrar ali fez mais brilhante o planeta (v. 94-96). 

Amos Nattini
           A seguir, espíritos resplandecentes aproximam-se deles, fato que inspira o poeta a fazer essa comparação com os peixes num viveiro:

Come ‘n peschiera ch’è tranquilla e pura
traggonsi i pesci a ciò che vien di fori
per modo che lo stimin lor pastura,

sì vid’io ben più di mille splendori
trarsi ver’ noi, e in ciascun s’udia:
“Ecco chi crescerà li nostri amori.”      (v.100-105)

Como em viveiro de água tranquila e pura/ acorrem os peixes para o que se aproxima/ julgando vir sua comida,
assim vi eu bem mais de mil esplendores/ aproximarem-se de nós, e de cada um se ouvia:/ “Eis aqui quem aumentará nosso amor”.   


Gustave Doré
            Aumentará o seu amor porque terão a oportunidade de exercer a caridade ao esclarecer as dúvidas que o “ávido engenho” (cupido ingegno- v. 89) de Dante certamente vai lhes expor (há pouco, no v. 90, ele afirmava “que já novas questões tinha diante de si”: che già nuove questioni avea davante) (4).  

            Cada alma vinha a eles “cheia de alegria/ no fulgor claro que dela saía” (/.../ piena di letizia/ nel folgór chiaro che di lei uscia- v. 107-108). Como disse Mark Musa, “Luz e alegria estão inter-relacionados  por todo o Paradiso de Dante” (5)

            Um desses espíritos (que será identificado no canto seguinte como Justiniano, o imperador de Roma) toma a iniciativa de dirigir-se a Dante, dizendo-lhe: “se tens o desejo/ de saber quem somos, satisfaça-o(/.../ se disii/ di noi chiarirti, a tuo piacer ti sazia- v. 119-120), ao mesmo tempo em que Beatriz encoraja-o a se manifestar.  Dante então afirma que  tal espírito se aninha em sua própria luz; constata sua ignorância em não saber quem ele é nem porque está naquela “esfera/ que se vela aos mortais por outros raios” (/.../ spera/ che si vela a’ mortai con altrui raggi- v. 128-129), vale dizer, Mercúrio, que se oculta de nós pelos raios do Sol. 

            Dante conclui o Canto fazendo mais uma comparação:

Sì come il sol che si cela elli stessi
per troppa luce, come ‘l caldo ha róse
le temperanze d’i vapori spessi,

per più letizia sì mi si nascose
dentro al suo raggio la figura santa;
e così chiusa chiusa mi rispuose

nel modo che ‘l seguente canto canta.    (v. 133-139)

Como o Sol oculta-se a si mesmo/ pela luz excessiva, quando o calor consome/ os vapores espessos que a moderavam,
assim se ocultou, pela alegria acrescida/ dentro de seus raios a figura santa;
e assim encerrada ela me respondeu/
no modo como o seguinte canto canta.

            Destaque-se a anáfora (ou repetição) contida nesses dois últimos versos citados (chiusa chiusa; canto canta), um recurso retórico para reforçar o efeito do que é dito (6).  


Salvador Dalí

NOTAS
  

(1) MANDELBAUM, Allen- “The Divine Comedy of Dante Alighieri- Paradiso”. A verse translation by Allen Mandelbaum. Notes by Anthony Oldcorn and Daniel Feldman, with Giuseppe Di Scipio. Bantam Books, 1986- p. 325

(2) MUSA, Mark-- “Dante- The Divine Comedy- Volume III: Paradise”. Translated with an Introduction, Notes, and Commentary by Mark Musa. Penguin Books, 1986, p.61 

(3) CIARDI, John- “The Divine Comedy”: The Inferno. The Purgatorio. The Paradiso”. Translated by John Ciardi.  New American Library, 2003, p. 636.

(4) LONGNON, Henri- “La Divine Comédie”. Traduction, préface, notes et commentaires par Henri Longnon. Paris: Garnier, 1951, p. 640.

(5) MUSA, Mark-- “Dante- The Divine Comedy- Volume III: Paradise”, op cit, p.66. 

(6) HOLLANDER, Robert & Jean- “Dante Alighieri- Paradiso”: a verse translation by Robert & Jean Hollander. Introduction & Notes by Robert Hollander.  Doubleday, 2007, p. 129.

----------------------

Para ouvir o Canto V:


https://www.youtube.com/watch?v=mUPuZY3dahI

 

(acessado em 26.08.20)





quarta-feira, 23 de novembro de 2016

CANTO IV

PARAÍSO


Canto IV


Amos Nattini
  
Dante começa por apresentar três situações em que é necessário fazer uma escolha entre duas possibilidades. Inicialmente a do homem livre, i.e. dotado de livre arbítrio, “Entre dois alimentos igualmente apetitosos e à mesma distância” (Intra due cibi, distanti e moventi/ d’um modo, /.../- v.1-2). Depois, afirma que em situação equivalente “estaria um cordeiro entre dois/ lobos famélicos, temendo ambos” (sì si starebbe un agno intra due brame/ di fieri lupi, igualmente temendo;- v. 4-5) e “um cão entre duas corças” (/.../ un cane intra due  dame- v.6), indeciso entre atacar uma ou outra. Do mesmo modo, o poeta se debatia interiormente entre duas dúvidas, suscitadas pela conversa com Piccarda (cf. canto anterior). Mas se calava, guardando-as para si, apesar de ansioso por esclarecê-las. Beatriz percebe sua ânsia de saber  e explicita as suas dúvidas, apesar de Dante não externá-las (Beatriz é comparada aqui a Daniel, referido na Bíblia, que, também por inspiração divina, soube interpretar um sonho do rei Nabucodonosor, ao contrário dos sábios da Babilônia; cf. Dan. 2:1-46) (1).

A primeira das dúvidas diz respeito à suposta redução do mérito das almas por terem quebrado os votos. Por isso estão na Lua. Mas tal fato não decorreu da vontade delas e sim da “violência alheia” (la vïolenza altrui- v. 20).  A segunda dúvida relaciona-se ao fato de que “as almas parecem retornar às estrelas” (parer tornarsi l’anime a le stelle- v.23), o que seria uma confirmação da doutrina de Platão. Beatriz começa a sua exposição por esta última, pois é aquela que “contém mais fel” (/.../ quella che più há di felle- v. 27), certamente pela sua heresia potencial, ao negar o livre-arbítrio (em “Timeu” Platão afirma que os deuses vinculam os homens aos astros ao nascer, e na sua morte sua alma retorna a eles, sugerindo uma poderosa influência dos astros sobre a conduta humana) (2).

Beatriz afirma que, no Paraíso, todas as almas bem-aventuradas estão no “primeiro céu” (primo giro- v. 34), ou melhor, no Empíreo, tanto os “espíritos que te apareceram há pouco” (/.../ questi spirti che mo t’appariro- v. 32) quanto os serafins (que é a mais alta ordem dos anjos), Moisés, Samuel, o João “que queiras escolher” (/.../ quel Giovanni/ che prender vuoli,/.../- v.29-30) -- a saber, ou o Batista ou o Evangelista -- e até mesmo Maria. Todos estão juntos a Deus, em sua morada, mas “desfrutam a doce vida diferentemente/ por sentir mais e menos o Eterno Espírito” (e differentemente han dolce vita/ per sentir più e men l’etterno spiro- v. 35-36).  Por causa dessa diferenciação na sua bem-aventurança, e tendo em vista a limitação do engenho humano (do “vosso engenho/ uma vez que só aprende através dos sentidos”: /.../ vostro ingegno,/ però che solo da sensato apprende- v. 40-41, conforme diz Beatriz a Dante), as almas aparecem para o poeta nas diversas esferas, ou céus, embora de fato estejam no Empíreo. Isso inclui as que não cumpriram integralmente seus votos, como ocorreu com Piccarda e Costanza, que apareceram a Dante no céu da Lua, o nono céu, que é o mais próximo da Terra.  

            Na sequência, Dante afirma que é por causa da limitação humana que a Escritura e a Igreja antropomorfizam Deus e os arcanjos, a fim de as pessoas compreendam melhor seres imateriais. Ele também reinterpreta o retorno às estrelas de Platão, que numa linguagem figurada pode se referir à “honra” ou à  “censura” que lhe são atribuídas dependendo do caráter da influência (boa ou má) exercida sobre os seres humanos (v. 59), uma influência que Dante admitia (3), embora sem comprometer o livre-arbítrio deles. Para os antigos, ao contrário, os astros, associados aos deuses pela sua denominação (Jove ou Júpiter, Mercúrio, Marte- v. 62-63), tinham uma influência maior, conferindo poderes aos seres humanos, ou limitando sua conduta (4).

            Depois Beatriz passa a abordar a segunda dúvida de Dante (menos grave, porque se relaciona apenas à incompreensão humana dos desígnios divinos- v. 67-69), aquela que se refere à questão da justiça divina, dada a localização diferenciada das almas que quebraram os votos no Empíreo. E analisa duas situações, uma em que a pessoa que sofre a violência “nada cede a quem a impõe” (nïente conferisce a quel che sforza- v.74) e sua vontade é comparada ao fogo na natureza,  que sempre busca a altura (v.77). Na outra, a pessoa “cede à força” (segue la forza- v. 80), “e isso elas (Piccarda e Costanza) fizeram,/ podendo refugiar-se no santo claustro” (/.../ e così queste fero/ possendo rifuggir nel santo loco- v. 80-81). Ela ilustra este caso com dois exemplos: 1) o de S. Lourenço, mártir da Igreja no ano 258 que por ordem do  imperador Valeriano foi queimado vivo numa grelha mas não cedeu à sua vontade; e 2) o de Múcio Scevola, na Roma antiga, que por ter falhado em sua tentativa de matar o rei etrusco Porsena, que sitiava sua cidade, puniu a si mesmo mantendo a mão direita no fogo para a admiração de Porsena (5). Se Piccarda e Costanza tivessem uma “vontade inteira” (volere intero- v. 82) como a de Lourenço e Múcio, “ela as teria impelido de novo à estrada/ de onde foram arrastadas, uma vez livres” (così l’avria ripinte per la strada/ ond’ eran tratte, come fuoro sciolte- v. 85-86). 

Salvador Dalí

Beatriz ainda lembra o fato de que anteriormente (cf. canto III, v. 117) Piccarda dissera a Dante “que Costanza manteve o afeto ao véu” (che l’affezion del vel Costanza tenne- v. 98), quer dizer, mantivera-se em seu coração fiel ao voto que fizera, o que parece contradizê-la. Para explicar isso, Beatriz distingue entre uma vontade absoluta e outra, relativa:

Voglia assoluta non consente al danno;
ma consentevi in tanto in quanto teme,
se si retrae, cadere in più affanno.    (v.109-111)

A vontade absoluta não cede ao mal;/ mas cede quando teme/ cair em mal maior, se resiste

         Assim, Costanza intimamente não cedeu ao mal, pois manteve-se fiel no íntimo ao seu voto. Essa é sua “vontade absoluta”. Mas objetivamente cedeu a ele, na medida em que permaneceu no casamento, e não retornou ao claustro como poderia, independentemente das consequências que isso lhe traria. Essa é sua vontade relativa (ou condicionada).  Portanto, diz Beatriz, não há contradição, entre ela e Piccarda, a respeito de Costanza,  pois Piccarda  refere-se à vontade absoluta e Beatriz à  vontade relativa:  /.../ “ambas dizemos a verdade” (/.../ sì che ver diciamo insieme- v. 114).

            Dante satisfaz as suas dúvidas (seu duplo desejo de esclarecimento) com a explicação dada por Beatriz (identificada antes, no v. 66, com a Verdade Revelada), associando sua exposição à imagem do rio cuja nascente é o próprio Deus (6):

Cotal fu l’ondeggiar del santo rio
ch’ uscì del fonte ond’ ogne ver deriva;
tal puose in pace uno e altro disio.    (v.115-117)

Tal foi o ondular do santo rio/ que saía da fonte de onde toda verdade deriva;/ ele pôs em paz ambos os meus desejos.

Dante-personagem finaliza o Canto agradecendo (de modo insuficiente,  segundo ele) a explicação de Beatriz, chamando-a de “amada do primeiro amante” (O amanza del primo amante, /.../- v.118), Deus, o qual também é referido indiretamente logo  adiante, quando ele pede a “aquele que tudo vê e pode(/.../ quei che vede e puote /.../- v. 123) lhe agradecer  em seu lugar. 

Para ele, o intelecto só se satisfaz quando encontra a verdade divina. Inclui aqui uma comparação ousada, para ilustrar esse fato: a do ser humano (seu intelecto) com um animal selvagem e a da verdade divina com uma caverna. Assim, quando o primeiro encontra afinal a segunda, “Repousa-se nela, como fera no covil,/ logo que a alcança;” (Posasi in esso, come fera in lustra,/ tosto che giunto l’ha; /.../- v. 127-128). Depois dessa, vem outra comparação, ao afirmar que a dúvida surge do desejo de maior conhecimento, próprio do ser humano:  “Nasce dele, como um broto/ na raiz da verdade, a dúvida;”  (Nasce per quello, a guisa di rampollo,/ a piè del vero il dubbio; /.../- v.130-131). Esse fato deixa Dante confiante para levantar a Beatriz mais uma questão: ele quer saber se é possível ao ser humano reparar os votos não cumpridos com novas ações. Mas os olhos dela “plenos/ de fagulhas de amor, tão divinos(/.../ pieni/ di faville d’amor così divini- v.139-140) afetam tanto sua “faculdade de ver” (mia virtute- v. 141) que ele quase perde os sentidos. É  nesse ponto que o Canto se encerra.   
     

NOTAS

(1) MANDELBAUM, Allen- “The Divine Comedy of Dante Alighieri- Paradiso”. A verse translation by Allen Mandelbaum. Notes by Anthony Oldcorn and Daniel Feldman, with Giuseppe Di Scipio. Bantam Books, 1986- p. 322

(2) Id, ib, p. 323

(3) Id, ib, p. 323

(4) HOLLANDER, Robert & Jean- “Dante Alighieri- Paradiso”: a verse translation by Robert & Jean Hollander. Introduction & Notes by Robert Hollander.  Doubleday, 2007, p. 102.

(5) MUSA, Mark-- “Dante- The Divine Comedy- Volume III: Paradise”. Translated with an Introduction, Notes, and Commentary by Mark Musa. Penguin Books, 1986, p.52. 

(6) CIARDI, John- “The Divine Comedy”: The Inferno. The Purgatorio. The Paradiso”. Translated by John Ciardi.  New American Library, 2003, p. 629.  Para a identificação de Beatriz com a Verdade Revelada, p. 628.

------------------------------

Para ouvir o Canto IV:

 

https://www.youtube.com/watch?v=U_NUXHzs8BU

 

(acessado em 25.08.20)